Professor comemorou ontem 70 anos

Última lição de Fernando Catarino num dia de sol, no Jardim Botânico

Cerca de meio milhar de pessoas, alunos, novos e antigos, amigos, colegas e curiosos, encheu ontem o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa para assistir à última aula do biólogo Fernando Catarino, professor da Faculdade de Ciências há mais de 40 anos e director do jardim há 20. Catarino escolheu o dia do seu septuagésimo aniversário para comemorar a jubilação. E ninguém quis faltar, para poder dar os parabéns ao professor.

A velha carrinha 4L do jardim teve de transportar, toda a manhã, uma coluna de som e tiveram de arranjar a Fernando Catarino um microfone para dar a aula que ele nunca imaginou que fosse tão concorrida. "Isto parece o dia do bolinho, do pão-por-Deus. Mas daqui não levam nada, a não ser, talvez, um dia de Sol no jardim.

Empoleirado nos pilares da escadaria do edifício da antiga Escola Politécnica, Fernando Catarino tentava organizar a multidão: "Os meus alunos para a frente." A aula ia começar.

"Vou socorrer-me de algumas notas. Vamos enlear-nos na história das plantas. Como é que elas se orientaram, na sua evolução, como é que se desenvolveram os seus órgãos, para fazerem, por exemplo, a fotossíntese. E às 11h15, impreterivelmente, a hora a que a minha mãezinha me pôs cá fora, vou entrar em repouso merecido."

Catarino recorre a um pezinho de salsa, que trouxe do quintal de casa, para mostrar como as plantas usam a sua anatomia: "Tive de andar às apalpadelas para o apanhar ontem à noite. É que tenho um quintal ecológico e lá não se matam caracóis, mudam-se de lugar. Mas eles comem a salsa toda". E a salsa solitária do quintal torna-se protagonista. Depois mostra mais um ramo de choupo: "Por que é que as folhas dos choupos abanam tanto? Porque, ao contrário de outras plantas, o choupo precisa de gastar a água que tem armazenada, mexendo-se muito, pois vive em solos encharcados, à beira de riachos", explica o professor.

"Nunca tive alunos tão bem comportados. Todos em silêncio. E nas aulas obrigam-me a dizer palavrões!", gaba assim a atenção da multidão. A seguir sugere que a aula entre pelo jardim: "Percam-se, deixem-se perder neste emaranhado de ruas e vamos encontrar-nos dentro de pouco tempo no corredor lateral à Avenida das Palmeiras."

Já tinha subido de novo a um pilar de escadaria, quando batem as 11h15. A multidão canta em uníssono os parabéns ao professor Catarino, que tem direito a uma taça de espumante. "Queria agradecer a todos a vossa presença. Mas tenho aqui uma pessoa a quem estou particularmente grato." Faz então subir a um escadote a única, entre todos os alunos, que foi sua professora: "Maria de Lurdes Franco, faça favor de subir. Era assistente, um bocadinho mais velha do que eu, fui seu aluno no meu primeiro ano. Está a chorar, coitadinha. Não chore, é alegria!"

Alunos e colaboradores, na universidade e no jardim, chegam então com as prendas para o aniversariante. A primeira traz um esqueleto de uma folha a enfeitar. Catarino deleita-se com a folhinha, tal como as crianças que se fascinam com o papel de embrulho e ignoram as prendas. É uma placa, comemorativa, feita para o dia. Mas a maior surpresa veio da Holanda. Hans Linskens, de 81 anos, uma das referências mundiais da biologia vegetal, orientador da tese de doutoramento de Fernando Catarino, veio, sem que ele soubesse, assistir à última aula.

Fernando Catarino garante que não volta às aulas ou à direcção do Jardim Botânico. Talvez consiga agora fazer aquilo para que nunca teve tempo - pensa em fazer um guia do Jardim Botânico, completo. E despede-se: "Foi com muito gosto e dedicação que dei aquilo que pude à Universidade de Lisboa, que é a minha casa-mãe. Estou aqui ainda para as curvas. Mas não estas, da universidade e do jardim. Vou dar as minhas curvas."