Bem-vindos à nossa prisão - Uma ilha de liberdade em Tires

Na prisão feminina de Tires, não há grandes criminosas. Apenas jovens que alguém induziu a cometer um crime, quase sempre tráfico de droga. Nesta verdadeira catedral erguida à impunidade, uma professora decidiu dar um curso sobre o tema da liberdade na literatura. No contacto com a arte, algumas reclusas sentiram pela primeira vez os laços que as ligam à sociedade humana. São mulheres com vidas extraordinárias mas extraordinariamente sós. Por isso não escolheram o seu destino. Na liberdade que lhes foi dada, todos os caminhos iam dar a Tires.

O que torna uma vida extraordinária é o acaso de se ter cruzado com a nossa. Aqui estão treze mulheres normais. Em mesas colocadas em círculo, como numa sala de aula, no meio da prisão de Tires. Uma professora no desemprego, Fernanda Pinto, propôs-se vir ensinar literatura na prisão. Escolheu um tema - a liberdade - e trouxe livros, discos, pinturas, poemas, fotografias, contadoras de histórias, especialistas de arte. E ideias absolutamente imprevistas, que mobilizaram 13 personalidades invulgares.A literatura, essa, raramente terá brilhado tanto na sua conturbada história. Traficantes, ladras, assassinas, marginais revoltadas e escorraçadas compreenderam Fernando Pessoa, discutiram José Rodrigues Miguéis, amaram Sophia de Melo Breyner, sentiram-se felizes com José Gomes Ferreira.Chamem-lhe reabilitação, milagre. É piroso, mas é um facto: a arte redime.Fernanda Pinto criou, no meio da prisão de Tires, uma ilha de liberdade. Treze mulheres, quase todas muito jovens, compreenderam, falando olhos nos olhos, com voz firme e suave, com límpida inteligência, por vezes com paixão febril, que a cultura é o lugar de reconciliação com a sociedade, o único onde o Inferno não são os outros. Uma pequena ilha de terra firme, onde se pode ser livre, como nesta estranha sala no meio do pesadelo de Tires.Olhando para as treze reclusas, ali sentadas com as suas batas, alunas aplicadas e brilhantes, é impossível não pensar: o que estão estas raparigas a fazer aqui? Os seus crimes são quase sempre tráfico de droga, ou furto, quase sempre por desespero, ou por amor, ou a mando de alguém. Não há, em toda a prisão de Tires, uma única grande traficante, uma única mafiosa. São quase todas condenadas por procuração. Peões a cumprir a "cana" de outros, sob "contratos" miseráveis - "agarras-te, não me denuncias e não te faltará nada na prisão" - vendidas por um maço de cigarros, um cartão de telefone, um cesto de comida deixado na portaria.Como se o caminho lhes tivesse sido indicado. Lhes fosse alheio e adverso mas ainda assim o seu, porque é o único que têm, e era o único possível. E porque o caminho que as trouxe até à prisão é a única prova da sua liberdade. Como se tivessem cavado o seu próprio túnel não para fugir da prisão mas para vir até cá. É impossível não pensar, abafando uma gargalhada de ironia e ultraje: Eis a fina-flor do mundo do crime, a empáfia do nosso sistema criminal, a elite da ralé, a nata da escória, a espuma da escumalha!Lá fora, a toda a volta da ilha que é esta sala, sente-se a prisão, esmagadora, a chiar nos gonzos como um navio encalhado e ferrugento. Uma catedral de luz cruel, ferro cor de rosa e hipocrisia. Os três andares absolutamente iguais do pavilhão, com as filas de celas, as escadas, as grades, os portões, de uma geometria perfeita e opressora, de uma beleza cortante, como um rosto demasiado perfeito a surgir no pico de um pesadelo.As mulheres fechadas nas celas, a hora do "conto", quatro vezes por dia, para confirmar que ainda estão todas. O eco insuportável dos altifalantes, sempre a dar ordens, a chamar pessoas, a lembrar os horários implacáveis.Os tráficos, os castigos, a droga, a sida, as depressões, os suicídios, os gritos, o tédio, o ódio, o cinismo. A coqueteria arrepiante das celas, cheias de fotografias, de rendas, de bonecas, de ursinhos, de santinhos de papelinhos, de florzinhas, de coraçõezinhos. A impossibilidade da solidão, da privacidade, o inferno dos outros.Na aula, a professora distribuiu textos, imagens e músicas, que pudessem sugerir a cada uma um local que significasse silêncio e liberdade. Um sítio especial com que sonhassem e onde se sonhassem livres.Várias mencionaram praias, uma falou de um jardim, outra no seu quarto. Paula Esteves, 28 anos, uma morena magra e muito bonita, parou de sorrir pela primeira vez, fixando uma fotografia com uma paisagem. "Isto faz-me lembrar um local em Sintra, que é muito especial para mim. É um silêncio vivo." A intensidade inusitada das suas palavras provocou o silêncio na sala. "Quando a minha mãe morreu, eu estava muito mal, e fui para este sítio lindo, para estar em silêncio. E desde aí fui lá muitas vezes, sempre sozinha..."Estão todos à mesa, a almoçar. Bairro de Chelas, Zona J., 11 de Setembro de 1991. Está a família toda, a mãe, o padrasto e todos os cinco irmãos. Mesmo a mais velha, Deolinda, com o marido. Comem peixe-espada grelhado com batatas, uma iguaria, só para dias especiais. Quando sobra apenas uma posta na travessa, a mãe pergunta: "Quem quer a última?" Os filhos respondem quase em coro: "Come tu, mãe". É uma espécie de simbólico tributo, a demonstrar a atitude de gratidão para com uma mulher que, tendo enviuvado muito jovem, conseguiu, a trabalhar nas limpezas, manter cinco filhos, sem nunca passarem fome, quase todos a estudar e quase nenhum envolvido na criminalidade ou na droga. Ela percebe isto, sorri e prepara-se para comer o último pedaço da travessa quando cai inanimada.Ninguém percebeu o que se passou. Levaram-na para o hospital, em coma. Rebentara-lhe uma veia na cabeça, foi a explicação. Três dias depois, bateram à porta. Paula, que tinha então 17 anos, foi abrir. A tia entrou e disse, sem mais nem menos: "A tua mãe morreu".Paula saiu a correr. Meteu-se no carro e guiou até Sintra. Foi então que descobriu aquele local. Fica num jardim com um lago, à beira de um palácio, e tem uma vista deslumbrante. Paula ficou ali, durante horas, como ficaria, de todas as inúmeras vezes que voltou, ao longo dos anos. A deixar-se imbuir, possuir, dilacerar pela paisagem sublime. A pensar: se existe tanta beleza ela não pode ter morrido.Paula nasceu com a nossa liberdade, em 1974. No "Camboja", um bairro tão pouco recomendável que foi mandado destruir, como Sodoma. Uma espécie de ilustre antepassado do Casal Ventoso, onde Paula se lembra de conviver, desde criança, com os chutos, os tráficos, a violência, as rusgas da polícia. A sua família era das poucas que não se dedicavam ao tráfico, graças à atitude intransigente da mãe. Daí ter expulso a irmã mais velha, quando ela se juntou com um traficante.O pai de Paula morreu num acidente de moto quando ela tinha 10 anos. Sozinha com a mãe e os irmãos, ainda estudou até ao nono ano. Depois foi trabalhar, primeiro num café, depois nos supermercados Makro.Quando a mãe morreu, foi como se a brutal realidade lhes tivesse desabado em cima. Deolinda e marido acharam-se no direito de ir viver lá para casa, impondo um regime de terror aos irmãos mais novos.Paula não suportava o cunhado, que além de lhe extorquir todo o dinheiro que ganhava, fechava-a em casa e espancava-a. Um dia, agarrou-a pelos cabelos e deu-lhe com a cabeça contra uma coluna de pedra. Foi demais. Paula fugiu. Foi viver com uma amiga, onde depois se lhe juntou o irmão mais novo, Alex.Finalmente eram livres, mas não havia dinheiro para comida, nem para se vestirem, nem para se divertirem. Eram jovens e sozinhos num mundo simultaneamente hostil e deslumbrante. Começaram a fazer o que sempre viram os amigos fazer, e lhes parecia fácil: assaltos. Eram pequenos furtos, primeiro, para matar a fome, mas em breve reuniram um grupo e se especializaram. Assaltavam lojas, empresas, ourivesarias. Roubavam um carro, iam até uma terreola fora de Lisboa, vigiavam o local, faziam planos, dividiam tarefas. Partiam o vidro da montra durante a noite, ou entravam pelas traseiras, carregavam o carro com a mercadoria. Cada vez mais profissional.Depois começaram a ir a Marrocos, levar ouro e trazer droga. Iam três carros, um para "dar à morte". Era o primeiro da fila, onde ia um grupo a fumar ganzas, com a música no máximo, numa grande algazarra. Era esse carro que a polícia de fronteira mandava encostar, para revistar. Encontravam apenas umas gramas de haxixe e deixavam-nos seguir, horas depois. Mas já os outros dois veículos tinham passado com muitos quilos de cocaína, ou ouro roubado.Mas mesmo assim a actividade tinha os seus perigos. Alex foi apanhado e preso. "Agarrou-se" e conseguiu ilibar Paula, que passou apenas a "emprensar" - preparar a droga em bruto para a venda, em grandes quantidades. Era só lucro, com pouco trabalho e nenhum risco.Ao contrário da irmã mais velha, Deolinda, que vendia pequenos pacotes aos consumidores, e foi presa, por coincidência, dias depois do irmão mais novo, Alex, ter sido libertado.Paula e Alex ainda falaram com Deolinda na esquadra, antes do julgamento, e foi aí que ela lhes disse, em pranto, estar convencida de que fora o marido a denunciá-la.Paula e Alex esperavam há anos por aquele momento. Correram para a antiga casa da família, onde se encontrava o cunhado, e mimaram-no com o maior enfardamento de pancada de toda a sua vida. Escorraçaram-no. E regressaram a casa.Foi nessa altura que Paula teve o filho, Sandro, fruto de um relacionamento ocasional. Foi um milagre ter nascido perfeito, tantos foram os comprimidos e as manobras que usou para abortar. Talvez por isso mesmo o tenha amado tanto, quando ele nasceu.O preço que pagaram foi alto mas estavam agora, finalmente, bem "instalados" na vida. Paula, verdadeira mulher moderna de acção, mãe solteira, a "emprensar", numa casa alugada para o efeito. (Quase um "trabalho de escritório", segundo ela). Óculos escuros e pistola no bolso, ao volante de um Renault Clio vermelho todo "kitado", motor modificado, jantes saídas, espalhafatoso aileron, quatro escapes...Mas Alex foi preso outra vez e pouco depois foi a vez de Paula. Um "correio", João, trazia e levava as "encomendas", e Paula trabalhava em casa, onde tinha as prensas, muitos quilos de droga, dezenas de armas e munições, centenas de contos em notas falsas. Foram estas que a tramaram. Deu 100 contos delas ao João. O filho deste, que trabalhava na Telepizza de Moscavide, roubou as notas ao pai, e começou a passá-las, no trabalho. Foi apanhado, a um sábado, segunda-feira de manhã Paula tinha a polícia à porta.Havia ali matéria para mais de 15 anos de prisão, mas, na condição de Paula não implicar o rapaz da Telepizza, João assumiu tudo. Disse ao juiz de instrução que Paula, uma consumidora que lhe devia dinheiro, estava apenas a guardar, a seu pedido, todo o material, o arsenal e a droga. Paula nem queria acreditar quando a mandaram em liberdade, ficando o pobre João preso, oito anos. Seria detida pouco depois, não por nenhum dos crimes que cometeu, mas por estar com uma amiga quando esta decidiu, numa casa-de-banho da Expo, roubar uns óculos e um isqueiro a uma mulher. Apanhou três anos e meio.Na aula, lêem o conto "Parece Impossível mas eu sou uma Nuvem", de José Gomes Ferreira. Rosângela Nascimento, 25 anos, brasileira, diz a sua conclusão, com uma expressão um pouco afectada: "Podem-nos impedir de agir, mas não de pensar. Eu estou presa, mas o meu pensamento é livre".Tinha esta mesma cara de atrevimento e meiguice quando, em Março do ano passado, chegou à Praça da Sé, em São Paulo. É o local, na grande metrópole brasileira, onde se procura e oferece trabalho. É a grande placa giratória de todos os tráficos, esquemas, negociatas e golpaças. Há quem se ofereça para a prostituição, quem procure cúmplices para assaltos, ou correios para levar droga para o estrangeiro. Rosângela vagueou entre a multidão. Precisava de um trabalho, para ganhar dinheiro, e os traficantes sabem reconhecer um olhar desesperado. Alguém a abordou e propôs a viagem a Portugal, para trazer uma mala de roupas. Pagavam três mil dólares. Aceitou, embora percebesse logo que não se tratava de roupa.Beijou o filho recém-nascido, Mateus, e o marido, Leandro. "Tenho um trabalho. Volto dentro de cinco dias". Partiu para Fortaleza, onde ficou dois dias num hotel. Foi-lhe entregue o bilhete, o passaporte e a mala com roupa e três quilos de cocaína. Partiu, com a mala e os inseparáveis diário e ursinho de peluche, de avião para Lisboa, de onde deveria seguir para Amesterdão. Mas na escala na Portela foi abordada por um polícia. "Rosângela Nascimento? Acompanhe-me por favor". Foi interrogada numa sala do aeroporto. Revistaram-lhe a mala, lá estavam os três saquinhos com pó branco. Apanharia 4 anos e seis meses.Os polícias olharam-lhe para a blusa justa, algo embaraçados. Estava empapada de leite. Era hora de amamentar Mateus. Rosângela nasceu na Baía. Aos 18 anos preparava-se para entrar na Universidade, mas apaixonou-se. Leandro adorava o teatro e a aventura. Partiu para São Paulo e Rosângela fugiu de casa para ir atrás dele. Alugaram um apartamento e viveram juntos cinco anos, apesar da permanente falta de dinheiro. Ele trabalhava no teatro - a montar e desmontar palcos. Ela numa fábrica durante o dia e numa padaria à noite. Leandro era louco por crianças e Rosângela amava-o perdidamente. Ficaram felizes quando ela engravidou. Mas o bebé morreu na altura prevista para nascer. Engravidou outra vez mas Leandro andava estranho. Um dia, alertada por um amigo, dirigiu-se a uma certa morada. Bateu, ninguém respondeu. Como a porta estava aberta, avançou pela casa, até um quarto onde encontrou Leandro, na cama com... um travesti. Ele chorou e implorou perdão e ela cedeu. E recuperou a felicidade porque pouco depois o filho nasceu. Mas logo se tornou claro que Mateus não era uma criança saudável. Tinha dificuldade em respirar, por vezes ficava azul e quase morria asfixiado. Tinha um pulmão maior que outro e precisava de um tratamento urgente e caro.Rosângela estava cheia de dívidas. Pensou: "Vou fazer uma loucura". Foi então que foi à Praça da Sé. Três dias depois estava presa em Portugal. Cinco dias depois uma vizinha acudia Mateus, que chorava desesperadamente, sozinho. Leandro tinha abandonado a casa e o filho.A aula prossegue, com performances, coreografias improvisadas para músicas, leitura dramatizada de poemas. Fernanda pede para escolherem, dos poemas, frases que lhes digam algo especial.Celeste Bandeira, 40 anos e rosto de serenidade revoltada, escolheu esta: "...vós amais o que é fácil. Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os Abismos, as Torrentes, os Desertos..."Sexta-feira, 18 de Maio de 2001. Celeste está na área de Chegadas do aeroporto de Lisboa e ainda não sabe que a sua vida está prestes a mudar para sempre. Vive em Estremoz mas veio para Lisboa, na véspera, para comemorar o seu aniversário com o pai. E também para o casamento da enteada, no dia seguinte. É por isso que está aqui. O Paulo e a Luísa, amigos da filha do Carlos, seu actual companheiro, estão a chegar do Porto.Aterraram vários aviões, há muita gente à espera e na multidão Celeste reconhece um velho amigo. Cumprimenta-o. É polícia, mas sabe porque ele está ali. Anos atrás, foi ela própria recebida por ele, neste mesmo aeroporto. Mas as circunstâncias eram outras. Hoje, quase com 40 anos, trabalha num restaurante, e tanto ela como o Carlos, dez anos mais velho, nada mais querem do que o sossego da sua casa no Alentejo. Foram esperar os convidados mas nada se passou como previsto. No dia seguinte, foi preciso inventar uma desculpa para a ausência do pai e madrasta da noiva.Celeste lançou um último olhar em redor, minutos antes de o cenário se tornar hostil. Diante de si urdiam-se rapidamente as malhas de uma gigantesca teia internacional do crime, mas ela não percebeu isso. O polícia sim. Quando os acontecimentos se precipitaram, ainda tentou localizá-lo mas ele desaparecera. O polícia-traficante entrou à pressa no seu carro, no momento em que ficava apreendida na alfândega a mala com 12 quilos de cocaína que lhe era destinada e em que um grupo de homens se precipitava sobre Celeste, apontando-lhe uma pistola. O polícia arrancou com o carro sem levantar suspeitas, pensando na primeira vez que viu, há mais de dez anos, a rapariga de olhos perturbadoramente serenos e voz impassível. Notara logo, sob aquela superfície de amena indiferença, o caudal crescente de revolta que lhe tomava o interior e a tornava vulnerável.Teria uns 27 anos, era bonita e alcoólica, trabalhava ali, no bar de alterne, desde o seu divórcio. Contara-lhe isto e muitas outras coisas e o polícia não ignorava que a forma como uma alternadeira se abre assim com os seu clientes é a medida mais fiel do seu próprio desespero.Desde criança, queria ser actriz e aos 18 anos entrou para o Parque Mayer. Mas viu que tinha mais aptidão para bailarina de topless. Depois de dois anos na Síria, casou, tirou um curso de massagem e tornou-se na primeira mulher massagista de futebol de seniores, no Queluz. Foi o ano em que o clube subiu de divisão, feito que os jornais desportivos não deixaram de atribuir a uma invulgarmente boa forma física dos jogadores. "Com uma massagista assim..."Mas o casamento não durou. Celeste descobriu que era estéril e o marido abandonou-a. Voltou aos palcos, agora dos clubes de strip-tease. Dançou no Fontória, no Ritz, em boites, em despedidas de solteiro. Foi a primeira modelo do famoso Bar 25, o primeiro "peep show" português, depois em bares de alterne.O polícia pagou-lhe uma garrafa de whisky, como de costume, e esperou que ela desabafasse sobre as dificuldades que tinha em pagar a mobília. Depois, fez a sua proposta. Era tudo fácil e divertido e no fim ganharia mil contos. Celeste aceitou.Foi ao Brasil. Ficou uma semana num hotel, em São Paulo, onde alguém lhe entregou uma geladeira aparentemente vazia mas com cocaína no fundo falso. Ela só teria de comprar frutas tropicais, encher com elas a geladeira e regressar a Lisboa. O polícia esperava-a no aeroporto, entregava-lhe o dinheiro, em troca da geladeira. Simples. Fez a viagem três vezes no espaço de um ano, nunca foi apanhada. Só havia uma condição, que o polícia lhe explicara no início: "Se fores apanhada, não dizes que aquilo é meu. Dás o nome falso de um fulano qualquer e assumes as culpas. Quando estiveres na cadeia, não te faltará nada".Depois Celeste conheceu Carlos, que era proprietário de casas de alterne, foi viver com ele e deixou de trabalhar na noite. O negócio faliu e foram para o Alentejo, ela a trabalhar num restaurante, ele como empregado num bar. O passado, bem como o futuro que sonharam, estava definitivamente morto e esquecido, não tivesse hoje, no aeroporto de Lisboa, voltado para o ajuste de contas. Os homens cercaram Celeste, apontaram-lhe uma arma, algemaram-na. Quando entrou no carro da Polícia Judiciária, Carlos já lá estava, algemado também.Na prisão, Celeste leu e releu o processo, onde constavam, além do seu, dezenas de nomes supostamente envolvidos numa vasta rede internacional de crime organizado. Convencida de que tinham sabido das suas antigas viagens ao Brasil, chamou a Judiciária e confessou tudo.Os polícias ficaram pasmados. Tinham-na detido por suspeita, quando a viram falar com o polícia-traficante. Não sabiam de mais nada. Agora já sabem. O julgamento será no próximo ano, a pena deverá ser superior a dez anos.Se Celeste trabalhasse para um traficante "não lhe faltava nada na prisão". Mas falta-lhe tudo. Não recebe visitas, nem cartas nem telefonemas (Carlos era o seu único amigo e também está preso). Está avassaladoramente sozinha mas isso não prova a sua inocência.A propósito do conto de José Gomes Ferreira, a discussão está acesa. "Temos de nos adaptar à realidade. Quem somos realmente nunca o saberemos", diz uma. "Existe uma liberdade material e uma espiritual. Aqui só não temos a material", diz outra. "Pois eu já estou farta de liberdade espiritual", responde a primeira. "Todos andamos à procura do nosso eu", diz Paula. "Eu acho que nos esquecemos de ser nós próprios", conclui Maria Ofélia Peres, 29 anos, brasileira.Maria Ofélia começou a trabalhar aos 15 anos, numa fabrica de camisas, em Mato Grosso do Sul. Como não conseguia suportar a repressão da família, foi viver sozinha aos 17 anos.Teve namorados, mas achou-os todos possessivos. Nunca quis viver com ninguém, nem mesmo com o único homem que amou e que viria a ser o pai da sua filha.Aos 21 anos, entrou para uma rede de restaurantes como gerente de contabilidade. Isso antes da crise económica. Mato Grosso fica na fronteira com o Paraguai e vive do turismo. Quando, há quatro anos, o dólar começou a subir, a empresa de restaurantes faliu e Ofélia ficou desempregada. Foi também nessa altura que ficou grávida, o que tornou ainda mais difícil arranjar emprego. A mãe reformara-se, o pai morrera.Sem dinheiro, Ofélia deixou acumular dívidas. A situação tornou-se desesperada. Voltou para casa da mãe, separou-se do namorado.Foi pouco depois de a filha, Raíssa, ter nascido que surgiu a proposta. Um amigo apresentou-a a alguém que lhe explicou os termos do acordo. O que ela tinha a fazer era simples: levar uma mala com dois quilos de cocaína até Portugal. Receberia cinco mil dólares.Ofélia nunca tinha visto cocaína. Nunca tinha fumado maconha, nem sequer tabaco. Não fazia ideia que dois quilos é pouco para arriscar uma viagem. Explicar-lhe-iam mais tarde, já na prisão, que foi usada como isco, denunciada para que outras passassem com maiores quantidades. Foi dada à morte. Na altura, o homem garantiu-lhe que o risco era praticamente nulo. Ofélia pensou no seu futuro com Raíssa e aceitou.Deixou a filha com a avó e veio, aterrorizada, através da Venezuela. Foi presa no aeroporto de Lisboa. Apanhou seis anos de prisão, de que já cumpriu dois. Raíssa vive com o pai, que trabalha como funcionário dos correios, casou e tem outros dois filhos. Ofélia fala regularmente com ela ao telefone. Com dois anos, Raíssa está feliz mas não sabe que Ofélia, de quem se separou aos três meses, é a sua mãe. Talvez nunca venha a sabê-lo, nem a senti-lo, é esta a única dor de Ofélia, que na melhor das hipóteses será libertada dentro de dois anos. Fala alegremente com Raíssa ao telefone e sonha com o dia em que alugará uma casa perto dela, e tentará reconquistá-la. Desliga o telefone e chora, fechada na cela, agarrada à solidão absoluta de cada lágrima como se fosse o seu último cristal de liberdade. Na prisão, Ofélia trabalha para poder comprar cartões de telefone para si, e para outras reclusas com filhos. Muitas chamam-lhe a sua "mãe de cana".De repente assalta-nos um pensamento alucinado: estamos perante seres humanos vivos a reagir de forma descontrolada a uma experiência macabra. Emocionam-se tão facilmente.Lêem um texto e identificam-se imediatamente com o autor. "Eu senti-me muitas vezes assim", diz Célia González, 46 anos, espanhola, a propósito de um conto de Miguéis. "Tinha uma necessidade incontrolável de partir"."Mãe, eras tão bonita", disse Alícia ao ver um vídeo antigo de Célia. "Tão diferente do que és hoje". Foi pouco antes de os seus caminhos se separarem.Célia sempre foi uma menina bonita. Imaginemo-la com cinco anos, ou seis, em Ponferrada, na região de León. Mais propriamente Cobrianos, que na altura era uma aldeia.O pai, mineiro, como o avô, tinha alma de artista. Cantava e dançava. E bebia. Muito. Tinha amantes, batia nos filhos e na mulher. Mas Célia adorava-o, por ter herdado a vocação.Um dos irmãos, José, tinha casado e vivia em Barcelona. Célia sabia que ficava lá uma das melhores escolas de Belas Artes do país, Massana. Ofereceu-se para ir tomar conta da sobrinha. Em breve arranjou um emprego numa fábrica de caixas e alugou o seu próprio apartamento. Tinha 14 anos. Trabalhava dez horas por dia, não conseguiu entrar para Massana, mas ficou fascinada pela vida de Barcelona. Era outro mundo. Um mundo de glamour, de arte, de puro gozo da vida.Em breve teve de regressar a Ponferrada. Foi o pai quem ficou doente primeiro. Dos pulmões, por causa das minas de carvão. Teve de deixar o emprego, e trabalhar como vigilante rural, o que o tornou ainda mais agressivo com a mulher. Ela não resistiu. Adoeceu também. Célia ficou a viver com eles. Foi nessa altura que conheceu o Juan, na discoteca onde ele trabalhava como DJ. Juan era de uma família rica de Ponferrada. Tinha 17 anos, ela 16.Engravidou e começaram a namorar, com a aquiescência dos pais de Juan. Célia deixou-se adoptar, seduzida pela aparente fortuna material e espiritual daquela família, tão diferente da sua. Mas isso só aconteceu enquanto foi possível disfarçar a barriga. Casar com a filha do mineiro estava fora de questão para o clã de colunáveis de Ponferrada. E como Juan insistisse nesse propósito, os pais puseram-no fora de casa. Os de Célia imitaram-nos. A mãe chamou-lhe "puta" e pô-la na rua. Casaram, Alícia nasceu em Setembro, em Outubro Juan foi para a tropa, perto da Corunha. Aparecia aos fins-de-semana, com amigos, a fumar haxixe e a cheirar coca. Quando regressou, as coisas ainda pioraram. Abriram uma discoteca, Juan meteu-se a fundo nas drogas, andava com outras mulheres. Contra a vontade dos dois, nasceu-lhes mais um filho, Fernando. Os pais de Célia morreram, ambos de cancro no pulmão. Primeiro a mãe, um mês depois o pai, por desgosto, segundo Célia. Que nessa altura começou também a consumir drogas, induzida por um dos amigos de Juan, Miguel.Alícia e Fernando sofriam com isso. E Célia compreendeu que se desaparecesse, a família de Juan tomaria conta deles. Uma noite, fugiu para Madrid, com Miguel e o cartão de crédito de Juan. Pouco depois, para Barcelona. Tinha 26 anos, era uma mulher atraente e livre, com uma conta bancária praticamente ilimitada. Foi a loucura.Frequentava a vida nocturna, as mais badaladas festas, os meios artísticos e boémios. Cheirava cocaína, injectava heroína, intoxicava-se com LSD, anfetaminas, morfina, cogumelos. Uma vez, decidiram passar um fim-de-semana alucinante em Menorca. Tinham muita mescalina, queriam fazer orgias sexuais, ultrapassar todos os limites. Era um grupo grande, Célia pagava tudo.Alugaram um carro, despistaram-se, embateram a 130 à hora de frente contra um muro de pedra. Célia deslocou as vértebras, Miguel teve três fracturas numa perna.O médico recomendou ficar três meses em Menorca. Alugaram um apartamento, tornaram-se o terror de Menorca. Miguel usava o cabelo à Tim-Tim, Célia tinha a cabeça rapada. Auto-designavam-se "punks ecologistas". Tantos distúrbios provocaram na pacata ilha, que saíram em todos os jornais e revistas.A certa altura, Célia foi buscar Alícia, que tinha então 6 anos, e Fernando, com 4, para passarem um mês de férias em Menorca. Quando foi comprar o bilhete de regresso a Ponferrada, o cartão de crédito foi recusado. O dinheiro tinha acabado. Juan teve de vir buscar os filhos.As contas do apartamento, do aluguer do carro, ficou tudo por pagar. Fugiram. Viveram na rua, em grutas, em casas abandonadas. As ressacas começaram a ser horríveis, e foram, ela e Miguel, para uma casa emprestada, fazer uma cura. Mas sem o cartão de crédito, tudo corria mal. Célia engravidou e Miguel espancou-a até ela abortar. Depois expulsou-a da casa.Ela vendeu desenhos na rua, trabalhou na apanha da fruta, em Lérida, depois em clubes nocturnos. Prostituiu-se. Mas a decadência física era tal, com as drogas e o álcool, que nem isso conseguia fazer. Foi viver para a rua. Durante anos, correu a Espanha toda, sozinha, como sem-abrigo. Nunca mais soube de Alícia e Fernando. Sentia-se cada vez mais doente.Em Vigo, conheceu um traficante toxicodependente de Loures e veio com ele para Portugal, para fugir da polícia espanhola. Já então se estava a especializar nos furtos, prática que viria a dominar na perfeição na zona das docas, em Lisboa. Entre a polícia, tornou-se conhecida como carteirista, e entre os colegas toxicodependentes como a "Madre Teresa de Calcutá", por se dedicar a levar os colegas em overdose para o hospital. Foi já em Tires que soube que tinha sida."Agora queria ouvir uma história, mas que fosse verdadeira". Quem fala é Deize Teodoro, 25 anos, brasileira, uma mulher corpulenta com cara de menina. "Porque falam os poetas sempre de coisas muito bonitas mas que não existem? Deslocar montanhas? Isso é impossível. Porque dizem eles essas coisas?"Deize tem 12 anos. Está no seu bairro, Osasco, em São Paulo, prepara-se para roubar um carro. A ideia foi do amigo, que pertence a uma quadrilha e quer fazer um assalto hoje à noite. Numa praça movimentada, ele cola uma t-shirt ao vidro de um carro estacionado e parte-o com um soco brusco. Entram, ele faz a ligação directa, Deize senta-se ao volante e arranca. Escondem o carro numa garagem de Osasco."Queres vir connosco hoje à noite?", pergunta ele. "Precisamos de três carros e nove pessoas. Ganhas cinco mil reais". Deize pensou rapidamente. Era muito dinheiro, dava para comprar uma moto. "Eu vou!", decidiu. Os rufiões do bairro já tinham ouvido falar da diabrura da menina grandalhona, com cara de anjo. Da perícia a conduzir e da paixão por pistolas. Por isso a sua missão seria levar o carro com as armas. Estava tudo minuciosamente planeado. Cada um tinha uma tarefa e Deize cumpriu a sua na perfeição. À hora marcada, chega sozinha, pára o carro, cheio de pistolas, metralhadoras e fuzis no porta-bagagens, à porta da firma de computadores. Os outros saltam dos seus carros, pegam nas armas e entram no edifício. Deize fica à espera. Segundos depois, ouve correrias, gritos, depois tiros. As coisas correram mal. "Liga o carro! Liga o carro!" Os rapazes saem a correr, os seguranças a disparar atrás deles. Deize liga o motor, no momento em que seis dos cúmplices se lançam para dentro do carro. Está em pânico mas não falha em nada. Arranca numa velocidade louca pelo beco estreito. Antes do cruzamento, vê que a Polícia surgira de todos os lados, bloqueando a rua. Os agentes apontam as metralhadoras mas ficam paralisados a ver o carro repleto de ladrões, com uma criança ao volante, fazer uma manobra inexplicável e inverter a marcha, escapando-se pela outra extremidade do beco. Os dois bandidos do segundo carro não tem a mesma sorte e são presos.Deize estreava-se assim em grande estilo no mundo do crime, onde teria, doravante, um lugar assegurado. Passou a auto-cognominar-se como "o Oitavo Anjo do Apocalipse" e nada mais a deteve no prometente caminho que considerava seu por direito próprio. Mais ainda por não ter sido uma escolha, mas um legado.Deize nasceu numa prisão. A mãe cumpria sete anos de pena por roubo. Como o avô estava muito velho e o pai, os tios e os nove irmãos andavam no crime, a menina foi entregue a um casal para adopção.Quando completou 4 anos, a mãe foi libertada e o pai preso. Aos 9 anos, o pai foi assassinado na prisão e ela começou a fumar maconha com os meninos do bairro e a perder o interesse pelos estudos. Batia nos colegas e na professora, foi expulsa de várias escolas, até ficar na rua. A partir dos 12 anos, com o dinheiro dos roubos, comprou uma casa e foi viver sozinha.Foram grandes tempos. A quadrilha, com uns 15 elementos, profissionalizou-se. Assaltavam bancos, grandes empresas, camiões blindados. Nem sempre corria bem. Muitas vezes havia tiroteio. Eliminaram muita gente. Deize matou um homem à queima-roupa. Outras vezes tinham de andar escondidos uma semana ou mais, no mato, a passar fome, com a polícia e os cães atrás deles.Mas a vida mudou. Deize, na altura com 17 anos, não se apercebeu, mas Adriano foi uma espécie de arauto numa encruzilhada fatal da sua carreira. Conheceu-o numa reunião de quadrilhas. A de Adriano queria sequestrar o filho do presidente da Câmara, de cuja namorada Deize era amiga. Foi fácil obter todas as informações, e as duas quadrilhas realizaram a operação conjunta, num comício. O rapaz, de 23 anos, foi raptado por Deize e Adriano. Mantiveram-no, numa casa que a quadrilha comprara para o efeito, durante 40 dias, até o pai pagar, sem discutir, o resgate de 100 mil dólares. Parecia perfeito mas não foi. O preso viu o rosto da criança que lhe levava a comida todos os dias, quando ela, num descuido, deixou cair a máscara.Mais tarde, na polícia, ajudou a fazer um retrato-robot do miúdo de 14 anos, bem como de Deize e Adriano. Os retratos foram mostrados na televisão. Como também foi transmitida pela televisão toda a aparatosa operação policial de captura de Deize e Adriano, um mês depois. Estavam num centro comercial a festejar um aniversário, quando começou a surgir polícia de todos os lados, com armas apontadas. Foi impossível escapar. Deize e Adriano apanharam 9 anos de prisão. Deize não denunciou ninguém, apesar dos murros na cara e no estômago, dos pontapés que lhe partiram duas costelas, dos choques eléctricos nos seios.Saiu em liberdade condicional passados dois anos, e com a sua parte do resgate comprou uma casa. Adriano continuou preso e ela passou a ir visitá-lo. Foi então que se envolveu sentimentalmente com ele e engravidou. Foram viver juntos quando ele saiu. Gabriel nasceu, um menino loiro, de olhos grandes. Deize deixou o crime, mas não conseguiu dissuadir Adriano de continuar a transportar droga para o estrangeiro. Fez várias viagens, ao serviço dos mafiosos nigerianos que controlam o negócio em São Paulo. Quando finalmente quis parar, era tarde.Certo domingo, 4 de Fevereiro do ano passado, em que Adriano fora ao futebol, Deize recebeu vários telefonemas dos nigerianos. "Onde é que ele anda? Diz-lhe que o quero pronto amanhã, para partir para Portugal. Já temos os bilhetes e a mercadoria", disseram eles."Adriano, que se passa?", indagou Deize quando o companheiro chegou a casa. "Esses tipos não param de ligar". Adriano estava inquieto. "Eu não vou, Deize. Portugal está sujo, droga já não passa lá".Mas na manhã seguinte, segunda-feira, os nigerianos apareceram. Adriano estava no pátio mexendo na bagageira do carro, em frente ao portão. Os nigerianos entraram com o carro deles. Deize, em casa, ouviu um grito. Correu ao cimo das escadas e viu o companheiro com as pernas entaladas entre os dois carros. "Não vou, não vou!", gritava ele, e os mafiosos aceleraram, até lhe partirem as pernas. Deize correu para dentro, pegou numa arma. Quis disparar, mas receou atingir Adriano. Ao descer a escada, para se aproximar, um dos nigerianos apontou-lhe uma pistola. "Larga a arma!", instou ele. Lá em baixo, Adriano gritava. Os traficantes recuaram com o carro, Adriano caiu no chão. Gabriel surgiu à porta, começou a descer. "Volta para cima, a mãe já vai". O menino sentou-se na escada. "O pai está magoado?" Deize tinha pousado a arma na escada. "Não, Gabriel, isto é só uma brincadeira". No chão, com as pernas partidas, Adriano continuava a gritar. Um dos nigerianos declarou: "Vou matar-te!" E deu-lhe uma paulada. A seguir, um tiro na cabeça.Instantes de horror selvagem ferindo para sempre o olhar imenso do menino louro, pulsando como um samba de morte no coração de Deize, ali, impotente a testemunhar o assassínio do único homem que alguma vez amou, ela, o Oitavo Anjo do Apocalipse, sem o poder salvar."Ele devia-nos um milhão de dólares", explicaram os traficantes, entrando em casa, pegando em Gabriel ao colo. "Tu vais fazer a viagem a Portugal. O teu filho vem connosco, até te decidires".Deize acedeu, mas eles queriam Gabriel, como garantia. Combinaram que levariam juntos a criança até casa dos pais adoptivos de Deize. Esta seguiria para Portugal, com a droga.Deize ficou fechada terça, quarta e quinta-feira, num quarto de hotel em São Paulo, com os nigerianos a guardá-la, à espera da partida. Foram dias de pesadelo, em que percebeu que seriam três raparigas a fazer a viagem e que ela, Deize, ia ser dada à morte. Num telefonema para Portugal, que Deize ouviu, o assassino de Adriano explicou à mulher, Rosângela, presa em Tires, que em breve teria companhia, e uma missão a cumprir.Quinta-feira, Deize apanhou o avião e sexta foi presa no aeroporto Sá Carneiro. Seria condenada a cinco anos e meio. Quando chegou a Tires, no final de Fevereiro de 2001, foi interpelada por uma reclusa, Rosângela, a mulher do assassino de Adriano."Denunciaste-os? Se o fizeres, o teu filho morre", ameaçou ela. Quando conseguiu telefonar à mãe adoptiva, Deize soube que os nigerianos foram lá a casa, atiraram Gabriel, de três anos, contra a parede, partindo-lhe uma clavícula. Soube também que eles estavam a par dos mínimos movimentos seus na prisão, graças ao controlo de Rosângela."Quando crescer, quero ser ladrão", disse a Deize, ao telefone, Gabriel. "Quero ser como o meu pai".A agressividade espalha-se como um vírus. Há, em Tires, dias violentos, ninguém sabe porquê. Quando há uma briga de manhã, é certo que haverá outras à tarte e à noite.Uma rapariga, diz-se que partiu a cabeça a um guarda. Ia ser castigada. Esperou pela noite. Despiu-se e enrolou-se no gradão, como uma contorcionista, toda nua, aos gritos. As mulheres foram imediatamente fechadas nas celas. Chegaram guardas para a espancar. Durou horas. As mulheres todas agachadas em frente às portas de ferro, espreitando pela ranhura do respiradouro. Testemunhas da violência, do sangue, da rapariga a ser levada, a conseguir fugir, a lançar-se de cabeça contra os vidros, a partir tudo. As mulheres bateram com os punhos nas portas com quanta força tinham De revolta. Todas. Algumas seriam escolhidas para o castigo. O "manco", a cela especial disciplinar. Uma cama de cimento num espaço exíguo, atrás de uma grade, como uma jaula. Em Tires ninguém tem amigas. Há só competição, rivalidade. Se uma amiga apresenta um amigo de um amigo, que passa a vir à visita, as outras ficam invejosas, e tentam roubar o amigo. Há mesmo as que interceptam cartas, para copiar as moradas e passar a escrever a essas pessoas.Quando alguém se zanga com alguém, não pode voltar as costas, ir embora. Tem de continuar a conviver com ela 24 horas por dia. "Para mim, o pior castigo não é estar aqui fechada. É o ter de conviver com quem não nos damos".Há mulheres para quem a prisão representa a liberdade. Algumas ganham, com a antiguidade, uma autoridade, um prestígio que nunca tiveram na rua. Outras saem em licença precária e voltam deprimidas, por não terem ninguém lá fora, se sentirem sós e desorientadas. Há mesmo uma mulher que espancou o juíz de instrução em plena audiência, quando viu que ele lhe ia encurtar a pena por bom comportamento.Há as que descobrem vocação para o teatro, como Rosângela, o desenho, como Ofélia, a poesia, como Celeste.Rosângela nunca se sentira livre até entrar na prisão. "Eu dantes era uma pessoa irresponsável, para mim ninguém prestava, não dava valor a nada. Agora interesso-me pelos outros, aprendi o que é realmente importante na vida. Lá fora sentia-me presa. Aqui sou livre".Célia desenha todo o dia. Acaba de ganhar um concurso inter-prisões. Há um quartinho onde tem o material. Vai regularmente ao hospital de Cascais fazer os tratamentos da sida. O seu sonho é reencontrar os filhos, mas receia que eles não queiram reencontrá-la a ela. Célia fala connosco, sorri, depois fixa-nos com um olhar distante.Uma diz: "O que mais gostava agora era de ver o por do sol. Lá fora nunca ia ver. Não entendo como pude perder um só por do sol!" Outra diz: "Sinto-me em baixo porque está mau tempo". De facto o céu tornara-se nublado. Mas como se apercebeu ela? Quase não se vê nada através do postigo minúsculo, gradeado, ao nível do tecto. Mas ela sente.Ofélia nunca sabe que tempo faz lá fora. Não vai ao pátio, fica na cela. Deize consegue ouvir o mar, em certos dias de Inverno, e isso deprime-a. Quando se sente a enlouquecer, Rosângela vai para a janela e grita, a plenos pulmões, agarrada às grades.Paula, Celeste, Célia, Rosângela, Ofélia, Deize não têm visitas. Às vezes, Paula pensa que sim, veste-se e arranja-se, mas depois não aparece ninguém. É essa a sua verdadeira prisão. Fernanda põe uma música dos Gipsy Kings e vêm todas para o meio da sala dançar. Cresce uma emoção inexplicável. "Caminando por la calle yo te vi". Dançam e choram. Como se de súbito aquilo sintetizasse toda a ideia de liberdade. A casualidade de passear pela rua e ver alguém, e isso ser o princípio de uma grande aventura. Tornando uma vida extraordinária.