O jornalismo de investigação em Portugal está em crise

"Se houvesse investigação jornalística em Portugal, os jornalistas teriam saído das redacções e iam para a rua à procura desses estudantes, faziam as contas de quanto estes tinham realmente recebido e conferiam se tais valores coincidiam com os dos cheques. Já passou um mês e ninguém publicou nada. Esta é a prova de que não há jornalismo de investigação." A dedução é de Joaquim Vieira, jornalista e director do Observatório de Imprensa, que ontem abriu o seminário sobre "Reportagem e Investigação no Jornalismo Contemporâneo", organizado pela Fundação Oriente, com a coordenação do jornalista José Vegar, a decorrer na Arrábida até amanhã.

Para Joaquim Vieira, o jornalista é "uma espécie de fiscal não eleito representativo da opinião pública" e, ainda que a investigação seja "uma actividade inerente a toda a actividade jornalística", ela toma mais importância quando o alvo é o poder - independentemente se é o político, o económico, o religioso ou qualquer outro que tenha "uma parte oculta".

E como se sabe que uma história é uma boa história, que vale a pena ser investigada? "Por intuição", essencialmente, mas também por alguma sorte e "um sussurro de uma fonte".

O jornalismo de investigação começou por ser um conceito desenvolvido na tradição anglo-saxónica e Joaquim Vieira recorda o caso Watergate como um marco para a história do jornalismo. "Não vale a pena pensar em jornalismo de investigação numa ditadura. Por isso, nos países latinos, o conceito só ganhou força já no final dos anos 70, quando os regimes democráticos começaram verdadeiramente a ganhar raízes."

Em Portugal, acrescenta o jornalista e ex-director de Programas da RTP, a investigação ganhou ainda mais força com o aparecimento das televisões privadas e a concorrência no prato forte de então: a informação.

Mas o entusiasmo esfriou nestes últimos anos. Por quê? Primeiro que tudo porque "é caro". Com a crescente crise do mercado, "é difícil conceber a ideia de afectar um ou dois jornalistas durante semanas a uma única história". Depois porque "os resultados são incertos e todo o trabalho de semanas pode não dar mais do que uma breve", e quando se consegue uma história "é preciso que não haja choque entre o direito à imagem dos visados e o direito colectivo à informação". A que acresce por vezes a auto-censura quando se percebe que a matéria é tão forte que "põe em causa determinados poderes" ou que colide com os interesses comerciais do órgão de comunicação social.

Actualmente, afirma Joaquim Vieira, a investigação na imprensa "faz-se essencialmente no PÚBLICO e no 'Expresso'. O primeiro talvez não faça mais por uma questão de dinheiro." Mas a tendência, acredita, "é para o desaparecimento do jornalismo de investigação". Hoje em dia "faz-se mais investigação judicial do que jornalística", e os jornalistas "tendem a escrever a partir não do que investigam, mas com base nas peças judiciais, nos processos". E aponta o caso d' "O Independente" que, durante anos, publicou notícias "sem falar com as pessoas envolvidas por considerar que lhe bastava ter os documentos. E depois tinha que publicar desmentidos."