Imre Kertész, um extraordinário humanista contra os totalitarismos

Foi em Berlim, onde se encontra a trabalhar na sua nova novela, que tem como título provisório "Liquidação", a convite do Colégio de Ciências, que Imre Kertész recebeu a notícia de que havia sido laureado com o prémio Nobel da Literatura de 2002. "Este prémio deve ser algo mais do que o meu Nobel, deve ser um impulso e uma projecção exterior da literatura húngara, para que se traduzam mais obras de escritores húngaros em geral desconhecidos fora do país", afirmou o emocionado Kertész. Na véspera do anúncio do Nobel, Imre Kertész havia recebido o prestigiado prémio Hans Sahl, concedido por um colectivo de escritores alemães pela sua obra, e brincado com os repórteres, dizendo que sabia que o seu nome estava na lista da Academia de Estocolmo mas que não acreditava vir a ser ele o escolhido. A sua editora húngara, a Magvetö, também foi apanhada de surpresa: estava ausente da Feira do Livro de Frankfurt.Esta consagração internacional do escritor magiar - que resume o melhor da cultura europeia com a sua forma transversal de trabalhar os géneros literários, mesclando o romance com o ensaio - distingue a vida e obra de um homem que fez das letras o testemunho de um combate, da busca de uma verdade individual e de uma meditação sobre o Holocausto e a ditadura. Uma obra que "opõe a experiência frágil do indivíduo ao arbitrário bárbaro da História", sintetizou a Academia sueca. Se muitos admiram a sua integridade (e humildade) como homem, nos meios universitários e, em particular, na Alemanha, as suas obras são referência para o estudo do totalitarismo da "Shoah". Conferem a este exercício uma dimensão humana, quase insuportavelmente individual, que enriquece a "secura" dos compêndios históricos. É essencialmente pelo seu primeiro romance, publicado em 1975, "Sorstalanság ("Ser sem destino"), comparável ao de Primo Levi ,"Se isto é um Homem", que Kertész recebe o Nobel. O romance, a história de um jovem ao qual o destino foi confiscado, mostra o quotidiano de um campo de extermínio nazi através do olhar de um adolescente, Köves György, que é forçado a aprender que a estrela amarela que transporta significa que é judeu, sub-humano na demente escala racial nacional-socialista. Köves György desce lentamente de etapa em etapa até ao epílogo do sofrimento. Ele "passeia um olhar de criança sobre os acontecimentos, sem os compreender bem, sem os achar anormais ou revoltantes - ele não tem o recuo do leitor", analisou a Academia de Estocolmo. "Era preciso escolher entre o romance e a autobiografia. Eu decidi-me resolutamente pelo romance", explicou o autor numa entrevista concedida ao "Libération", em 1998.Em 1944, Imre Kertész foi deportado para Auschwitz, tinha 15 anos, tendo sido transferido para Buchenwald, de onde seria libertado pelas tropas americanas. Budapeste era uma cidade estrangeira quando regressou a casa, com 16 anos, com todos os membros da sua família exterminados. À terrível experiência da ditadura nazi seguem-se quatro décadas de totalitarismo comunista - Kertész é marginalizado porque é um sobrevivente da "Shoah". Tenta uma carreira como jornalista, trabalha numa fábrica e no departamento de imprensa do ministério da Indústria. Nos anos 60 começa a escrever "Ser sem destino", obra que não encontra editor até à intervenção de Pàl Réz, que acredita nele e a publica em 1975. Até ao descalabro do regime comunista, Kertész era uma espécie de intelectual na sombra, que ninguém valoriza e que ninguém conhece. "Foi na Alemanha que Kertész fez verdadeiramente a sua carreira literária, foi o país que melhor o acolheu", explica Katarina Raabe, da Suhrkamp, a sua editora alemã."Não, não guardo rancor à Alemanha. Odeio os nazis, mas agora vive ali uma terceira geração que nada tem a ver com o que se passou", explicou num perfeito alemão, esta quinta-feira, quando confrontado com a pergunta de como se sente um judeu, sobrevivente do Holocausto, na Berlim contemporânea. Aliás, Imre Kertész fez da Alemanha a sua segunda pátria, tendo-se tornado não apenas uma figura destacada nos debates intelectuais germânicos, como contribuiu, ao traduzir obras de filósofos para húngaro, para a reconciliação entre ambas as nações.