Balsemão admite agora ter participado em almoço com Kissinger

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Depois ter afirmado que não se lembrava do encontro, agora Balsemão explica que, afinal, este deverá ter-se realizado Manuel Moura/Lusa

Depois de no início da semana — perante a comissão parlamentar de inquérito a Camarate — ter afirmado não se lembrar do encontro, hoje, em carta enviada aos deputados, Pinto Balsemão explica que, afinal, o encontro deverá ter-se realizado.

"Apesar de continuar a não me recordar de ter estado com ele, a minha mulher, que tem melhor memória do que eu, garante-me que voltámos do Alvor [onde ela me tinha acompanhado], no sábado, 15 de Novembro, a tempo de eu participar num almoço que o primeiro-ministro, dr. Francisco Sá Carneiro, oferecia ao dr. Kissinger", lê-se na carta.

Na missiva, o antigo primeiro-ministro admite ainda ter estado no almoço "porque alguns jornais de então" — cujas cópias anexa à carta — mencionam o seu nome "entre os convidados".

Na terça-feira, o actual patrão da SIC (que em 1980 era ministro-adjunto de Francisco Sá Carneiro) disse não se lembrar da sua participação num encontro com Kissinger, Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

Em anteriores audições na comissão de inquérito, o antigo espião da CIA (serviços secretos norte-americanos) Oswald Le Winter afirmou que, "aos olhos de Henry Kissinger", Francisco Sá Carneiro "era um inimigo", embora tivesse também adiantado não ter provas sobre o envolvimento do ex-secretário de Estado norte-americano na tragédia de Camarate.

Le Winter chegou mesmo a afirmar que a oposição de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa a que Portugal fosse um ponto de passagem para o fornecimento de armas dos EUA para o Irão terá estado na origem da morte de ambos na noite de 4 de Dezembro de 1980.

Pinto Balsemão começou por dizer, no início da semana, que não se lembrava da vinda de Henry Kissinger a Portugal, tendo pedido aos deputados que especificassem a data e o âmbito da visita.

Os parlamentares adiantaram que o encontro se deu no Alvor (Algarve) a 15 de Novembro de 1980 numa cimeira sobre Defesa e assuntos internacionais.

Balsemão disse ainda lembrar-se do encontro mas voltou a afirmar não se lembrar da presença do ex-secretário de Estado norte-americano no mesmo.

Ex-inspector da PJ admite tese de atentado

Paulo Bernardino, ex-inspector da Polícia Judiciária (PJ), admitiu hoje que a tese de atentado em Camarate "ganharia nova força" com os dados entretanto apurados sobre as circunstâncias da morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa.

Num depoimento muito cauteloso, em que se afirmou "de consciência tranquila", Paulo Bernardino garantiu que na investigação que dirigiu sobre a queda do avião em Camarate "foi-se até onde se podia ir" e "foram esgotados todos os meios da polícia".

Paulo Bernardino foi o segundo responsável pela investigação policial ao caso Camarate, tendo afastado do relatório que então elaborou a possibilidade de atentado, que era admitida pelo seu antecessor — Pedro Amaral, o inspector que coordenou as primeiras investigações, desde a noite em que caiu o avião, 4 de Dezembro de 1980, até 20 de Dezembro.

Aos deputados, o ex-inspector da PJ afastou qualquer possibilidade de ingerência externa no curso das investigações, que foram, sublinha, conduzidas "com o maior rigor e isenção, tendo em conta a falência humana", e explicou que o afastamento do seu antecessor se deveu a um "despacho administrativo normal" que "não suscitou qualquer questão".

Além disso, Paulo Bernardino salientou que o facto de no seu relatório ter sido afastada a possibilidade de atentado se deveu exclusivamente à "evolução da própria investigação" e às "evidências que iam surgindo".

"As opções e as decisões variam consoante as circunstâncias da própria investigação. A investigação é que se encaminha a ela própria à medida que vai acontecendo", frisou.

Questionado pela deputada social-democrata Aurora Vieira sobre as razões para eliminar a tese do homicídio, Paulo Bernardino remeteu — como em diversas vezes ao longo da audição parlamentar — para os resultados da investigação feita à altura do acidente, alegando desconhecer em detalhe os factos apurados por análises posteriores.

O deputado Nuno Melo (CDS/PP) e o representante das famílias das vítimas, Augusto Cid, insistiram, porém, em alegadas omissões da investigação conduzida pelo ex-inspector da PJ, nomeadamente ao não ter mencionado a existência de "um rasto de 550 metros" de destroços provenientes do avião, a "pouca importância dada" a alguns testemunhos ou o facto de não terem sido sujeitos a testes laboratoriais peças do avião onde, mais tarde, se vieram a detectar vestígios de explosivos.

Paulo Bernardino remeteu sempre para as conclusões do relatório e concluiu: "Nada mais tenho a acrescentar".