Do Congo ao Gabão, uma viagem a pé de 456 dias

Dois homens, um biólogo e um fotógrafo, puseram-se a percorrer a pé África. Mais de três mil quilómetros, em 456 dias - ou seja, 15 meses. Não, não são exploradores do século XIX, que se aventuraram a desbravar o continente africano. Partiram a 20 de Setembro de 1999, do Norte do Congo, e chegaram à costa atlântica do Gabão, a 18 de Dezembro de 2000. Ontem, vieram a Portugal, à Sociedade de Geografia de Lisboa, contar as suas aventuras pela selva africana, numa conferência intitulada "Como Atravessámos África a Pé".O biólogo Michael Fay, 44 anos, da National Geographic Society, é que teve a ideia desta expedição moderna a fazer relembrar os grandes exploradores do século XIX, como o britânico David Livingstone, que descobriu as Cataratas Victória, ou os portugueses Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que, entre 1884 e 1885, se afoitaram numa expedição de Angola a Moçambique, em que percorreram algo como 7200 quilómetros.Primeiro, em 1996, Michael Fay e o companheiro de expedição, Nick Nichols - fotógrafo da National Geographic Society, de 50 anos, que já trabalhou para a agência Magnum e ganhou um prémio da World Press -, andaram de avioneta sobre as florestas do Congo e do Gabão, para escolher um corredor intacto e desabitado. Descobriram um, entre o rio Oubangui, no Congo, e a costa atlântica do Gabão. De facto, esta expedição, chamada Megatransect, teve a particularidade de ter escolhido o percurso mais afastado possível de povoações humanas. Depois, os dois norte-americanos embrenharam-se na selva profunda, que ia sendo desbravada, à catanada, por pigmeus que os acompanhavam. "Parece que se entra num portão para lá do qual os seres humanos não são conhecidos", descreve Fay. Nesse lugar completamente selvagem, deparou-se-lhes, em certo momento, uma enorme árvore, com uns três metros de diâmetro e 65 metros de altura. Durante bastante tempo, seguiram por uma espécie de auto-estradas formadas pelos trilhos de elefantes. Perceberam, assim, que estes mamíferos gigantes percorrem grandes distâncias em movimentos migratórios. Também encontraram um grupo de gorilas muito curiosos com aqueles seres nunca antes vistos por aquelas bandas - tanto assim foi que um deles até foi ter com Michael Fay.O biólogo descreve com particular interesse o encontro de primeiro grau com um gorila de dorso prateado. Apesar de estes gorilas serem conhecidos por exibirem a força em defesa da família, Fay percebeu que, neste caso, isso não ia acontecer. A criatura era movida por uma curiosidade caricata, que a levou a chamar toda a família para observar aquele estranho grupo de humanos. "Parecem mais inteligentes quando não estão perto de pessoas. Pensam e comunicam. Isto leva-me a acreditar que os mamíferos têm capacidades cognitivas mais complexas do que o que se pensava."Até chegar ao Gabão, viveram mais peripécias. No Congo há, de vez em quando, surtos de Ebola, um vírus altamente letal que leva os doentes a esvaírem-se em sangue. Mas foi já no Gabão que ouviram rumores de que havia um surto de Ebola. Porém, nada lhes aconteceu, excepto a um elemento da expedição, que adoeceu com hepatite.Medos? Só o da desistência. "Tinha medo de não acabar a expedição. Ficava cada vez mais paranóico quando alguma coisa nos fazia parar", conta Fay. "Se não concluísse a viagem, era como se não tivesse feito nada."Motivos para desistir não faltaram nesta viagem por caminhos nunca antes trilhados pelo homem. Ao longo das duas mil extensões de água atravessadas e de apenas seis estradas de terra, a equipa avistou mais de 200 gorilas e somente cinco pessoas. Na meta da viagem, uma praia do Gabão, encontraram vários trilhos de búfalos, elefantes e até mesmo de hipopótamos, animais que se acreditava, até aqui, banharem-se apenas em águas fluviais. Mas nenhum dos membros da expedição viu pegadas de outros seres humanos.Uma dessas extensões era um grande lago: os seus 12 quilómetros de largura, a enorme profundidade e a vegetação densa impediam uma travessia a pé. Foi a única vez, em mais de três mil quilómetros, que os exploradores não andaram a pé, tendo de socorrer-se de um barco. Tiveram de recuar e andar 30 quilómetros para norte, até que encontraram um homem com um barco, que, depois de ter levado Michael Fay para o lado de lá do lago, foi buscar o resto da comitiva. Nada de preocupante até aqui, a não ser o facto de a chegada dos outros membros ter demorado sete horas, durante as quais o biólogo quase desesperou, sozinho, sem material e sem poder fazer nada, enquanto esperava pelo som seco do remo a bater no barco.Por quê sujeitar-se a ter os pés cheios de germes, o corpo com parasitas, enfrentar correntes de rios lamacentos e surtos de Ebola, que prolongaram a viagem mais três meses do que o previsto? Michael Fay tomou notas sobre a flora, a vida animal e o impacte do homem na floresta. A sua bandeira é a preservação do planeta, procurando sensibilizar o mundo para a necessidade de proteger um dos últimos lugares selvagens da Terra dos ímpetos destruidores do homem. O certo é que, depois desta viagem, foram criados vários parques e reservas naturais no Gabão: no total, estão projectados 13, que ocuparão 26 mil quilómetros quadrados do território gabonês (dez por cento), em áreas antes ocupadas por caçadores furtivos e madeireiros. Agora, Michael Fay anda à procura de fundos - diz necessitar de 75 milhões de euros por ano - para a construção dos parques.