Peça estreia-se hoje em Lisboa

"Tiestes", de Séneca, inaugura temporada da Cornucópia

Depois de uma temporada que privilegiou o contacto simples com o público, Luís Miguel Cintra aposta este ano em textos de concepção mais exigente
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Depois de uma temporada que privilegiou o contacto simples com o público, Luís Miguel Cintra aposta este ano em textos de concepção mais exigente Pedro Velez/PÚBLICO

Luís Miguel Cintra encena e representa a tragédia de Séneca. Dois planos dividem o palco: um mais próximo da plateia, com o Coro a confundir-se com o público; outro, no fosso, onde se propaga o mal.

Luís Miguel Cintra chegou a pensar em “Tiestes”, de Séneca, como um espectáculo onde predominavam as vozes, praticamente às escuras, apenas com duas personagens junto ao público: o Coro (José Airosa) e o Mensageiro (Milton Lopes). Atrás deles, Tiestes (Cintra) e Atreu (Diogo Dória), a Fúria (Márcia Breia), Tântalo, as outras figuras, seriam vultos, o horror velado pela obscuridade.

Mas no negro que domina o plano inferior do palco, em fosso, do Teatro do Bairro Alto/Cornucópia, em Lisboa, estão afinal dispostos alguns, poucos, elementos simbólicos que foram surgindo durante a construção do espectáculo que hoje se estreia.

Povoam um cenário minimal, concebido por Cristina Reis, maçãs vermelhíssimas que se amontoam triangularmente, a evocação de um poço temporada de sangue ou umas pedrasruínas. Um dos primeiros a habitar este espaço de teatro dentro do teatro é Tântalo, avó de Atreu e Tiestes, o propagador do mal que passa de boca em boca, que intoxica as gerações seguintes, que não se estanca na tragédia de Tiestes — o homem que comete adultério com a mulher de Atreu, devora e bebe o sangue dos seus filhos sem saber, presa da vingança do irmão, aquele que reina em Argos e lhe promete a partilha do reino para o fazer regressar do exílio.

A fatalidade do poder

É um lugar dominado pela Fúria, essa figura grotesca que se tornará uma presença constante, a entidade castigadora, ou a encenadora da tragédia-espelho do discurso do Coro, um José Airosa num plano superior do palco, tão próximo daqueles a quem se dirige, a plateia.

Foi, aliás, o Coro que mais interessou o encenador quando, no Verão passado, leu as peças de Séneca e escolheu “Tiestes”, um texto que para Cintra levanta várias questões sobre o poder. Porque se perpetua o mal naquela família? “Não é nenhum destino, nem a fúria, mas a sua condição de poderosos. Uma espécie de fatalidade da própria natureza do poder. O Atreu, quando começa, sente que não é o verdadeiro rei, que não vingou os males que lhe fez o irmão. Para ter o poder tem que se vingar. Trata-se de um problema, o de ter o poder máximo e para isso eles têm que ser maus.”

Como contraponto há o discurso do Coro, que já não é a figura colectiva da tragédia grega mas uma consciência individual. “Opõe-se ao poder como valor, passa uma espécie de horror ao poder e a definição de um outro que é igual à sabedoria e que é um poder interior. Acho interessante a intersecção com a contemporaneidade: perante um mundo dominado pelas relações de poder, as pessoas ou metem-se dentro disso ou optam por ficar de fora dessas leis. Há muita gente que decidiu viver um destino absolutamente individual e solitário, sábio, mas isso alheia-os da política e não os compromete com o destino do mundo. A discussão sobre que atitude tomar perante o horror do poder é uma das coisas que me interessa mais como homem do século XX.” O Mensageiro, aquele que relata, sente e se atormenta, alguém com mais energia, é para Cintra a voz “portadora de futuro” quando diz “todo o mal será manifesto”. “Há um desejo de que se conheçam as atrocidades, uma espécie de vingança sobre os poderosos: o mal que fazem será conhecido.”

Um trabalho quase “suicida”

Neste texto filosófico, mais do que agirem, as personagens discursam ou dialogam. Há, inclusivamente, dúvidas sobre se foi escrito com a in- tenção de ser lido em público ou para ser representado. “A aposta do espectáculo foi fazer passar estes textos absolutamente abstractos pela sua audição, numa mesma sala, numa mesma noite, e pelas cabeças, sensibilidade e corpos de pessoas contemporâneas, sem máscara, que têm de dar expressão a sentimentos. É um trabalho quase suicida porque é um tipo de texto com uma escrita dificílima e muito pouco hábil para a representação. Além disso, os sentimentos e ideias contidas nas personagens estão muito distantes de nós. É difícil para as cabeças contemporâneas conceber personagens como o Tiestes e Atreu, a sua monstruosidade humana.”

Cintra exemplifica: “Levei muito tempo a perceber que o principal problema do Tiestes, quando vê as cabeças, os pés e as mãos dos filhos, não é a sua morte, mas o ter sido traído pelo irmão.”

Quis que a representação não fosse “descarnada de alma”, que os actores “pusessem alguma coisa de si próprios”. Mas há “dois” palcos e também dois registos: o Coro e o Mensageiro, cujos figurinos remetem para a actualidade, estão mais perto de uma representação natural; os heróis, que se movem no plano inferior, são mais enfáticos. “A base de construção do espectáculo foi pensar que as cenas do plano inferior são imagens, memórias ou medos na cabeça daquele Coro.”

Atreu e Tiestes, afirma, começam a ser modernos. Porquê? “Sente-se a necessidade de uma explicação que não é dada pelos deuses: é um texto do princípio da era cristã. Estes já não são os heróis gregos, são muito mais o princípio daquilo que somos, mas mesmo assim estão muito distantes de nós. Também o coro procura mas não encontra nenhuma explicação divina e esse tema é constante: quem é que nos explica porque é que as coisas são assim. Se houvesse Deus haveria uma explicação. É interessante comparar com o que se passa agora: diz-se que há um vazio ideológico, que as pessoas deixaram de acreditar mas sentem vontade de encontrar outra coisa em que acreditem.”

É um espectáculo difícil, sintetiza Cintra: para quem o criou, para quem assiste. “Depois de uma temporada amável com ‘O Colar’ e ‘História do Soldado’, espectáculos de contacto simples com o público, apeteceu-me fazer uma temporada que nos exigisse mais esforço de compreensão e concepção. Na fase em que vivemos, o teatro tem obrigação de não desistir disso, de reivindicar um papel para si próprio mais profundo, que exija mais esforço do espectador.”

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Drácula.

Teatro da Trindade, Lisboa.

27 de Outubro, 20h30. Cheio.

Director: Carlos do Barreiro.

Intérpretes: Toni Bicho (Soprano) Chico Fininho (Querubim).

O início teve um atraso de 10 minutos.