Autarquias recuperam 33 fontes para lançar rota turística

Fontes e chafarizes dos concelhos de Abrantes, Constância, Gavião, Mação e Sardoal vão ser alvo de salvaguarda e valorização por parte das respectivas autarquias. A iniciativa, levada a cabo com o Gabinete de Apoio Técnico (GAT) de Abrantes, permitirá a criação de uma rota turística dos cântaros e cantos. Além da reabilitação de 33 fontes, procurar-se-á recuperar, junto dos mais idosos, as memórias, histórias e lendas de todas elas. "Vamos fazer uma rota de fontes, mas temos medo que as pessoas comecem a beber água nelas, pois na grande maioria não se pode. É difícil às câmaras manter, hoje em dia, uma fonte com água de qualidade", diz a directora do GAT, Ana Paula Gomes. Mesmo assim, o projecto está orçado em quase 5,2 milhões de euros."Foi quando começámos a fazer o levantamento dos pontos de interesse turístico, ao implantar um sistema de informação geográfica, que nos apercebemos do elevado número de fontes. Identificámos 312 nos cinco municípios, incluindo algumas privadas - e sem contar com as mais rudimentares existentes nas encostas de alguns montes, conhecidas como fontes de cortiço ou olhos de água", revela. Para recolher o máximo possível "das tradições e da envolvência social" de cada uma delas, a equipa do GAT vai contactar as populações."As fontes são sítios de muita lembrança. Eram lugares de enamoramento e de disputas de cantos. Alguns namoros começaram junto a um fontanário, e era também aqui que se cantava ao desafio" conta.O historiador Luís Filipe Dias, também da equipa do GAT, observa, por seu turno, que este é um património mal amado."Todas diferentes umas das outras, constituem autênticos tesouros dos povos. Cada comunidade dava às suas um cunho particular, escolhendo em geral o melhor pedreiro da povoação para construir o seu fontanário ou chafariz", realça.Cada uma tem as suas histórias, fosse pelos alegados poderes curativos das suas águas ou por causa dos namorados que junto a elas se teriam deixado enfeitiçar, passando pelas lendas de mouros e as magias de bruxas. "Conta-se que, debaixo da fonte velha de Sardoal, havia dois potes iguais, um com ouro e o outro com peste. Ninguém se atrevia a abri-los. Um dia, um jovem apaixonado por uma rapariga decidiu destapar um deles. Nada encontrou. Depois destapou o segundo e lá encontrou o ouro. Mas nessa altura já um mal invadia a vila, causando muitas mortes e levando-o a pedir desculpa -o que acabou por ficar consagrado numa peça de teatro apresentada no concelho,", relata Luís Dias.São João dá nome a muitas fontes da região, às quais a noite do santo popular empresta uma magia especial. Segundo a tradição, "as águas de São João selam os amores e fazem formosas as raparigas"."Em Mação, após os bailes de São João, os jovens iam à Fonte do Forno, segundo se diz, para beber água nova e ver bailar o sol", nota, citando a crença popular segundo a qual "na noite de São João, o orvalho é benfazejo ao cair sobre as plantas e sobre os amores".Na Fonte de São João de Malpique, concelho de Constância, um idoso recorda que foi aí que namorou muitas vezes aquela que viria a ser a sua mulher. E que, ainda hoje, na altura do santo popular, se costuma meter com ela com com uma quadra que adaptou à sua maneira: "Não te esqueças meu amor/ Da noite de São João/Tu contava as estrelas do céu/ E eu as pedras do chão". Já na fonte da Amieira, em São Miguel, Abrantes, "alguns namorados distraídos eram apedrejados por ex-namorados despeitados", prossegue o historiador. A esta água atribui-se a propriedade de curar rapidamente as feridas. Era aqui que um pároco local lavava a cara todos os dias, porque "fazia bem à pele".Quando surgiu o abastecimento de água ao domicílio muitas destas fontes perderam o carácter vital que tinham para as populações. A água da grande maioria perdeu qualidade. Já não é verdade o rifão popular "só invejo quem bebe água em todas as fontes".O projecto de recuperação das fontes inclui a melhoria das acessibilidades dos peões e o arranjo paisagístico. A recuperação e iluminação das nascentes e a limpeza e desobstrução das águas, bem como a criação de sinalização para identificar as fontes e as tradições associadas, são os principais investimentos a realizar nos próximos meses pelas cinco autarquias envolvidas na rota."Foi a partir da época de D. João IV que se passaram a construir bastantes fontanários públicos para abastecimento de água. Também no período filipino [de 1580 a 1640] houve algumas obras de abastecimento público de água", explica o historiador Luís Filipe Dias. Muito mais tarde, na época do Estado Novo, as fontes "adquiriram uma certa monumentalidade e ostentação". Numa delas, construída em 1936 na Bemposta, concelho de Abrantes, "uma placa assinala sem reservas que se tratou de uma 'obra da dictadura'", refere, acrescentando que a inauguração de um fontanário "dava quase sempre azo à presença do governador civil e de uma fanfarra". Locais de convívio social, as fontes tornaram-se ponto de encontro das mulheres, que iam buscar água em cântaros. Eram o contraponto das tabernas, locais de convívio marcadamente masculino."As primeiras fontes existentes foram os fontes de chafurdo. Bebia-se nelas pelo processo do 'afaga o caneco' - mergulhando o na água o recipiente onde se bebia", diz o historiador. "Mas houve epidemias, sobretudo a da febre amarela, nos séculos XVIII e XIX, e a da cólera, já no século XX - que matou um terço da população portuguesa - que as condenaram, por serem responsáveis directas pela propagação das epidemias". Começaram então a surgir as fontes de mina, em que água era canalizada e corria para uma bica, mais segura contra as pestes que as fontes de chafurdo. M.F.V.Para a criação da rota dos cântaros e cantos, o GAT de Abrantes tem uma equipa de vários especialistas a desenvolver o projecto, que é apoiado pelo Programa Operacional da Região de Lisboa e Vale do Tejo. Além do historiador, que tem procurado exaustivamente todas as informações disponíveis sobre as fontes, o GAT envolveu ainda no projecto três arquitectos paisagistas, um "designer" gráfico, dois desenhadores, um engenheiro civil e um engenheiro electrotécnico, que procurará as melhores soluções de iluminação para a valorização nocturna das fontes. Às câmaras caberá levar a cabo os projectos de recuperação e enquadramento paisagístico. Em cada fontanário serão assinalados, numa placa, aspectos relacionados com a sua história e uma pauta com as músicas que era tradição cantar-se no local. Será ainda indicado o percurso para a fonte seguinte. Numa segunda fase acrescentar-se-ão informações úteis a pessoas invisuais. M.F.V.Fonte de São José (Alferrarede)Tem enorme valor simbólico para os habitantes e está classificada como imóvel de valor concelhio. Data de 1791.Fonte de São JoãoA qualidade da sua água leva-a a ser procurada por muitas pessoas da região.Fonte do Outeiro O imaginário popular envolveu-a em mistério. É um provável sítio arqueológico.Fonte de Santo António (Alvega)Trata-se de uma fonte monumental. Data da década de 1940 e impõe-se pelo enquadramento na praça da povoação.Fonte Velha (ou Fonte dos Amores)Foi erguida em 1848.Fonte de São João ( Malpique)Símbolo de culto, já foi ponto de encontro dos habitantes da aldeia.Fonte da PortelaConstruída em 1882, é enfeitada na época dos santos populares.Fonte FérreaEdificada em 1710, foi ponto de encontro dos habitantes da vila.Fonte VelhaTambém concluída em 1710, atribui-se-lhe grande valor medicinal e foi objecto de muitas lendas.Fonte dos MourosData de 1895. Tem valor etnográfico, histórico e arqueológico e há uma ladainha que lhe está associada.Fonte do Forno Exemplar do final do século XVI. É monumental e tem grande valor etnográfico.Fonte da Torre ComunalData de 1896 e é um símbolo da grande obra de abastecimento de água a Mação.Fonte de LongeFonte de chafurdo, com cantos e adágios populares próprios.Fonte Velha da BicaEdificada em 1919, foi recuperada há quatro anos. O arco da fonte tem, curiosamente, a altura da mulher que era na época a mais alta da aldeia, com o cântaro à cabeça.Fonte do CadafazEdificada em 1889, conta com um imponente espaldar. Tem, desde 1914, a companhia de um lavadouro.Fonte do Chão da MinaConcluída em 1888, tem água de óptima qualidade. Fontes de cortiço - Fontes rudimentares, resultando do aproveitamento simples de uma nascente onde se bebia água a partir de uma pequena concha, habitualmente em cortiça, deixada no local.Fontes de chafurdo ou de mergulho - desenvolvidas a partir de uma nascente, davam origem a uma pequena bacia de água de onde se bebia mergulhando um recipiente.Fontes de bica - a água da nascente seguia por um canal, saindo por uma bica. Desenvolveram-se a partir de 1940.Fontes de mina - as águas subterrâneas eram canalizadas para um depósito, junto ao qual se erguia um fontanário.Fontes ornamentais ou chafarizes - decoram praças e jardins, dividindo-se em chafarizes de tanque e bicas, marcos fontanários da rede pública de águas e chafarizes ornamentais.