Bem-vindos ao mundo devastador de Rodrigo García

É o acontecimento desta temporada: Rodrigo García, encenador, argentino. "A História de Ronald, o Palhaço do Mac Donald's", que criou para o Citemor, será certamente atravessada pela acidez, ironia, humor e violência do seu polémico trabalho. Assistimos a ensaios de uma obra que até ao fim permanece misteriosa - até para o próprio criador. E que se revelará, certamente, empolgante, nos dias 15, 16 e 17 em Montemor-o-Velho.

Montemor-o-Velho, Sala B, edifício abandonado, onde o tecto e as janelas são feitas de céu, as paredes têm bolor e ervas nascem no chão. O edifício podia estar implantado numa terra devastada e é aí que vai explodir a última obra do argentino Rodrigo García, o dramaturgo, encenador, videoasta, artista plástico argentino, director da companhia La Carneceria Teatro, que foi convidado pelo Citemor a criar um espectáculo, em regime de residência - "A História de Ronald, o Palhaço do Mac Donald's" (dias 15, 16 e 17, às 22h30).A tranquilidade que às 16h de um dia de Julho - dia 11 - atravessava a Sala B, propagada pela música clássica, começou a desaparecer progressivamente. Os actores, Rubén Ametllié, Juan Loriente e Juan Navarro, prenderam longas cordas à parede e García chegava com Loco, labrador negro que o acompanha por todo o lado. Sentaram-se a uma mesa onde espalharam copos de uísque, consultaram cadernos, conversaram. À mesa chegou também um aquário redondo com um peixe cor de laranja. Encheram-no com mais água. Rubén Ametllié foi o primeiro a agarrá-lo com os braços esticados, a experimentar os limites da resistência. Seguiu-se Juan Navarro. E o ritmo acelerou-se enquanto García perguntava aos actores se se estavam a sentir bem, se queriam parar. Mas não. Explodiu a energia em movimentos bruscos, violentos, agressivos de um torturador; a devastação, o horror implodiram no corpo do torturado, que sustentava o aquário nos braços, sublimando a dor com gemidos. Com um tubo, as duas outras figuras retiravam água do aquário, voltavam a enchê-lo. Repetiam as acções em movimentos pendulares, enquanto se ouvia o discurso duro, cruel do torturador: todos procuramos a plenitude, dizia, mas o homem e o peixe iriam morrer da mesma maneira; vivemos na era da abundância (de consumo) geradora do vazio (de valores), mas também se pode morrer de excesso de comida.a lente que devora. Mas não se desiludam se não assistirem a esta cena; até ao fim, diz García, a obra final permanece, para ele próprio, misteriosa. Só lhe é revelada dez dias antes da estreia, altura em que completa o "story board", monta os fragmentos concebidos e experimentados com os actores. Naqueles dias de Julho, sabia apenas que queria relacionar conceitos "em princípio díspares" - o consumo, a tortura, a traição. Com a acidez, ironia, humor e violência a dispararem em direcção aos habituais alvos: o poder político, a família, a educação, a comunicação social, a uniformização dos modelos de comportamento resultantes da globalização, a aculturação pelos valores norte-americanos. Criador de mais de vinte produções, concebe as suas obras para espectadores, espera ele, activos. Em rotação contrária às tendências europeias actuais, desenvolve um teatro interventivo - e combativo -, político, na linha do teatro alemão, impulsionado por Brecht e onde se situam algumas obras de Heiner Müller e Thomas Bernhard (autores que o influenciaram).O seu microscópio é uma lente pessimista, intolerante com a intolerância, a partir da qual observa o homem e o desventra, devora, desumaniza, devastando-o com as suas críticas.É um teatro com uma profunda carga ideológica, ética, feito de dialécticas, contradições. Intoxicado de vida, violência, cinismo, amargura; obscuro, mas onde explodem rasgos líricos comoventes e momentos efusivos. Urgente, como se o mundo fosse acabar no instante em que é representado; como se as paisagens devastadas pelo caos fossem habitadas por homens incapazes de reflectir, deformados, torturados, com o corpo exposto - como o de Rubén Ametllié, retorcendo-se no chão de uma sala em Montemor, sugado por um aspirador que tritura e dilui a sua identidade."Exagero, jogo ao contrário, sou brutal, antiético, falo das coisas que me interessam de uma maneira confusa. Não quero ser didáctico." Mas não deixa de o ser. "Sim, tento é disfarçá-lo com ironia, com um discurso que às vezes é o contrário da minha opinião, autoritário, violento. Interessa-me falar sobre temas importantes - a tortura, o abuso de menores, a globalização, a exploração do terceiro-mundo -, mas adoptar um discurso sério torna-se num panfleto político." E há, evidentemente, uma dimensão utópica, ainda que "pequenita" porque, como diz, "o teatro não vai mudar a conduta das pessoas de uma forma maciça, mas é preciso acreditar que falando destes temas se provoca a reflexão."mecanismos de choque. Nesse desejo obstinado de despertar as consciências, García, lúcido mesmo quando enfatiza a loucura, recorre a mecanismos de choque (para os quais há quem olhe com desconfiança). Em palco, estão intérpretes activos que criticam a passividade, a letargia do homem contemporâneo afogado no consumo; defende-se ideias por vezes fascistas, absurdas, amorais, antiéticas, niilistas; desenrolam-se acções arriscadas - voltando ao aspirador: no ânus de Rubén Ametllié; pode espalhar-se vísceras, comida, animais (mortos ou vivos). Esse confronto é afinal uma tentativa de aproximação ao público, para o qual Garcia não olha como massa anónima. Manipula as referências do imaginário dos espectadores - "cartoons", marcas, "fast food", batatas fritas, "ketchup", enlatados -, a linguagem vulgar de um teatro-acontecimento, "não culto" mas social. García combate o literário. Questiona, muitas vezes cruzando a fronteira entre teatro-dança, entre teatro e vida. Daí que, se antes partia do texto, agora são os actores que escolhe que determinam o espectáculo, para o qual arranca apenas com preocupações gerais de estrutura. Os intérpretes são portadores do discurso de um autor no qual se reconhecem. "Muitas vezes penso: vai ser uma obra com muito texto, ou com muito movimento. Sempre fiz obras muito fragmentadas, cenas com um princípio e um fim. Numa obra minha pode haver 25, 30 momentos, curtos, como 'zapping'. Naquela que estou a criar agora interessa-me ter momentos mais longos, mais gerais, não ser tão fragmentada."Os textos, pelo contrário, são cada vez mais minimalistas. "Um corpo a fazer uma acção real pode comunicar mais coisas do que um actor a dizer um texto. Trabalho muito sobre a forma de dizer o texto para que não seja demasiado literário, mas algo de vivo. É também uma contradição porque não me interessa que o actor improvise: preciso de escrever um texto complexo, rico em ideias. O problema é formal: como fazer com que este texto pareça que está a ser inventado pelo actor?" Como se o intérprete estivesse mas não estivesse a representar; como se o mundo criado estivesse de facto a acontecer ali. A energia em palco deve-se também ao método de trabalho do encenador. Quando escreve, num "work in progress" paralelo aos ensaios, pensa em pessoas, não em personagens. Implica os actores (mas a sua obra não tem assinatura colectiva: é um individualista). Por isso é essencial encontrar pessoas com quem tenha afinidades. Os ensaios normais aborrecem-no: os seus são sempre curtos (não mais de duas horas e meia), não repete cenas (pode regressar a elas, mas para as concluir), e o objectivo é criar material ao qual renuncia facilmente quando chega a altura de seleccionar. Explica como foi com a cena do aquário: "Propus que um dos actores segurasse o aquário. A primeira coisa que vejo é se teatralmente faz sentido, se funciona, se gera tensão ou chama a atenção. Depois, tentamos ver qual é o conteúdo dessa imagem. Recordei-me de um vídeo de Bruce Nauman, artista americano, onde havia a tortura de um palhaço. A partir desta imagem trabalhei com algo físico, também como uma tortura para o actor."fragilidade. Duas semanas antes da estreia Rodrigo García reúne o material criado, começa a esboçar pequenos desenhos e, tal como no cinema, montra os fragmentos num "story board". É nesta altura que decide se a obra terá momentos mais longos ou rápidos, como vão ser distribuídas as cenas mais potentes, onde vai haver música, etc. "Há liberdade total e é incrível como, com os mesmos materiais, se modifica uma obra. É um trabalho difícil, que pode levar dois dias, não há regras, é um 'feeling' teatral. Às vezes gosto de jogar e romper com as estruturas: pôr todo o texto ao princípio ou todo no final; gosto de trabalhar com coisas desconcertantes." E com a mesma agressividade e energia com que os três actores puxavam as cordas, naqueles ensaios de Julho, querendo derrubar a "quarta parede", a barreira ilusória que separa o palco da plateia. É tão agressivo o trabalho de García, que só podia estar à altura da fragilidade humana. "Se tenho uma postura niilista é porque me sinto frágil. A minha obra pode ter um discurso muito forte, mas parte do contrário: a forma como vivo, como estão organizadas as coisas, criam-me mal-estar. Então solto esta violência, esta loucura. Vivo-o, a partir de dentro, não de fora, como mais uma vítima. As condições de vida estão cada vez mais ligadas à produção, ao trabalho, o homem é cada vez menos sensível, tem cada vez menos capacidade para desfrutar de outras sensações. Podia viver espiritualmente de forma mais intensa: ter mais tempo para ler, para não fazer nada, passear, estar com pessoas. Mas não sei se conseguiria fazer uma obra frágil."