David Lodge: pensamentos secretos entre duas culturas

Numa altura em que os livros sobre sexo estão em todos os tops surge Sexualidade de A a Z, um dicionário do professor de psicologia Nuno Nodin.

A Asa acaba de publicar o último romance de David Lodge, "Pensamentos Secretos", que conquistou mais leitores em França do que no Reino Unido, entrando directamente para o primeiro lugar do "top" de vendas onde se manteve 14 semanas. Lodge nasceu em 1935, no Sul de Londres, e estudou Literatura na University College da Universidade de Londres, onde defendeu também uma tese de mestrado sobre ficção católica. Ensinou na Universidade de Birmingham entre 1960 até à sua reforma antecipada em 1987, quando se dedicou por inteiro ao seu trabalho de romancista. Publicou 11 romances em inglês, dos quais dez estão publicados em Portugal, onde tem um público alargado e fiel. Católico por formação, perdeu a fé pela força da razão e o seu livro "Até Onde se Pode Ir?" exibe as contradições da religião em geral e da católica em particular, em especial as suas doutrinas sexuais. Ser católico de forma consequente é muito diferente do catolicismo "não praticante" inventado em Portugal, pois implica uma compreensão das diferenças doutrinárias entre o catolicismo e o protestantismo, por exemplo, assim como uma participação activa na vida religiosa. Hoje Lodge é agnóstico mas não cortou os laços pessoais que mantinha com a comunidade católica inglesa. Ao ler-se, por exemplo, "Até Onde se Pode Ir?" fica-se imediatamente surpreendido com a seriedade, inteligência, humor e talento do autor.Aparentemente, muitas pessoas gostam de Lodge unicamente pelo seu humor contagiante que torna os seus romances leves, mas é a mestria de contar uma história despretensiosa sobre problemas importantes que o destaca como um grande escritor - ao contrário de tanta literatura pretensiosamente profunda, mas irremediavelmente superficial, sobre as dores de alma indizíveis que passam a vida a ser ditas. "Pensamentos Secretos" trata de um dos grandes problemas da actualidade: o problema de saber o que é a consciência. Este problema é abordado pelas neurociências, pela inteligência artificial e pela filosofia. A inexistência da disciplina de Filosofia da Mente nos departamentos de filosofia portugueses é um dos sinais do atraso que entre nós faz finca-pé nas chamadas "humanidades". No contexto nacional trata-se por isso de um romance muito bem-vindo, colocando além disso quem não lê ensaios em contacto com o que de há de mais emocionante na bibliografia ensaística actual - o que talvez leve essas pessoas a deixar de pensar imediatamente em romances quando se fala em ler livros. Lodge foi entrevistado na sua casa em Londres, na Charing Cross Road, mesmo junto à Leicester Square. Contra o mito do nevoeiro britânico, estava um céu azul às 9 da manhã e um ar morno. A Charing Cross Road não podia ser mais adequada a um escritor, pois é a "rua das livrarias" - tem várias livrarias académicas, generalistas e especializadas, assim como alfarrabistas. Pela manhã, a Leicester Square transmuta-se, pois ainda não tem os habituais foliões em busca de divertimento fácil que a povoam a partir da tarde e até de madrugada; pela manhã parece quase uma praça de uma pequena vila do interior, vazia e pacata, com senhores reformados a tomar vagarosamente o pequeno-almoço nas inúmeras esplanadas. Fomos recebidos com reservada simpatia e um café à inglesa. MIL FOLHAS - Por que razão escreveu um romance sobre o problema filosófico e científico da consciência? DAVID LODGE - Como explico no fim do livro, tudo começou com a leitura de uma recensão. Habitualmente, os meus livros começam com uma experiência pessoal qualquer, ou uma matriz de experiência, adoptando eu depois um tema unificador. Mas neste caso foi o tema que veio primeiro, foi a ideia abstracta. Fiquei intrigado quando li a recensão de "Consciousness Explained", de Daniel Dennett, e de "The Astonishing Hypothesis", de Francis Crick. A recensão evidenciou o desafio que este tipo de trabalho coloca às ideias religiosas tradicionais da alma e também à tradição humanista e à ideia de um eu individual único e responsável. Há aqui uma oposição ideológica interessante e muitos dos meus romances baseiam-se em oposições de diferentes culturas, profissões, países, etc. Os novos estudos sobre a consciência atingem directamente a ideia literária de como é a vida, do que é a consciência. A literatura trata sobretudo do eu interno, da experiência subjectiva do mundo. Comecei a desenvolver uma história que envolvia uma personagem que adoptava a perspectiva científica e materialista da consciência e da natureza humana, e uma romancista, alguém que tinha uma formação humanista e religiosa. E tinha mais ou menos de ser um romance sobre académicos porque é nas universidades que se faz investigação sobre a consciência. Tive de estudar muito para escrever este romance porque comecei sem saber quase nada. Alguns elementos da história desenvolveram-se em resultado do meu estudo. Há duas maneiras principais de abordar o tema: do ponto de vista biológico e da neurociência, ou do ponto de vista da inteligência artificial. Nada sei de neurociência, mas sei algumas coisas de ciências da computação, e por isso pensei que a compreendia suficientemente bem para escrever este livro. Por isso, fiz da minha personagem não um cientista físico mas alguém que vinha originalmente das humanidades, da filosofia, e se tinha começado a interessar pelo problema da consciência através da inteligência artificial. Quanto mais me embrenhava no tema mais me parecia tratar-se de uma questão intelectual terrivelmente importante; enquanto trabalhava no meu romance parecia-me que todas as semanas saía um novo livro sobre a mente ou o cérebro. Muitos deles eram muito bons. E há outra razão para esta característica do enredo. Uma das coisas que acho fascinante nos estudos sobre a consciência é a extraordinária capacidade que os seres humanos têm para enganar, e como o poder que nos dá o nosso cérebro nos permite também ser dissimulados como nenhuma outra criatura consegue ser. Fiquei fascinado com a ideia de uma "teoria da mente", o estágio no desenvolvimento humano no qual a criança se dá conta de que é possível mais de uma interpretação do mundo. A maneira de testar isso consiste em jogar pequenos jogos de engano. Se uma criança for capaz de enganar quem joga com ela, então é porque tem uma teoria da mente. E assim fiz o engano e o engano sexual um elemento central do enredo. Ora, Helen não pode defender o seu ponto de vista contra Ralph. Ele ganha a discussão intelectual, e ela ganha a discussão moral. As pessoas leram o livro de diferentes maneiras em função da sua formação. Por exemplo, as pessoas da inteligência artificial não o vêem como uma sátira do seu mundo, como acontece com os humanistas. Outro livro muito bom é "O Sentimento de Si", de António Damásio, que me parece simpático a uma visão humanista do problema. Ele foi mais longe do que todos os outros na descrição do fenómeno da consciência, e fê-lo de uma forma muito persuasiva. Muitos estudiosos da área dizem que há um mistério último acerca disto porque não podemos sair para fora da consciência para pensar sobre ela. Há outra dimensão relativamente a todo este tema: o aspecto neurótico da consciência - depressão, desespero. Por que razão cometem as pessoas suicídio? Porque não suportam a consciência. Há um lado negro da consciência acerca do qual a ciência em si nada de útil tem a dizer.