Obra de Grão-Vasco exibida em Salamanca 2002

Grão-Vasco, o génio da pintura renascentista portuguesa, é o protagonista da exposição que hoje à tarde abre portas na sala Santo Domingo, em Salamanca, Espanha, na presença do Presidente da República, Jorge Sampaio, e do ministro da Cultura, Pedro Roseta. Inserida na programação oficial da Capital Europeia da Cultura 2002, a mostra reúne "o que de melhor se pintou nas dioceses de Viseu e Lamego" na primeira metade do século XVI, explica ao PÚBLICO Dalila Rodrigues, comissária da iniciativa e directora do Museu de Grão-Vasco, em Viseu. Considerado uma referência fundamental na arte e cultura portuguesa, Vasco Fernandes (ou Grão-Vasco, como ficou conhecido - ver biografia) "transformou-se numa espécie de pintor-herói, a quem durante muito tempo se atribuía toda a pintura antiga de qualidade", nota Dalila Rodrigues. Constituída por trinta pinturas sobre madeira, "todas elas de extraordinária qualidade", diz a comissária, a exposição propõe aos visitantes uma viagem que pretende "dar visibilidade ao percurso criativo do mestre [Grão-Vasco] e dos pintores que se relacionam com ele". Dezasseis dessas obras são "completamente autógrafas de Grão-Vasco", isto é, feitas sem a colaboração dos seus seguidores, incluindo-se neste número o "Tríptico Cook" e "Pentecostes" (as duas pinturas que o mestre assinou) e toda a obra documental, ou seja, "aquilo acerca do qual não existe nenhuma dúvida de que é sua a autoria", salienta Dalila Rodrigues, que investiga a vida e obra do artista desde 1986. Entre os atractivos da exposição - que constitui a mais notória participação portuguesa em Salamanca 2002 - inclui-se "uma peça extraordinária", o "Calvário", da colecção de Alpoim Galvão, que se mostra ao público pela primeira vez, dado que, segundo Dalila Rodrigues, "em 1992, na exposição sobre Grão-Vasco no Palácio da Ajuda, não conseguimos identificar o seu paradeiro". A comissária frisa que todas as obras identificadas de Grão-Vasco estarão reunidas em Salamanca, com excepção dos quatro grandes retábulos da Assunção da Virgem, que ficam no Museu de Grão-Vasco (cujo núcleo expositivo funciona actualmente na ala norte da Igreja da Misericórdia, em virtude das obras de restauro que estão a decorrer no museu).A exposição na cidade espanhola progride, depois, pela obra do principal colaborador de Grão-Vasco, Gaspar Vaz, cujos trabalhos são muitas vezes confundidos com os do mestre, dada a semelhança da linguagem criativa. Exemplo disso é a imagem de S. Pedro da Igreja de São João de Tarouca, muito semelhante ao S. Pedro de Grão-Vasco, que é também a imagem mais paradigmática do artista. Ambas as pinturas estarão presentes, "frente a frente", na mostra de Salamanca. Seguem-se os dois retábulos da Igreja de Ferreirim (Lamego), ilustrativos do trabalho colectivo dos pintores mais importantes de Lisboa, Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes, num total de oito pinturas. Ligados às grandes empreitadas régias, estes artistas contribuíram para "a qualidade e densidade artística, absolutamente extraordinária, que define este período brilhante da história da pintura portuguesa", nota Dalila Rodrigues.As obras de Vasco Fernandes, expostas em Salamanca até 15 de Setembro, provêm de vários museus, igrejas e colecções particulares, nomeadamente do Museu de Grão-Vasco, em Viseu, de onde saíram duas das obras mais emblemáticas do pintor: "S. Pedro" e "A Última Ceia". A responsável pela mostra considera que a pintura sobre madeira do S. Pedro, que até ao século XVIII esteve num dos altares da sé viseense, tem "uma densidade emotiva e poética" que caracteriza toda a obra do pintor. "Neste caso, quem está ali no trono não é o apóstolo, é, sim, o chefe espiritual da cristandade! E a figura tem um olhar que nos persegue, independentemente do nosso ponto de visão". Acerca de "A Última Ceia", Dalila Rodrigues explica que "é seguramente a pintura mais tardia" (1540) presente na exposição. A obra foi encomendada para o Paço Episcopal do Fontelo (Viseu) pelo bispo D. Miguel da Silva, "um dos grandes mecenas" de Vasco Fernandes.As restantes obras expostas pertencem ao Museu de Lamego (cinco painéis do antigo retábulo da catedral, feitos entre 1506 e 1511), Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa (o "Tríptico Cook" ou, como também é conhecido, "Lamentação dos Santos Franciscanos"), ao Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, e ao Museu do Caramulo; às igrejas de Santa Maria de Salzedas e de Santa Cruz de Coimbra ("Pentecostes"); e às colecções particulares de Alpoim Galvão e de Manuela Lacerda. A mostra na sala Santo Domingo inclui também um vídeo que levará os visitantes até outros espaços da Capital Europeia da Cultura, onde poderão ver obras de artistas contemporâneos de Grão-Vasco, mas que trabalharam "do lado de lá da fronteira", como Juan de Flandres e Fernando Gallego.