Starck para bebés

O designer Philippe Starck, criador de sofisticados objectos e decorações, avançou pelos produtos para bebés e respectivas mães. Nenhuma das peças custa mais de 55 euros.

Há duas décadas que o celebrado designer francês Philippe Starck trava um combate para levar o design até às massas. Agora, com uma pequena ajuda da cadeia norte-americana de lojas Target, está a levá-lo até aos bebés.O criador de sofisticados mobiliários e interiores de hotéis dedicou-se a inventar objectos de cuidado pessoal, acessórios para secretárias e pequenos móveis funcionais. E, além disso, deixou a sua assinatura numa dezena de produtos para bebés e mães - disponíveis por preços absurdamente baixos.Pode confiar-se em Starck para transformar a maternidade numa experiência de alto design. E existe uma razão particular para isso. Starck e a nova mulher, Nori, esperam em Setembro o primeiro filho."Não é a teoria que me inspira. Tenho a minha própria visão. Sou inspirado pela vida", explica o designer.Temos, assim, um biberão que parece um frasco de perfume - e até vem com uma pequena roca e tudo. Ou um monitor que foi desenhado como um adereço que as mães modernas podem usar ao pescoço."Mais do que no bebé, pensei nas mães", observa Starck. "Além de, e antes de, serem mães, são mulheres. E uma mulher tenta sempre ser sexy e bonita. Se todos os produtos à volta do bebé forem feios, ela torna-se feia, o que não é nada justo." A nova colecção foi baptizada Starck Reality, e nenhuma das peças custa mais de 55 euros."A nova elegância moderna é a multiplicação", continua Starck. "Isso significa que se se tiver a sorte suficiente de ter uma boa ideia, tem-se o dever - com generosidade - de tentar dar essa boa ideia a um número máximo de pessoas."Starck começou por passear por um supermercado em Queens. Identificou várias centenas de produtos que achou precisavam de um "arranjo". A Target reduziu a lista a 50. "Nem sempre foi fácil", suspira o designer. A empresa espera vender milhões dos novos produtos a pessoas que podem até nem reconhecer o nome do artista. Mas nas lojas haverá propaganda a apresentar Starck como "um dos mais criativos a apaixonantes designers do mundo". Ficarão a saber que ele deixou "uma marca indelével nos produtos de consumo", com espremedores, apanha-moscas, sofás e secretárias. E que produziu "interiores recebidos com aclamação geral" para os sofisticados hotéis de Ian Schrager (como o Hudson em Nova Iorque, o Delano em Miami e o Mondrian em Los Angeles). O que o panfleto não refere é que Starck pode ser a pessoa que melhor vende o próprio trabalho."O trabalho para a Target é político. Mostra que o design não é só para fazer objectos sexy, para vender mais, para toda a gente ganhar mais dinheiro. Não, não é verdade. Não tentámos aumentar o consumo. O consumo em excesso é a morte da nossa sociedade. Só temos de dizer: 'Muito bem, podemos evitar comprar coisas de que não necessitamos?' E se formos obrigados a comprá-las, então temos de procurar ser inteligentes, comprar pelo preço justo, não por um mais alto só porque tem um nome famoso lá escrito."O preço certo, apressa-se a acrescentar, é o preço definido pela Target para os objectos desta sua nova colecção.Aos 53 anos, Starck é um criador prolífico, bem sucedido e conhecedor de como funcionam os media. Frequentador do jet-set, com o cabelo quase indomável e uma barba que se torna grisalha, garante que "vive no avião". Mas tem uma casa em Paris, uma quinta no sudoeste de França e outra numa ilha na lagoa de Veneza.Filho de um engenheiro aeronáutico, desenhou nos anos 60 móveis insufláveis e nos 70 virou-se para a decoração de discotecas. O reconhecimento generalizado começou a aparecer em 1982,quando o Presidente da França, então François Mitterrand, lhe encomendou - e a outros designers "avant-garde" - a redecoração dos aposentos privados do Palácio do Eliseu. O Café Costes, em Paris, completado dois anos depois, projectou-o para o estrelato.Desde então Starck tornou-se um fenómeno global, ocupando-se do design de iates, motos, escovas de dentes, piaçabas, relógios de pulso, bagagem, candeeiros, roupa de cama, maçanetas, armações de óculos, equipamento de cozinha e aparelhagem electrónica. Também criou um restaurante de comida saudável em Paris, chamado Bon.Ironicamente, com o mercado cada vez mais inundado de produtos Starck, a filosofia do designer passou a ser a de "cada vez menos e menos"."Amanhã será menos", insiste. "Temos de ter o mínimo em toda a parte". Isso inclui os nomes dos filhos. A filha Ara, de 23 anos, ficou com três letras. O filho Oa, que tem 6, com duas. Em Setembro, a nova filha será baptizada com uma única letra - K. "A letra K é um nome, Kay", justifica. "Porquê ter mais, quando se pode ter menos?"Esta filosofia, no seu entender, aplica-se completamente ao design. "Não precisamos de muitas das coisas inventadas pelas pessoas do marketing. Do que precisamos é de versões 'inteligentes, elegantes' dos produtos com que somos confrontados todos os dias. Pelo menos até conseguirmos fazer desaparecer tudo". Quando lhe perguntam do que se quer ocupar a seguir, Starck responde: "O meu objectivo final é a desmaterialização... Quanto mais há de objectos, menos há de humano".Na feira anual de mobiliário de Milão, onde foram apresentadas meia dúzia de peças desenhadas por ele, Starck falou connosco numa zona tranquila - o departamento de roupa de cama para crianças --, com a sua roupa preta a contrastar vivamente com a cacofonia visual das "cores para miúdos", que visivelmente não lhe agradam. Aliás, apressou-se a apontá-las como exemplos de "poluição cultural"."Não somos obrigados a seguir velhas ideias, segundo as quais tudo aquilo que rodeia as crianças e os bebés deve ter elefantes pequeninos e ridículos, corres horríveis e formas terríveis. Um bebé é como uma esponja cultural: precisa de mais função, mais honestidade, mais respeito."Para a nova colecção, ele escolheu apenas três cores: amarelo ácido pálido (modernidade, alegria e sol), branco (pureza) e prateado mate (qualidade, luxo e precisão). As crianças que beberem dos seus copos de vidro a fingir arriscam-se a criar um gosto refinado pela vida. Suspeita-se que Starck, a quem já chamaram "socialista do champanhe", gostaria que assim fosse.A marca afirma que estamos perante a chegada do "design democrático". A Ikea, que há décadas cunhou a expressão, pode ficar aos saltos. Mas os consumidores têm razões para festejar. A eficiência de produção da Target tornou possível que Starck concretizasse um sonho - um banquinho de inspiração africana por menos de 11 euros. Starck adorou. "Não é normal pagar mil dólares (1100 euros) por uma cadeira", afirma, embora tenha criado uma quantidade peças caríssimas. "Todo o meu trabalho tem sido no sentido de retirar três zeros aos preços. Dessa maneira, dá-se a possibilidade a quase todos de participar numa vida moderna, coerente."