CIA vigiou desde 2000 dois dos suicidas da Al-Qaeda

Congresso dos EUA abre inquérito aos falhanços dos serviços secretos

O Congresso dos EUA começa hoje uma série de reuniões para analisar os fracassos dos serviços secretos americanos em prever os ataque terroristas de 11 de Setembro. Os parlamentares americanos irão investigar por que ignoraram as agências de espionagem sinais de aviso sobre as actividades da Al-Qaeda de Osama bin Laden - a revista "Newsweek" revelou mais um: a CIA vigiou as actividades de dois dos suicidas envolvidos no ataque desde Janeiro de 2000, e só alertou as autoridades internas dos EUA três semanas antes de 11 de Setembro.

O inquérito do Congresso americano é uma resposta à avalancha de revelações de que as autoridades americanas ignoraram sinais de aviso dos ataques que mataram 3000 pessoas em Nova Iorque, Washington e na Pensilvânia. O principal alvo das críticas até agora era o FBI (polícia federal). Na quinta-feira, um comité do Senado irá ouvir Coleen Rowley, uma agente do FBI que acusa a sede da sua organização de ter ignorado pistas sobre os suicidas da Al-Qaeda.

O artigo da "Newsweek" apresenta contudo o primeiro caso de um erro específico da CIA (espionagem internacional), e muda o foco das atenções para a agência dirigida por George Tenet.

Richard Shelby, membro republicano do Comité dos Serviços Secretos do Senado, disse à televisão ABC que houve "fracassos maciços da CIA": "Julgo que vamos descobrir mais casos em que, se eles tivessem agido baseados na informação de que dispunham, talvez as coisas tivessem sido diferentes."

Inimigo na sombra

Uma cronologia entregue pela CIA ao Congresso, a que a "Newsweek" teve acesso e cuja autenticidade já foi confirmada por fontes oficiais, mostra que a CIA teve no seu radar Khalid Almihdar e Nawaf Alhazmi, dois dos suicidas no avião que foi atirado contra o Pentágono.


Em Janeiro de 2000, esta dupla participou numa reunião de presumíveis membros da Al-Qaeda na Malásia. As autoridades malaias vigiaram essa reunião e alertaram a CIA para a presença de Almihdar e Alhazmi. Na altura, o significado do encontro não era claro; no entanto, em Outubro de 2000, houve um atentado no Iémen contra o navio americano "USS Cole".

Almihdar tinha ligações a elementos que se julga tenham estado envolvidos no ataque ao "Cole". No entanto, isto não fez com que a CIA colocasse o seu nome na lista de "suspeitos a seguir" usada pelos serviços de imigração dos EUA. Só em Agosto de 2001, quando a CIA começou a obter rumores de que a Al-Qaeda podia estar a preparar uma grande operação, é que Almihdar e Alhazmi foram acrescentados a essa lista. Mas nessa altura já os dois tinham entrado nos Estados Unidos. O FBI iniciou então uma investigação para tentar descobrir os dois indivíduos, que ainda decorria no 11 de Setembro.

Um agente da CIA citado pelo "New York Times" sob anonimato afirma que não teria feito grande diferença se a CIA tivesse alertado mais cedo para Almihdar e Alhazmi: "A noção de que podíamos ter alterado a história ou impedido o ataque é altamente especulativa."

No entanto, os congressistas americanos insistem na necessidade de investigar os erros. "Há questões difíceis que têm de ser respondidas", disse à CNN a senadora democrata Dianne Feinstein. O "attorney general" (semelhante a ministro da Justiça) John Ashcroft disse que as agências de serviços secretos estão a "cooperar integralmente" com as investigações parlamentares. Ashcroft disse ainda que os agentes que tiverem cometido erros devem ser responsabilizados.

O Presidente Bush também se pronunciou ontem sobre os fracassos dos serviços secretos. Falando no Arkansas, Bush disse que "há muito trabalho a fazer", e que os EUA "precisam de melhores serviços secretos". "Nesta nova guerra, contra este inimigo que se esconde nas sombras, isso é muito importante", disse o Presidente. "Podemos fazer um trabalho melhor na defesa do povo americano, e vamos fazê-lo."