Dez anos depois de Falcone, a Mafia renasce na sombra

Há dez anos, a Mafia matava o juiz Giovanni Falcone. Dois meses depois, era a vez do juiz Paolo Borsellino. Estes atentados marcaram um ponto de viragem, suscitando uma enérgica reacção da sociedade e do Estado italianos, que conduziu ao desmantelamento de um grande número de redes mafiosas e à prisão do "padrinho dos padrinhos", Toto Riina. Dez anos depois, o balanço não é glorioso. A Mafia perdeu a arrogância, mas o crime organizado é um dos mais prósperos negócios de Itália.Na tarde de 23 de Maio de 1992, em Capaci, arrredores de Palermo, uma potente carga explosiva, enterrada na estrada, desfazia o automóvel em que se deslocava o juiz Giovanni Falcone, 52 anos, responsável pelo combate à Mafia. Com ele morreu sua mulher. A explosão foi provocada por controlo remoto, accionado, soube-se mais tarde, por um dos chefes da Mafia, Giovanni Brusca. A ordem partiu do "padrinho dos padrinhos", Toto Riina. Falcone foi rendido pelo seu mais directo colaborador, Paolo Borsellino. A 19 de Julho, numa rua de Palermo, meia tonelada de explosivos num carro roubado pulverizava Borsellino e os cinco homens da sua escolta. A Itália estava a iniciar um processo de renovação política, desencadeado por uma acção judicial contra a corrupção, a "Operação Mãos Limpas". Os dois atentados aceleraram este processo. E a comoção do país forçou uma acção decisiva contra a Mafia. É enviada para a Sicília uma unidade especial sob comando de um capitão de 33 anos, que usa o pseudónimo de "Último". Um pequeno grupo que dispõe de plena liberdade de acção. Apertam o cerco a Toto Riina, o chefe do clã de Corleone, que comandava a Mafia e se caracterizava por um carácter marcadamente sanguinário. Ao atacar o Estado, Riina provocava também o desagrado dos outros clãs, cujos negócios eram prejudicados. Alguns padrinhos, como Bernardo Provenzano, actual "chefe dos chefes", nunca aprovaram o desafio directo ao Estado. Riina fica isolado e é detido, em Palermo, a 15 de Janeiro de 1993.Com a prisão de Riina, a Cosa Nostra, designação da mafia siciliana, entrou em derrapagem. Enquanto a polícia detinha numerosos chefes, acentuavam-se os ajustes de contas entre famílias. Num esforço vão, a Mafia desencadeou atentados bombistas em Roma e Florença. Ajudada por um impressionante número de "arrependidos", a justiça fez dezenas e dezenas de processos. Num ano, caiam 18 dos 30 mafiosos mais procurados. Riina, no fim de um espectacular processo, foi condenado a prisão perpétua. Lá fora, os "homens de honra" reorganizavam-se sob direcção de Provenzano. "A Mafia é neste momento mais poderosa do que nunca", declarou há dias Piero Grasso, procurador-chefe antimafia de Palermo. "Ela é invisível para os que estão fora da Sicília. Mas para os sicilianos, que a sentem e a sofrem todos os dias, ela é bem visível". A Mafia, diz Grasso, "é como o vírus da hepatite C, muda incessantemente."No entanto, o grau de terror na Sicília baixou patentemente, tal como diminuiu o grau da infiltração mafiosa no Estado. Ao mesmo tempo mudam as mentalidades e cresce o número de cidadãos que desafiam a Cosa Nostra. Num gesto simbólico, e sem precedentes, a vila de Corleone inaugurou no ano passado um museu antimafia.A Mafia não desapareceu, reestruturou-se. À sua frente está Bernardo Provenzano, 69 anos, procurado pela polícia desde 1963. Foi ontem condenado, à revelia, a prisão perpétua, sob acusação de assassínio do jornalista italiano Mario Francese em 1979. Sob Provenzano os negócios prosperam, com menos ruído. Para as famílias da Mafia, "envolvidas num complicado sistema de interesses divergentes e de disputas territoriais, Provenzano é um garante da estabilidade da organização", diz o último relatório da Direcção de Investigação Antimafia (DIA). Para lá dos tráficos tradicionais, cigarros, drogas e armas, a Mafia permanece profundamente enraizada na economia siciliana. O mercado das obras públicas é controlado por empresas ligadas a clãs mafiosos. Um grande número de empresários continua a pagar regularmente o "imposto" de segurança.Há muito que a Cosa Nostra ganhou uma dimensão nacional e internacional. Há muito também que a Mafia passou do campo à cidade, para se concentrar nas obras públicas e no imobiliário, e depois nos tráficos internacionais. Para finalmente passar à esfera financeira: lavagem de dinheiro e investimentos, a aplicação da fabulosa renda do crime. Provenzano é ainda um "homem de honra" saído do mundo rural. O novo mafioso enverga frequentemente a farda de um executivo.Na Itália funcionam várias mafias (ver caixas). Ao longo da última década, emergiram também as mafias estrangeiras - balcânicas, russas, africanas e asiáticas. Milão é o epicentro desta nova realidade, "capital da multinacional do crime", onde todas as redes se cruzam.O juiz Falcone foi homenageado na terça-feira pelo Presidente Carlo Azeglio Ciampi. A data foi assinalada pela polémica. Vários magistrados e a oposição acusam o Governo Berlusconi de relaxar o combate à Mafia. Escreve o magistrado Antonio Ingroia: "Quando atravessa momentos difíceis, a Mafia mergulha. Isto já aconteceu no passado. A organização pode assim amortecer os golpes e restabelecer as relações com o exterior. Em silêncio, discretamente, sem barulho. O Estado imagina ter ganho a batalha. Basta deixar passar alguns anos para se aperceber, por vezes de modo trágico, que nada disso aconteceu.""O polvo renasce na sombra", anunciava em 1999 a revista "Micromega".