Oposição democrata quer uma investigação

Golpe falhado na Venezuela pode tornar-se um embaraço para Bush

Segundo a "Newsweek", o Comité para as Relações Exteriores do Senado já iniciou essa investigação
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Segundo a "Newsweek", o Comité para as Relações Exteriores do Senado já iniciou essa investigação Douglas Engle/AP

O golpe falhado contra o Presidente venezuelano Hugo Chávez pode tornar-se o primeiro escândalo de política externa para a Administração de George W. Bush, se se vier a provar a existência de vários contactos entre altos responsáveis norte-americanos e alguns dos golpistas.

Embora o regime de Hugo Chávez esteja a fazer o possível por evitar uma crise com os EUA, abstendo-se de fazer acusações directas, em Washington a oposição democrata classifica o golpe falhado como um desastre na política externa americana e está a preparar uma investigação sobre o assunto.

Segundo a "Newsweek", o Comité para as Relações Exteriores do Senado já iniciou essa investigação, procurando localizar telegramas e outros documentos que comprovem a existência de contactos entre responsáveis da Administração e os venezuelanos envolvidos no golpe - que foram sobretudo, diz a revista, militares de topo e alguns dos mais ricos empresários da Venezuela.

Estes contactos podem ter sido mais alargados do que a Casa Branca reconheceu até agora. Nos meses que antecederam o golpe, importantes figuras venezuelanas reuniram-se à porta fechada com responsáveis americanos.

Aliás, os dois principais especialistas em questões da América Latina na Administração Bush, Otto Reich e John Maisto, têm ligações fortes à Venezuela, e Gustavo Cisneros, o magnata da televisão venezuelana que os chavistas acusam de ser o arquitecto do golpe, ou pelo menos uma figura-chave, era companheiro de pesca do antigo Presidente George Bush.

Otto Reich já reconheceu ter falado com Cisneros "duas ou três vezes" durante o golpe, mas garantiu que estava apenas a tentar obter informações e não a apoiar os golpistas. "Não tivemos absolutamente nada a ver com isto", diz.

O reposto Presidente Chávez e o seu Governo parecem também preferir que os EUA nada tenham a ver com o golpe. O chefe da diplomacia venezuelana, Luis Alfonso Davila, disse na quarta-feira numa entrevista ao jornal "El Nacional de Caracas" que deseja "um novo ciclo nas relações" entre os dois países. E recusou-se a responder a perguntas sobre o eventual papel de Washington no golpe, à semelhança, aliás, do que fez o ministro da Defesa, José Vicente Rangel, um dos homens mais influentes do regime.

"Apelo à prudência no tratamento deste tema de Estado e de alta segurança nacional", disse Rangel. Esta contenção, explica o jornalista Jacques Thomet da AFP, prende-se com a vontade de não pôr em risco as relações comerciais com os EUA, que são o primeiro parceiro da Venezuela.

Mas, independentemente da questão do envolvimento americano, o golpe na Venezuela levanta outra questão embaraçosa, insiste a "Newsweek": tudo indica que a Administração foi apanhada de surpresa pelo "timing" dos acontecimentos, o que significa que não estava bem informada. "Isto é um grande falhanço dos serviços secretos, e a principal responsabilidade é da CIA", afirma Jack Sweeney, um perito em Venezuela citado pela revista.