"Um livro é como um corpo que se toca e tem marcas só dele"

É pena que, em Lisboa, não mais que poucas dezenas de pessoas tenham ouvido falar Alberto Manguel. Anteontem, no Dia Mundial do Livro - em iniciativa conjunta do Instituto Português do Livro e da Biblioteca (IPLB) e da Presença, a editora em Portugal do autor de "Uma História da Leitura" - Manguel passou, à tarde, pela Livraria Barata e, à noite, pelo Fórum Municipal de Almada. Primeiro com Álvaro Manuel Machado, depois com António Mega Ferreira. Diz-se que tem mais de 30 mil livros. Percebeu-se que os ama a todos (mesmos aos que não leu) por igual, nas suas diferenças. Como cada "corpo que se toca e tem marcas só dele". Os livros são o seu lar - e ele abre as portas e janelas dessa casa com a generosidade de gestos largos e o aconchego de diálogos em que o silêncio também é palavra."Como o meu pai estava no serviço diplomático, viajávamos muito; os livros davam-me um lar permanente, um lar que habitava à minha vontade, em qualquer altura, por mais estranho que fosse o quarto onde tinha de dormir ou por mais ininteligíveis que fossem as vozes ouvidas do outro lado da minha porta." Na verdade, "cada livro era um mundo em si e nele eu procurava refúgio", explica no seu "História da Leitura", a única das suas obras publicada em Portugal - agora em segunda edição, depois de a primeira, com uma tiragem de três mil exemplares ter esgotado num ano. Nascido em 1948, em Buenos Aires, na Argentina, para onde regressaria em 1955, após ter vivido até aos seis anos em Israel, em Telavive, numa casa não longe do deserto sob cuja areia "sabia que havia uma Cidade de Bronze enterrada", Alberto Manguel vive actualmente em França, numa pequena cidade a sul de Paris. Depois de se ter naturalizado no Canadá. E, se a leitura, como diz, "é cumulativa" - avançando numa progressão aritmética, de uma só frase para um conjunto de livros - está explicada a sua família literária. Traduziu, de língua para língua, Cortázar, Duras, Yourcenar... Escreveu sobre Kipling. Mas também, um pouco como Calvino, sobre cidades e lugares que nunca existiram ("The Diccionary of Imaginary Places"). Borges é uma âncora - "o maior leitor do mundo". "Alice no país das maravilhas", "Dom Quixote" e "As 1001 Noites" são leituras constantes. Unamuno, Kafka e Dante. Swift, Chesterton e Conrad. Sterne, Blake e Mann. "Não há cânones para a leitura. Vamos descobrindo os títulos, há associações de ideias, acasos, às vezes por caminhos estranhos. Ninguém começa pela 'Ilíada', a 'Eneida', e deles por aí fora, até ao mais recente. Nenhum leitor se faz assim. Há um lado de jogo na leitura que remete para a procura da alegria e do prazer", explicou Manguel em Almada naquilo que mais que uma conversa informal foi um verdadeiro elogio da leitura.Como não podia deixar de acontecer, a problemática "livros versus computadores" acabou por se fazer presente, não tanto como tema, mas como algo que acaba por se insinuar. Manguel é um contador de histórias: "Voltou-se, como na sociedade grega, à centralidade do monumento - o computador. Diz-se que ele permite que sejamos leitores interactivos. Schubert era o verdadeiro leitor interactivo. Na sua biblioteca só tinha livros que amava: as páginas de que não gostava arrancava-as. Isso é interactividade." As ideias ligam-se, vêm por famílias: "Um dos problemas mais graves de que sofremos agora é terem-nos convencido que a velocidade é um mérito. A cultura é lentidão. O prazer da leitura exige disponibilidade. Até porque ler nos leva a todo o tipo de lugares proibidos e perigosos. A leitura é, largamente, um lugar de transgressão. Muitas vezes, felizmente, estamos a atirar-nos a um abismo, um abismo em que ninguém se perde e muita gente se salva." Um abismo que pode ser os nossos próprios pensamentos, a memória, alheios à vertigem dos sons e imagens omnipresentes da velocidade contemporânea. "Hoje, é como se tivéssemos medo de estar sós, num lugar de silêncio. Acho que na minha biblioteca só há uma angústia difusa: a sensação de que nunca vou conseguir ler aqueles livros todos, e de que há muitos mais."De resto, num tema que Manguel já abordou vastamente (em "Reading Pictures - A Story of Love and Hate"), o escritor alarga os limites da palavra ler: "Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é umas das nossa funções vitais."