O romantismo contemporâneo de Michael Ondaatje

O Fantasma de Anil recupera a tradição do movimento romântico do século XIX. Crítica ao romance, numa colaboração entre a revista online Storm-Magazine e o Mil Folhas.

O romantismo, como princípio de rejeição à calma, à harmonia e ao equilíbrio, é passível de ser avaliado e aplicado aos nossos dias. Como movimento, iniciado no século XVIII e grandemente influenciado por Rousseau, funcionou, ao mesmo tempo, como causa e consequência da Revolução Francesa.Tal como então, também agora a morte violenta faz parte do quotidiano e a vida rege-se por uma tentativa de pôr ordem no caos. É impensável encontrar uma "explicação racional" para os actos cruéis injustificados, as matanças sem objectivo, a cobardia ignóbil, o terror instituído em lugares com nomes que se tornaram tristemente familiares como Auschwitz, Kigali, Kandahar, Saravejo, Ramallah. No movimento romântico, a ênfase era colocada no subjectivo, irracional, imaginativo, pessoal, visionário, emocional e transcendental. A natureza e a morte, com o seu processo natural de deterioração e corrupção, a exaltação da emoção em detrimento da razão, o império dos sentidos a sobrepor-se ao domínio do intelecto, a exaltação do humano com todas as suas potencialidades mentais, paixões e revoltas, as potencialidades da imaginação como factores essenciais, a predilecção pela cultura com as suas raízes folclóricas e étnicas, são outros tantos temas utilizados, mais uma vez, por Michael Ondaatje, autor de "Coming Through Slaughter", "Running in the Family" (um extraordinário relato autobiográfico),"The Collected Works of Billy the Kid" (onde se juntam poemas, fotografias, entrevistas, páginas de diário, canções, etc.) "In The Skin of a Lion" e "O Paciente Inglês".Quanto a "O Fantasma de Anil", o seu mais recente romance , recupera a tradição do movimento romântico do século XIX com um cunho contemporâneo que envolve a utilização de imagens visualmente muito fortes e um "editing" que apresenta grandes afinidades com o cinema, uma arte que Ondaatje conhece bem, uma vez que, para além de ter produzido o guião para "O Paciente Inglês", vencedor de vários Óscares, dirigiu já três filmes para a Mongrel Films canadiana. Michael nasceu em Colombo, no Sri Lanka, e é de ascendência indiana e holandesa. Estudou em Londres e acabou por se fixar no Canadá, em Toronto. Para além de escrever sobre animais e Leonard Cohen, por exemplo, é essencialmente um poeta que usa (também) prosa para construir aquilo a que Richard Erder de "The New York Times Book Review" chamou "verdadeiras catedrais". O mesmo analista, a propósito de "O Fantasma de Anil", afirmou com entusiasmo que "... é um feito extraordinário usar magia para tornar real o sangue derramado no Sri Lanka". Na realidade, é difícil encontrar autores contemporâneos com uma linguagem tão etérea e repleta de elementos oníricos que seja, ao mesmo tempo, tão eficaz e tão violentamente evocativa quando se trata de falar de guerras atrozes, de mortes violentas e de vidas destroçadas. Ao longo da narrativa, várias histórias (de vivos, de mortos, de doentes, de moribundos, de lugares esquecidos) revelam-se e articulam-se em camadas sucessivas como o "strata" geológico nas cavernas ou as inscrições do "Livro de Pedra de Polonnaruwa".Anil Tissera é uma jovem paleontologista especialista de ossos. Leva a cabo missões de reconhecimento de restos mortais em zonas do globo onde conflitos de toda a espécie produzem as suas vítimas, com uma voracidade intensa e regular. Como representante da Comissão Internacional dos Direitos Humanos, Anil é especialista em descobrir provas de crimes de guerra e está habituada a este género de trabalho em lugares como a América Latina. A paixão pelo seu trabalho é obsessiva e inquestionável. Ela sabe reconhecer corpos de pais, filhos, irmãos, atirados para valas comuns, escondidos em desertos, lançados de helicópteros, enterrados em cavernas. Anil tem consciência da importância, para as famílias, desse (re)conhecimento que também poderá levar à identificação de culpados. No entanto, a sua busca não se reveste de um propósito moral - castigar os maus, recompensar os bons -, mas sim de uma espécie de "nobre missão" que ofereça algum alívio aos vivos. ("A morte, a perda, permaneciam inacabadas. Tornava-se impossível seguir com a vida para a frente.""A identidade é um negócio sangrento", escreveu Ian Buruma, a propósito de "In The Name of Identity", de Amin Malouf, onde é avançada a hipótese de a identidade ser um dado crucial que provoca os piores confrontos, mais do que a religião, a raça, a nacionalidade: "É quando se trata de "nós" ou "eles" que se travam as batalhas mais terríveis: alemães e judeus, hindus e muçulmanos, católicos e protestantes, hutus e tutsis", acrescenta Buruma. É esta questão da identidade que leva Anil de volta ao seu país de origem, o Sri Lanka, um mundo que é simultaneamente estranho e familiar, de onde partira para estudar em Inglaterra e nos Estados Unidos. Ondaatje, no início do livro, traça com precisão jornalística o cenário em que a história se irá desenrolar. Um país que, desde a década de 80, se encontra mergulhado numa interminável guerra civil, resultado de uma crise que envolveu três grupos, as forças governamentais, os rebeldes antigovernamentais no Sul e os Tigres Tamil, as guerrilhas separatistas no Norte . Este confronto conheceu o seu clímax nos anos 90 e continua ainda. É uma guerra cujo "motivo é a própria guerra".O romance desenrola-se devagar, a princípio. Anil encontra Sarath Diyasena, o arqueólogo que a acompanhará nas suas buscas e a guiará por entre os meandros perigosos da ilha. Trabalham num velho barco abandonado transformado em laboratório e embrenham-se na floresta, onde irão permanecer num estado de semiexpectativa que se assemelha ao ambiente recriado no velho mosteiro italiano, durante a II Guerra Mundial, que Ondaatje desenhou em "O Paciente Inglês". Sarath, que é daquelas pessoas que "olha para um balde de terra e vê nele um romance histórico", só está interessado no passado e considera "irrelevante" o mundo que o cerca. A sua paixão vai toda para o que está morto e já desapareceu, pessoas e cidades de que apenas resta o pó. Com ele, Anil vai-se distanciando da sua outra vida no Ocidente, de Cullis, o seu amante, do quase esquecido ex-marido, um compatriota que conhecera quando trabalhava num hospital em Londres e que "possuía a qualidade essencial dos monstros", ou seja, uma tendência camaleónica para transformar simples conhecidos em amigos e confundir amor com empatia ("Quando ela chorava, ele chorava também. A partir daí, ela nunca mais confiou nos que choravam".)A obsessão primordial de Anil é devolver a identidade àqueles que desapareceram, traçando-lhes a história, "por vezes até à infância", a partir de um ínfimo osso, de um sinal inscrito na terra onde foram depositados. Ironicamente, esta singularidade é algo que só é passível de ser adquirida depois da morte e através do paciente trabalho de Anil e dos seus companheiros. Em vida, esses restos fizeram parte de corpos de anónimos professores, estudantes, camponeses, mulheres, crianças, mortos violentamente. Uma morte ainda mais terrível porque surge com o rosto familiar de vizinhos, de companheiros, de passeantes pela mesma estrada. Numa das cenas mais estranhas do livro, um homem é raptado e levado de olhos vendados e descalço, na barra de uma bicicleta . Para não perder o equilíbrio passa o braço em torno do pescoço do seu futuro assassino numa perturbante intimidade.No decurso das suas pesquisas, Anil desenvolve um interesse especial por um esqueleto, a que ela chama "o marinheiro", descoberto numa reserva arqueológica protegida pelo Governo e que poderá servir de prova de assassinatos. Ananda, um escultor alcoólico, "pintor de olhos" (uma cerimónia que envolve o desenho final do olhar nas estátuas do Buda), é chamado para reconstruir os traços do homem que é indispensável reconhecer. Anil, Sarath e Ananda (e o "marinheiro" que os acompanha nessa vida póstuma, dormindo o sono eterno no banco de trás de automóveis, em mesas de refeição, em camas de campanha) deslocam-se numa viagem perigosa pela ilha, presenciando cenas atrozes, como a crucificação de um camionista, numa estrada deserta. É ao salvarem esse homem que Anil conhece o irmão de Sarath, o médico Gamini, que se aliena da família para viver praticamente enclausurado em hospitais que funcionam como "aldeias medievais", permanentemente inundados de feridos, moribundos e mortos, trabalhando sem descanso num distanciamento terno e ao mesmo tempo irónico, sem dormir, sem comer, como o habitante de um cortiço, a estancar hemorragias, a cortar membros, a operar, a suturar, a vacinar a injectar. Tal como em "O Doente Inglês", é a guerra que une as pessoas, mesmo as que teriam poucas probabilidades de se cruzar em tempos "normais". Aqui trata-se do percurso da morte no tempo infinito, ligada a algo orgânico, físico, estranhamente sereno no processo de decomposição depois da violência da tortura e do crime. Para trás, fica o horror dos vivos, o "coração das trevas" de Kurtz no âmago da floresta, rio acima, no Congo de Conrad ou no Sri Lanka dos massacres, das cabeças empaladas, das torturas, da inutilidade da crueldade, da indignidade do esquartejamento. As pessoas limitam-se a deixar uma marca levíssima em corações quase vazios. E Sarath, o arqueólogo, que acreditava na verdade, também achava que daria a vida pela verdade, se a verdade adiantasse alguma coisa.Sarath, Gamini, Ananda ou Cullis são tão fantasmagóricos como a própria Anil, que aliás "comprou" o seu próprio nome, um facto revelador e que quase passa despercebido na narrativa. Ondaatje sabe criar uma atmosfera cujas qualidades encantatórias se aproximam das de Virginia Woolf (John Bayley já referiu que "O Fantasma de Anil" tem reminiscências de "The Village in the Jungle", o livro escrito por Leonard Woolf quando esteve no Ceylon Civil Service) e tem afinidades com autores contemporâneos como Rushdie e Ben Okri. Nunca é demais salientar a influência que autores oriundos de (ou com ascendência nos) "países exóticos", como Naipaul, Ishiguro, Kureishi, etc. tiveram no ressurgimento e revitalização da literatura escrita em inglês. Ondaatje, neste romance que levou sete anos a escrever, compõe um relato avassalador que poderia partir das palavras de Jung: "Todos temos um deus dentro de nós. O erro é identificarmo-nos com o deus que está dentro de nós."*directora do "Storm-Magazine"http://www.storm-magazine.com