A REACÇÃO: Proinov "em sintonia"

Maria João Rodrigues, responsável pelo lançamento do Programa Integrado para a Inovação (Proinov), no ano passado, considerou-se "francamente satisfeita" depois de ter ouvido a intervenção de Porter. Em declarações ao PÚBLICO, defendeu que "é sempre bom um perito do exterior chocalhar as consciências". Apesar de reconhecer que o balanço da análise de Porter não foi "edificante" para o Governo socialista, diz preferir "olhar para a frente". Em defesa do Proinov, considerou que os principais factores de competitividade, como a criação de condições de desenvolvimento da microeconomia, a construção da capacidade de inovação e de "clusters" "correspondem, em cheio, à preocupação do programa". Enquanto se esperam pelas decisões do novo Governo em matéria de Proinov, da tutela do ministro-adjunto do primeiro-ministro, José Luís Arnaut, Maria João Rodrigues distancia-se da receita de Porter quanto ao protagonismo do sector privado. "No caso português, tem de ser uma lógica público-privado, porque há muitas coisas que dependem do Estado, como por exemplo, as infra-estruturas, condições envolventes na educação e também o quadro comunitário de apoio".





Professor duvida da capacidade do país em mudar e co-responsabiliza sector privado

Michael Porter arrasa sete anos «socialistas»

A maior preocupação de Porter quanto ao futuro é a de saber se Portugal tem capacidade para mudar
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A maior preocupação de Porter quanto ao futuro é a de saber se Portugal tem capacidade para mudar Dulce Fernandes/PÚBLICO

Oito anos após o relatório Porter e a sua receita sobre as vantagens competitivas de Portugal, o seu autor regressou ontem para afirmar que o "país perdeu oito anos" e que as políticas seguidas negligenciaram a microeconomia, para manifestar a sua desconfiança sobre a "capacidade para mudar" da economia, defender que não há prosperidade sem produtividade, e que o sector privado tem de mobilizar-se para um problema que "não é do Governo", mas do país.

O quadro demolidor da situação portuguesa, que Michael Porter trouxe a Lisboa, pela primeira vez desde o projecto que coordenou no início da década passada - e de resultados inferiores aos ambicionados -, teve por base uma série de valores do último relatório da Competitividade Global, do Fórum Económico Mundial, de 2001, de que é co-autor, e a sua comparação com o quadro de 1994. Desde então, considera que a "posição competitiva da economia nacional piorou, enquanto o ambiente externo se tornou mais agressivo".

Segundo afirmou, o país "não se pode dar ao luxo de gastar mais tempo de permitir que os grupos de interesses bloqueiem o progresso, de falar sem agir". À pergunta "E Portugal consegue mudar?", a resposta dada foi: "É o que me preocupa mais. Mais do que as suas qualificações, o seu talento. A única coisa que não sei se consegue atingir é a capacidade para mudar". Na análise aos indicadores da fragilidade competitiva portuguesa, considerou que a avaliação dada ao ensino reflecte uma "crise nacional".

Na alegada perda de tempo, o professor norte-americano falou de uma "mudança muito modesta", em que "a reforma monetária tem de dar lugar à reforma da economia".

O atestado de dúvida profunda expressa por Porter, convicto de que o diagnóstico de 1994 tinha detectado os pontos correctos, passou também pela "ironia" de a Cimeira Europeia de Lisboa ter assumido a agenda da competitividade, ao mesmo tempo que fez de Portugal um fraco "exemplo". "Foram feitos relatórios e iniciativas, mas o problema está na acção, em fazer coisas, em mudar. Essa é a questão".

Dos últimos anos de política económica, defendeu que a prioridade dada às condições macro-económicas, para a entrada no euro, deve passar agora para a competitividade, "pilar fundamental da prosperidade". Face a um consenso nacional, que considera existir, "sobre o que há a fazer", frisou que a "única maneira de uma economia ser competitiva é aumentar sustentadamente a produtividade".

O sentido de "urgência nacional" integra, para este especialista o sector privado, já que se opõe à ideia de que o problema é do Governo. "Temos de aceitar que é uma tarefa para todos nós e o sector privado tem de participar". A este, atribui a possibilidade de superar a pressão dos grupos de interesse político, caso se "una" e se "mobilize", com o apelo para que o país "não pode permitir que os grupos de interesse bloqueiem as reformas".

O que determina a capacidade competitiva de um país, para Porter, "não é o que o país produz, mas quão sofisticado e produtivo é esse país a fazer o que faz", pelo que entende que a chave do problema já não está nas condições macroeconómicas, "impostas" pela adesão ao euro, mas na "sofisticação microeconómica", traduzido no ambiente da qualidade dos negócios, onde entram as infra-estruturas e a legislação, entre outros factores.

A crítica ao anterior Governo foi directa: "negligenciaram a microeconomia para o desenvolvimento do país", considerando ter sido esssa opção responsável por um "fraco crescimento económico, pela perda de quota de exportações no mercado internacional". Sem a possibilidade de desvalorização da moeda, o especialista considera que "o futuro é agora diferente do de há cinco, 10 anos".

Uma das grandes diferenças em relação à receita defendida há quase uma década é a importância dada agora por Porter à capacidade inovadora dos países, para aumentar a sua produtividade, apontando-a como "um caminho" prioritário para "o futuro de Portugal". Sublinha, na sua tese, que "já não há indústrias de baixa tecnologia, apenas empresas de baixa tecnologia".

O professor norte-americano, que diz não querer ser "superpessimista", sustenta, mesmo assim, que acabou um período de convergência que beneficiou dos fundos estruturais, extinta que foi a desvalorização cambial. Da "nova paisagem competitiva", diz, fazem parte os países do alargamento da União Europeia ao centro e leste.

Admitindo que uma nova política para a competitividade necessite de novas instituições, à semelhança do papel do Fórum para a Competitividade, em 1994, Porter deixou ainda o recado de que a competitividade "é uma maratona, não um 'sprint'" e que os primeiros resultados aparecem "cinco, dez anos depois, ou até mais tarde".