A guerra congolesa do coltan

No Leste do Congo-Kinshasa, no Kivu-Norte, junto às fronteiras com o Uganda e o Ruanda, em vários pontos, milhares de pessoas revolvem dia e noite a terra numa azáfama própria de quem procura tesouros. São milhares, de todas as idades, oriundos dos países à volta. Chegam às ondas, trazidos por militares e guerrilheiros, trabalham tudo, ganham nada comparado com o que extraem. Sobrevivem por milagre. Morrem sem nome - são números, como no tempo do rei Leopoldo da Bélgica. Não voltarão a casa, às famílias. De minas a céu aberto - em Punia, Bafwasende, Walikale, Saramabila, Kalima, Kama, Manono, Masisi, Shabunda e outros lugares (ver mapa) - arrancam uma das causas da guerra no país: o coltan. O que é o coltan? É a contracção de duas palavras, columbite e tantalite, minérios de estruturas atómicas similares de onde se extraem o nióbio, também conhecido por columbite, e o tântalo, essenciais ao fabrico de microprocessadores, microcircuitos, baterias. Que depois põem a funcionar mísseis, foguetões espaciais, "airbags", telemóveis. E jogos electrónicos. Houve até o caso de uma empresa japonesa que teve de adiar o lançamento de um jogo por falta dessa matéria-prima. Se a Austrália é o primeiro produtor mundial de coltan, é no Congo que estão 80 por cento das reservas mundiais do minério. Os mineiros são soldados regulares dos Exércitos ugandês ou ruandês, ou civis dos dois países à procura de enriquecimento rápido. São também membros dos grupos de guerrilha criados por um e outro, a Coligação Congolesa para a Democracia, pró-ruandesa, ou o Movimento para a Libertação do Congo. Ou presos de delito comum trazidos de Kigali pelo Exército Patriótico Ruandês. Ou crianças das escolas de Goma, a capital do Kivu-Norte, onde os professores têm cada vez menos alunos. Os militares trabalham para aumentar o pré, os civis à procura de riqueza rápida - o Kivu-Norte é o Eldorado congolês. Os presos, a troco de uma redução da pena ou de cinco dólares por quilo, uma fortuna na zona e em qualquer dos países envolvidos para quem tem pouco ou nada. As crianças para ajudarem os pais ou por sobrevivência. O Estado congolês não ganha nada. Na prática, não manda na zona. Os que lucram são o Uganda e o Ruanda, que exportam o coltan como um produto seu quando na verdade é congolês, de acordo com um relatório da ONU, pouco divulgado. O mineral não existe no subsolo de qualquer destes dois países. Só em 18 meses, segundo as Nações Unidas, o Ruanda retirou das áreas congolesas ocupadas 250 milhões de dólares. O Uganda também usufruiu de dividendos com a exportação, em 1999, de 69,5 toneladas. A fome de coltan é tão grande que tropas ruandesas atacaram uma posição do Movimento para a Libertação do Congo, protegido do Uganda, perto de Kisangani, para se apoderarem de um carregamento numa altura economicamente má. Para justificar a presença dos seus soldados na região, Kigali chega até a fomentar o aparecimento de falsas milícias "Interahamwe", os rebeldes hutus que combatem o regime ruandês. Depois de extraído, o mineral é levado por camiões ou helicópteros, frequentemente militares ou dos grupos aliados congoleses, para os países saqueadores e, destes, para o estrangeiro por diversas rotas, aéreas e marítimas. Até Junho do ano passado ia, por exemplo, de Kigali para Bruxelas através da Sabena, que entretanto, na sequência de fortes pressões, suspendeu o serviço. Mombaça, no Quénia, Dar-es- Salam, na Tanzânia, Bangui, na República Centro-Africana, e Duala, nos Camarões, eram outras portas de saída. Finalmente, e depois de uma série de intermediários - calcula-se que seis ao todo, incluindo militares e políticos com relações privilegiadas com os presidentes do Uganda, Ioweri Museveni, e Ruanda, Paul Kagamé -, o destino: 34 empresas estrangeiras, 27 delas ocidentais, entre elas as belgas Cogecom e Sogem, a alemã Masingiro GmbH, a holandesa Chemie Pharmacie e a suíça Finmining.