Diplomatas da UNITA acusam Luanda de ter os generais "prisioneiros" no terreno

A Missão Externa da UNITA, que se assume como a única estrutura representativa para negociar com o Governo de Luanda, denunciou ontem o que define como a "utilização de prisioneiros de guerra para a assinatura de acordos de cessação de hostilidades". Uma óbvia referência ao general "Kamorteiro", que na sexta-feira assinou em Cassamba, na província do Moxico, um acordo de cessar-fogo bilateral com um dos mais altos responsáveis militares do Governo de Luanda, o general Nundo. No entanto, o comunicado considera um "passo positivo" a decisão do Governo do Presidente José Eduardo dos Santos em instaurar um cessar-fogo no terreno. Na sexta-feira, e num "espírito de fraternidade", decorreu um encontro em Cassamba entre uma delegação das Forças Armadas Angolanas (FAA), chefiada pelo general Geraldo Sachipengo Nunda, e uma comitiva da UNITA liderada pelo general Abreu Muengo Ucuatchitembo "Kamorteiro", chefe do estado-maior do movimento do Galo Negro. A reunião terminou com uma declaração sobre a "cessação das hostilidades". A Missão Externa do movimento do Galo Negro mostra-se muito cautelosa face a esta iniciativa, apesar de admitir ter "acolhido com interesse" a decisão do Governo de Angola, emitida a 13 de Março, relacionada com o "fim dos movimentos ofensivos". Os responsáveis da UNITA no exterior definiram este anúncio como "um passo positivo no longo caminho em busca da paz" e que deverá realizar-se "no quadro do protocolo de Lusaca com a supervisão e controlo dos mecanismo nele previstos". Mais adiante, a Missão Externa apela às Nações Unidas para que assuma a sua função mediadora e acelere a "abertura de contactos políticos directos", e alertam ainda para a "necessidade urgente de assistência humanitária às populações deslocadas na província do Moxico". O alegado aproveitamento de prisioneiros de guerra por parte do Governo de Luanda para o anúncio de um cessar-fogo parece constituir o principal tema de discórdia interior da organização que era liderada por Jonas Savimbi. A morte deste, anunciada em Fevereiro pelas FAA, abriu a perspectiva de um processo de paz em Angola. Em declarações à SIC Notícias, o general "Kamorteiro", que integra a hierarquia militar da UNITA, afirmou "não existirem razões" para que os angolanos regressem às armas. "Serviria para alcançar o quê? Por isso, quando falo de paz estou a falar seriamente. Sobretudo para garantir a todos que a paz veio para ficar", sublinhou. Este responsável também desvalorizou as posições no interior do movimento que apelam ao prosseguimento da luta armada, e disse estarem a ser "emitidas ordens" aos comandos militares no terreno para o fim das acções armadas. Neste aspecto, Rui Oliveira, representante do movimento do Galo Negro em Portugal, falou de uma "encenação" e também acusou Luanda de "estar a utilizar prisioneiros de guerra para fazer passar a imagem de um acordo pacífico". Citado pela Lusa, Rui Oliveira precisou que os generais Abreu "Kamorteiro", Kalias Pedro e Alberto Samy, bem como os brigadeiros Fernando Eplanga e Paulo Bondo, estão detidos pelas autoridades de Luanda "mais ou menos desde a altura da morte do dr. Jonas Savimbi". Quanto ao destino dos generais António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Numa e Apolo, altos responsáveis da UNITA, Rui Oliveira admitiu que "estão dados como desaparecidos". Na perspectiva dos sectores da UNITA que apostam no fim da prolongada guerra em Angola, estas opiniões dissidentes "vindas do exterior" devem ser explicadas pelo "clima emotivo" relacionado com a morte de Jonas Savimbi, o líder histórico do movimento morto em 22 de Fevereiro pelo Exército angolano. Responsáveis das Forças Armadas Angolanas também confirmaram ontem encontros com membros do movimento rebelde para discutir medidas que garantam o "fim imediato" da prolongada guerra civil. "Posso dizer que a paz chegou porque está aqui o chefe do alto estado-maior general das forças militares da UNITA que assinou connosco a cessação das hostilidades", disse, escutado pela SIC Notícias, o general Nunda. "O nosso país já experimentou todo o sofrimento possível. Não há aqui ninguém que tenha mais vontade em continuar com esta guerra", acrescentou. Diversas informações coincidentes referiram que os militares da UNITA se preparam para instalar uma delegação na capital provincial do Moxico, enquanto está previsto para amanhã um novo encontro entre delegações militares das duas partes para estabelecer os termos da pacificação, que podem terminar com 27 anos de guerra civil na antiga colónia portuguesa. As estatísticas apontam para meio milhão de mortos e milhões de deslocados desde 1975.