O monumento a António Nobre

Mais de um quarto de século após o seu desaparecimento prematuro, era inaugurado no Porto um monumento em homenagem ao poeta António Nobre, o inspirado autor do "Só". Localizado no Jardim de João Chagas, na Cordoaria - onde ainda hoje se encontra, tendo sobrevivido à sua recente remodelação -, a cerimónia da sua inauguração decorreu em 26 de Março de 1927, completam-se agora três quartos de século.Natural do Porto, onde nasceu em 1867, António Nobre matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1888, a fim de frequentar o curso de Direito. Desiludido com o ambiente académico e a vida universitária da cidade do Mondego, passados dois anos rumou até Paris, com uma recomendação de Guerra Junqueiro a Eça de Queirós, a fim de frequentar a Escola Livre de Ciências Políticas e a Faculdade de Direito da Sorbonne, onde se licenciou em Ciências Jurídicas. António Nobre viveu em Paris na época de Mallarmé, Verlaine e Rimbaud, mas não estabeleceu quaisquer relações com nenhum deles, vindo no entanto a publicar na Cidade das Luzes, em 1892, o livro de poemas "Só", a sua obra mais célebre e a única editada em vida.É precisamente nessa altura que se declara a enfermidade - uma tuberculose pulmonar - que irá preencher os últimos anos de vida do poeta. A expectativa de encontrar uma cura obrigou António Nobre a sucessivas deslocações, mas nem as duas permanências nas montanhas da Suíça, o aprazível clima da Madeira, a viagem por mar a Nova Iorque, ou as agradáveis estadas no Estoril e em Belas, lograram restituir-lhe a saúde que lhe vinha faltando, acabando o poeta por falecer, na Foz do Douro, em 18 de Março de 1900.O monumento que a cidade do Porto lhe dedicou postumamente no Jardim de João Chagas - e que só foi possível graças ao patrocínio da autarquia e dos próprios familiares -, é constituído por um busto de bronze assente num pedestal em mármore, o qual por sua vez se encontra sob uma base de granito, com três degraus. O projecto do busto foi da responsabilidade do arquitecto António Correia da Silva e executado pela conhecida empresa portuense a "Industrial Marmorista", da Rua de Agramonte. De acordo com Alexandrino Brochado, autor do livro "O Porto e a sua estatuária", o busto "é uma ampliação, feita pela casa Sá Lemos, de Vila Nova de Gaia, do que em Paris modelou, do natural, e fundiu o escultor Tomás Costa. No espólio do dr. Augusto Nobre - irmão do poeta - está o original, que constitui um belo retrato desse espírito gentil do romantismo, António Nobre". Saliente-se que, para além do escultor Tomás Costa, discípulo de Soares dos Reis e autor do projecto do monumento ao Infante D. Henrique, o arquitecto António Correia da Silva era igualmente uma figura notável da cidade, tendo sido o autor de dois dos mais importantes monumentos construídos no Porto no primeiro quartel do século XX - o Mercado do Bolhão (1914) e o edifício dos paços do concelho (projecto inicial de 1915, posteriormente bastante alterado).Em virtude das más condições atmosféricas registadas no dia da inauguração do monumento de homenagem a António Nobre, a sessão solene teve de ser transferida para o salão da Faculdade de Engenharia, então instalada no vizinho edifício da antiga Academia Politécnica do Porto. No entanto, foi necessário descerrar previamente o busto, acto para o qual foi convidado o sobrinho do poeta, Augusto Ferreira Nobre. Numa curta cerimónia, ao som da "Portuguesa" executada pela banda do Asilo do Terço, foi então arrancada a bandeira nacional, que cobria o monumento, perante uma numerosa assistência de individualidades dos mais variados quadrantes da vida política e intelectual da cidade, que puderam assim admirar o "peculiar sorriso característico" de António Nobre, que Sant'Anna Dionísio descreve, no "Guia de Portugal", apresentar "uma tristeza levemente desdenhosa e transcendente".