Restauro ao fim de quatro anos

Claustro dos Jerónimos: o esplendor da pedra

Com um investimento de mais de dois milhões de euros, a magnífica estrutura do século XVI volta a apresentar a sua cor original
Foto
Com um investimento de mais de dois milhões de euros, a magnífica estrutura do século XVI volta a apresentar a sua cor original PÚBLICO

Quatro anos decorridos sobre o início dos trabalhos de conservação e restauro, o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, pode finalmente colocar à disposição dos visitantes um claustro despido de andaimes e tapumes, em que a pedra volta a apresentar a sua cor original.

Conhecendo diversas campanhas de construção, o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, expoente máximo do manuelino e um dos mais importantes monumentos nacionais, foi objecto de uma complexa intervenção, à semelhança do que sucedera já com a Torre de Belém, entre 1995 e 1998.

A World Monuments Fund Portugal (WMFP), associação que liderou os processos de revalorização patrimonial nos dois imóveis ribeirinhos, deu a conhecer, ontem de manhã, as diversas fases do projecto de restauro, numa conferência de imprensa em que estiveram presentes representantes do seu parceiro institucional - o Ministério da Cultura, através do Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar) - e alguns dos seus principais responsáveis técnicos e científicos. À tarde, foi a vez do Presidente da República, Jorge Sampaio, e de Maria José Ritta, passearem pelo claustro renovado.

Paulo Lowndes Marques, da WMFP, uma das filiais europeias da World Monuments Fund americana, organismo já com uma longa tradição na área da angariação de apoios mecenáticos destinados ao património construído, classificou a intervenção no claustro como a "obra de maior responsabilidade" realizada em Portugal pela associação a que preside.

Com um custo total de 2.336.346 euros, dois terços do qual (1.539.847) suportados por mecenas nacionais e estrangeiros, o projecto de intervenção foi dividido em quatro fases distintas e mereceu do ministro da Cultura, Augusto Santos Silva, rasgados elogios. "Trata-se de uma intervenção exemplar", afirmou, referindo-se ao "escrupuloso cumprimento" dos prazos e das estimativas orçamentais. Sublinhando a importância do "determinante" apoio mecenático, Santos Silva classificou-a como um "trabalho de excelência", com óbvios resultados físicos - a limpeza e consolidação do claustro - e com significativos ganhos científicos, objecto de um encontro de especialistas a realizar já no próximo mês.

Líquenes, sujidade e infiltrações

Para que o projecto de conservação pudesse ser posto em prática - os trabalhos de intervenção propriamente ditos realizaram-se entre Fevereiro de 2000 e Fevereiro de 2002 - foi necessária uma longa fase de preparação que exigiu um levantamento completo da estrutura do claustro. Tudo começou pela investigação histórica, indispensável a um desenho pormenorizado, nascido do cruzamento do tradicional registo arquitectónico com fontes topográficas e fotográficas.


"O desenho que cruza estas informações constituiu uma preciosa base documental que nos permitiu mapear as formas de degradação do claustro", explicou ao PÚBLICO Vasco Moreira Rato, coordenador do projecto.

A formação de "crostas negras" na superfície da pedra, a humidade, a desagregação de alguns materiais, a instabilidade provocada por diversos problemas ao nível das juntas e o crescimento de organismos vivos nas estruturas (a chamada "colonização biológica" que diz respeito à formação de algas, líquenes e musgo que corrói a pedra e, por vezes, à vegetação superior que ameaça as alvenarias) eram alguns dos principais problemas do claustro.

"O processo de degradação é irreprimível, inevitável. A nossa intervenção vai no sentido de o atrasar", explica Moreira Rato, falando dos materiais que foram aplicados para retardar o processo corrosivo, da água de cal a substâncias hidro-repelentes.

Inserida no Programa de Recuperação de Conjuntos Monásticos Portugueses, levado a cabo pelo Ippar desde 1996 e com final previsto para 2006, a recente intervenção faz parte de um processo mais vasto que, nos Jerónimos, levou já a um investimento de 4.440.000 euros, um terço do qual financiado por mecenas. Para o presidente do instituto, Luís Calado, o facto de o restante montante ter sido assegurado pelo orçamento do Ippar, em parte graças a fundos comunitários, significa que "a preocupação crescente com a descentralização não tem levado ao esquecimento do património afecto a Lisboa e ao Porto".