Crítica

Memórias Africanas: o Gotejar da Luz

Depois de "Fintar o Destino", a segunda longa-metragem de Fernando Vendrell volta a ter África como cenário: Moçambique, neste caso, a partir de um argumento de Leite de Vasconcelos que cruza a evocação (provavelmente) autobiográfica com um olhar sobre o colonialismo português nos anos 50. Também se percebe que "O Gotejar da Luz" contém uma sensação de perda e de vazio, sobretudo no que toca ao olhar sobre o Moçambique contemporâneo: antes de se iniciar o "flashback" que nos conduz aos anos 50, vemos o protagonista, adulto, a conduzir o seu jipe por estradas chuvosas e vazias até chegar à carcaça da sua casa de infância. É então que as memórias o invadem e o filme, por assim dizer, pode começar.

Uma das virtudes de "Fintar o Destino", o simpático primeiro filme de Fernando Vendrell, residia na proximidade que o realizador conseguira estabelecer com os sítios e as gentes de Cabo Verde - era um filme embebido dos "espíritos do lugar", empático, que conseguia olhar para dentro sem parecer que estava de fora. Era um filme, portanto, que vivia muito de uma certa capacidade de fusão com o quotidiano, de identificação com a vida que se passava à sua volta para lá da câmara e para lá do cinema. Em suma, um filme que não era surdo ao real, que se deixava atravessar por ele, diluindo as fronteiras entre o que era da ordem da representação e o que era da ordem do vivido.

Pode haver várias razões para que "O Gotejar da Luz" não repita essas características, mas a mais importante (pelo menos aquela que o filme melhor deixa ver) é fácil de isolar: estamos, em "O Gotejar da Luz", num filme de época, logo um filme de absoluta reconstituição, logo um filme onde a ficção e a narrativa se sobrepõem a tudo e determinam o tipo de "real" que o filme pode dar - um real (re)construído, montado, representado, que não deixa espaço para a empatia de "Fintar o Destino".

Será isso um defeito? A priori, claro que não. A questão, em "O Gotejar da Luz", é que Fernando Vendrell fica sozinho com a ficção, com o romanesco. E, sem poder recorrer à "verdadeira vida" (que só pode aparecer "congelada", reduzida à condição de apontamentos sobre o folclore moçambicano), parece ficar manietado e não saber muito bem o que fazer com a história que tem entre mãos. Por isso, "O Gotejar da Luz" é um filme estático, perro, sem um ponto de vista forte nem nenhuma ideia que se assuma como central na condução da narrativa. É uma história de amadurecimento, de "passagem", claro, onde o olhar do jovem protagonista, Rui Pedro, é fundamental - e isso inclui a tomada de consciência sobre a "situação histórica", em particular sobre o colonialismo. Mas mesmo aí "O Gotejar da Luz" é pouco concentrado, dispersa-se em histórias ao lado (a de Vítor Norte, Carla Bolito e o "secretário", por exemplo, que aliás fica insatisfatoriamente resolvida), hesita no caminho a tomar. Acaba por escolher a história da paixão proibida entre o primo de Joanesburgo e a criada negra que se vai casar em breve, mas mesmo esta, se confere ao filme os seus momentos mais airosos (as cenas da sedução, na sala, com a sabotagem dos estatutos de cada um), nunca se desenvolve para além do esquematismo, e nunca ganha a intensidade emocional que merecia (num plano as personagens mal se conhecem, no plano seguinte estão perdidamente apaixonadas) nem no seu desenlace brutal. Não se pode pedir a Vendrell que seja Mizoguchi, mas é frustrante perceber que estão lá os condimentos e que o filme os desbarata.

Em suma, mais do que um filme falhado, "O Gotejar da Luz" parece ser um filme muito pouco à vontade. A ver vamos que direcção segue, a partir daqui, Fernando Vendrell.