Tudo sobre Yves

Paris, a França, o mundo da moda inteiro, estão aos seus pés, agora que ele disse adeus. A 7 de Janeiro, Yves Saint Laurent decidiu pôr termo a mais de 40 anos de carreira na alta costura. Desgastado, cansado, desencantado. Terça-feira, no Centro Pompidou, em Paris, um espectáculo retrospectivo das suas criações entre 1962 e 2002 é a primeira de muitas homenagens. Lógicas para alguém que, juntamente com Christian Dior e Coco Chanel, foi um dos grandes revolucionários da moda. Só que ele é, provavelmente, o homem a quem se devem as mais substanciais mudanças no guarda-roupa da mulher moderna.

Toda a Paris da moda e da costura se precipita para o antigo hotel do pintor Forain, na rue Spontini. É um momento maior: Yves Saint Laurent, que meses antes criara a sua própria casa de alta costura, apresentava a primeira colecção com a insígnia YSL. Colecções já Saint Laurent desenhara várias. Mas até aí sempre com a marca Dior, desde que fora contratado, em 1955, pelo "Pai do New Look", Christian Dior. Tinha 18 anos, estava saidinho de fresco da Escola da Câmara Sindical de Costura de Paris.Com o desaparecimento de Dior, que morre em 1957 vítima de um ataque cardíaco, Saint Laurent assume o cargo de director artístico da casa de costura mais conceituada no mundo, e logo no ano seguinte põe toda a gente a falar dele: a famosa colecção "Trapézio"- em perfeita sintonia com a tendência abstracta que então se vivia na pintura e com a arquitectura de Le Corbusier - entra em ruptura com o modelo de mulher do pós-guerra, enfiada em espartilhos. No dia seguinte ao seu primeiro desfile Dior, os títulos dos jornais proclamavam que Saint Laurent - então com apenas 21 anos - tinha "salvado a França". Clientes e imprensa ficam de corações inflamados por este jovem alto, magro, frágil, tímido e míope, de rosto meio tapado por óculos de armações grossas, que na adolescência alimentara o desejo de vir a tornar-se cenógrafo de teatro.A primeira queda em desgraça - e nenhum costureiro teve tantas como ele, nem tantos regressos em grande como ele - dá-se logo dois anos depois, com a controversa e muito mal recebida colecção "Beat Look" (é aqui que surge o primeiro blusão de couro preto, as camisolas de gola alta, as saias curtas, a entrarem directamente da rua para os salões). Revolucionária, a colecção usava técnicas novas que redefiniam o estilo de rua, mas o dramatismo das criações pareceu ser demais para o magnata dos têxteis Boussac, proprietário da casa Dior, que substitui YSL pelo menos ousado Marc Bohan.Por essa altura, o "delfim Yves" sucumbia a um esgotamento físico e psicológico ao fim de 20 dias de recruta militar. É Pierre Bergé, que Yves Saint Laurent conhecera três anos antes, que o vai encontrar num hospital psiquiátrico de Paris e o ajuda a recuperar do duro golpe que constituíra o afastamento da casa Dior. Amigo, companheiro amoroso - Yves assumiu desde cedo a sua homossexualidade -, mas também excelente parceiro de negócios, Bergé encaminha Yves para a decisão já inadiável: em 1961 é lançada a casa e a marca YSL, com Yves encarregue da criação e Pierre à frente da gestão. É o princípio de uma aventura sem par, cujo êxito é logo assinalado na primeira colecção de 1962, de onde saiu o "caban", o gabão de marinheiro, de lã azul marinho, com os botões enormes e dourados ostentando desenhos de âncoras.A tendência do estilo de rua assume-se em pleno no quarto ano de existência da casa YSL, com o lançamento da linha de pronto a vestir a que Yves chamou "Rive Gauche", em 1966, permitindo a milhares de mulheres conjugar elegância e conforto no dia-a-dia.É daqui que sai a "saharienne" (1967), o casaco-safari que se tornará um clássico do guarda-roupa contemporâneo, e que foi sem dúvida inspirado nas memórias de infância e adolescência de Yves Saint Laurent, nascido a 1 de Agosto de 1936 em Orão, na norte-africana Argélia, numa família burguesa e de tradições de sofisticação: a mãe, Lucienne, era uma mulher belíssima e uma "socialite"; o pai, Charles, possuía uma cadeia de cinemas; e o trisavô fora o advogado que redigira o contrato de casamento entre Napoleão Bonaparte e Josefina.É tudo isso que Yves Saint Laurent traz com ele para Paris, onde chegou em 1953 com 17 anos, para frequentar a escola de costura. Nesse ano ganha o 1º Prémio do Concurso do Secretariado da Lã, com um vestido preto de cocktail (Karl Lagerfeld dividiria com ele o prémio, ex-equo, na categoria "casaco"), captando as atenções do então director da revista Vogue e de Christian Dior.No mesmo ano em que é lançada a "Rive Gauche", Yves Saint Laurent dá a conhecer ao mundo, na colecção de Outono/Inverno, o "smoking" feminino, o fato que no início do século os homens usavam para passarem à sala de fumo interdita à mulher. Pegar nesta vestimenta das soirées masculinas e transformá-la num fato que simboliza a feminilidade livre e sensual foi uma aposta ousadíssima. É preciso ser-se o maior entre os grandes para se ser bem sucedido ao revolucionar de tal forma bases tão clássicas. É preciso possuir um sentido de modernismo absoluto para se conseguir impôr uma nova distinção em ruptura com o esquema de convenções estabelecidas. Yves Saint Laurent fê-lo com audácia e magia.Ao longo de mais de quarenta anos de criação, ele foi inúmeras vezes o primeiro a ousar. Ele foi dos primeiros a jogar com o visual andrógino, captando os sinais precursores da moda unisexo. Foi o primeiro a substituir as chinelas pelas botas de cano alto até à coxa. Foi o primeiro a vestir as mulheres com transparências: as primeiras blusas de musselinas transparentes, a deixarem ver os seios por baixo dos tecidos, surgem em 1968, e os vestidos transparentes logo no ano seguinte. Foi o primeiro, em 1996, a mostrar uma colecção de alta costura em tempo real na internet. De uma coisa apenas se arrepende: "Já o disse imensas vezes. Só tenho pena de não ter inventado os jeans. Têm expressão, modéstia, sedução, simplicidade - tudo aquilo que desejo nas minhas roupas".Yves Saint Laurent teve, acima de tudo, a ousadia - e esse é que foi o verdadeiro escândalo - de enaltecer o corpo, de substituir o conceito de elegância pelo da sedução, ateando os fogos do desejo num universo onde até então apenas importavam a decência e a respeitabilidade. Aliás, disse-o sempre: "A beleza não tem interesse nenhum. O que conta é a sedução, o impacto. O que se sente".Muito criticado mas também tremendamente louvado, Yves Saint Laurent sucumbia à exaustão física e emocional a seguir a cada um dos seus triunfantes desfiles, dos quais recuperava - em cada vez mais longos retiros - na sua casa de Marraquexe. O companheiro, Pierre Bergé, dizia que ele "nascera com uma depressão nervosa congénita"; o escritor japonês Mishima chamava-lhe "criança com nervos de aço".Do preto, Yves Saint Laurent, faz uma cor; cria uma espécie de camaleão capaz de atravessar o dia e a noite, de percorrer tanto a Primavera como o Inverno com a mesma força. Daquele preto reservado às cerimónias ele constrói um clássico do quotidiano: "Uma mulher feliz é uma mulher de saia preta, com um pulover preto, meias pretas, uma jóia de fantasia e um homem que a ame ao lado". Mas ele é também o costureiro da luz, aquele em que os rosas - "Toréro", "Magenta", "Amour", "Aurora"... - vibram e cintilam sobre as peles nuas, transformando as suas mulheres em heroínas. Ao negro que simplifica, condensa, purifica, opõem-se, nas suas criações, a cor de todas as cores posadas nos seus vestidos das mil-e-uma-noites como se se tratassem de encantamentos e feitiços.Desde 1959, ainda na casa Dior, Yves Saint Laurent celebra os pintores nas suas colecções. Mas é, sem dúvida, a colecção inspirada nas obras geométricas de Piet Mondrian, de 1965, e os seus vestidos como "coisas móveis no espaço", que se mostra como o prelúdio de uma nova aventura que fez de Yves Saint Laurent o "beatle da rue Spontini". Verdadeira revolução pela sua linha direita e simplicidade das cores, "Mondrian" teria como sequência lógica, logo no ano seguinte, a colecção "Pop'Art", inspirada nos trabalhos de Andy Warhol e Tom Wesselman.Já nos anos 70, as referências à pintura tornam-se também num refúgio, na forma ideal, no território sagrado de todos os alquimistas, onde a dor se transforma em beleza. Yves Saint Laurent torna-se ele próprio numa espécie de ícone, rodeado por uma muralha de ouro e silêncio. Da colecção "Opéra Ballets Russes", de 1976, à colecção "Picasso", em 1979, a sua vertigem pela arte não cessa nem por um momento, ali, na moda, no mundo do efémero, do transitório, a desafiar a história e os seus mestres de arte.Mas mais do que uma provocação, estas criações - assim como as que se inspiraram nas obras de Matisse (1981), e as que foram inspirar-se nos lírios-silvestres e nos girassóis de Van Gogh (1988) - eram um tributo: Yves Saint Laurent é um devoto coleccionador de arte, e um apaixonado pela ópera e pelo teatro (criou figurinos para "Cyrano de Bergerac" e para "A Águia de Duas Cabeças).E, ao mesmo tempo, estas colecções expressavam a tentação de Yves Saint Laurent de seguir o seu tempo e ao mesmo tempo pô-lo em suspenso. Ele foi o único capaz da ousadia de o fazer e de o dizer: "Inventei o seu passado, ofereci-lhe o seu futuro, e isso perdurará muito para além da minha morte", afirmaria a propósito da mulher moderna.Todo e cada fato de calça e casaco que é desenhado para a mulher deve a sua existência a Yves Saint Laurent. Antes dele era um escândalo que uma mulher vestisse calças. Hoje em dia qual a mulher com um mínimo de sofisticação que não possui um fato de calça-casaco?"Ele pôs as calças nos guarda-roupas das mulheres e tornou a nossa vida mais fácil", afirmava Paloma Picasso, uma adepta fiel do calça-casaco apresentado pela primeira vez por Yves Saint Laurent na colecção de 1967. Bergé ia mais longe ainda: "Chanel deu liberdade ao corpo da mulher e Saint Laurent deu poder à mulher com as roupas de homem".A criação calça-casaco para mulher - que as celebridades logo abençoaram, como Bianca Jagger que casou envergando um conjunto branco de calça-casaco - foi recebida, claro, com ohs! de espanto e buhs! escandalizados. Uma mulher norte-americana viu mesmo ser-lhe recusada a entrada num exclusivo restaurante nova-iorquino, em 1968, por ter vestido um dos conjuntos de túnica e calça em jersey de Yves Saint Laurent. Perante a recusa do "maître de salle" em deixá-la entrar, a mulher vira as costas, retira-se durante alguns minutos e regressa depois, envergando já apenas a túnica, agora transformada em mini-vestido, sendo-lhe então concedida a entrada no restaurante.Atento a todas os pormenores é ainda em 1964 que Saint Laurent lança o seu primeiro perfume - "Y" - para mulheres. Outros se lhe seguem: "Rive Gauche" e "YSL pour Homme", em 1971, este último com um anúncio publicitário para o qual Yves Saint Laurent se faz fotografar nu por JeanLoup Sieff; o polémico "Opium" em 1977; "Jazz" em 1978; "Kouros" em 1981; "Paris" em 1983 e uma década depois "Champagne" (mais tarde rebaptizado "Ivresse"); "Baby Doll" em 1999 e, no ano passado, "Nu". De todos nenhum fez agitar as águas como "Opium", cuja campanha publicitária protagonizada por Jerry Hall expressava o estilo de vida de sexo, drogas e rock'n'roll dos frequentadores habituais da então recentemente inaugurada discoteca Studio 54, em Manhattan. Era também uma confissão implícita de Yves Saint Laurent, na altura mergulhado numa vertigem de depressões, drogas e tranquilizantes. A designação do perfume, e a estratégia gráfica publicitária que sempre o acompanha continuam a gerar escândalo, mas as embalagens vendem-se aos milhões."Hediondo", foi o veredicto do Herald Tribune, "Yves Saint em colapso", o da revista Time, nas críticas à colecção de 1971 de Yves Saint Laurent: uma colecção de roupas inspirada nos anos 40, com turbantes à Carmen Miranda à mistura, e cuja fonte de inspiração ainda hoje permanece em discussão. "As estrelas dos filmes de Hollywood", terá afirmado Yves Saint Laurent nos bastidores da passagem; "um vestido dos anos 40, comprado num mercado de rua, e que usei numa festa foi a fonte de inspiração", diria Paloma Picasso; "a colecção 'Anos 40' sou eu", garantiria Lucienne Saint Laurent, a sofisticada mãe de Yves que gostava de se vestir de forma "coquette" quando ele era criança.Entre as peças mais famosas desta colecção estava o vestido preto de costas desnudas - vistas à transparência da renda - com o qual a modelo Marina Schiano posou, de costas, para uma imagem que passou a ditar novas normas na fotografia de moda. O arrojo da colecção foi recebido com violentas vaias dos críticos, mas também de muitos clientes. Ironicamente foi também uma das colecções de Yves Saint Laurent com maior êxito comercial.E, 25 anos depois, outros críticos e outros clientes - os mesmos críticos e os mesmos clientes também? - mudaram o veredicto para um estrondoso "Bravo!", quando Yves Saint Laurent levou para o palco da colecção de 1996 uma reinterpretação daquilo que fizera em 1971. Ao som de swings dos anos 40, reviveram-se os lábios cor de carmim, os penteados à Victory Roll, os sapatos de plataforma, os vestidos de motivos florais vaporosamente colados ao corpo, vestidos ornados com penas, e uma noiva de verde, ouro e branco, coberta de heras e lírios como se fosse uma princesa pré-rafaelita. Mas a mais graciosa lição de história da moda dada neste desfile de 1996 foi, sem dúvida, a da recriação do belíssimo vestido preto com um enorme laço atrás, imortalizado antes numa fotografia de Catherine Deneuve (a actriz e musa que ele vestiu no ecrã - em "Belle de Jour" - e na vida).Toda a aventura de Yves Saint Laurent esteve desde cedo e permanece fiel ao mesmo amuleto: o coração. Em cada colecção, depois daquela primeira YSL de 1962, uma das manequins desfila sempre com um coração; coração que se encontra também em variadíssimas criações de Yves Saint Laurent, nas roupas, mas também nos acessórios e, bem recentemente, em dois selos criados para os correios franceses, um dos quais decalcado da famosa colecção "Pop'Art" dos anos 70. Yves Saint Laurent declinou o coração de todas as formas: em caixinhas de pó-de-arroz, em jóias, em malas de mão. Fê-lo com todas as cores: em rubis, em safiras, em esmeraldas, em ametistas, em cristais. Pôs-lo nos vestidos, nos lenços de seda, nos tecidos. O coração é o seu fétiche, o amor o seu lema: "O mais belo ornamento de um homem ou uma mulher é o amor."Avesso às multidões, Yves Saint Laurent - que naquele primeiro desfile de 1958 se "escondeu" por detrás de um balcão, protegendo-se dos fotógrafos e fãs - é um dos costureiros que mais honrarias já recebeu. O seu nome, sinónimo do marketing internacional da moda francesa, entrou na Enciclopédia Larousse em 1983. E, nesse mesmo ano, o Museu Metropolitan de Nova Iorque consagra-lhe uma exposição retrospectiva, a mais grandiosa jamais dedicada a um costureiro. Com esta "Yves Saint Laurent: 25 anos de criação", ele tornou-se o primeiro costureiro vivo a ver o seu trabalho exposto num museu. A sua própria colecção privada - e ele foi o primeiro costureiro a construir a sua própria colecção privada - está guardada na La Villette, nos subúrbios de Paris: cinco mil vestidos, dois mil pares de sapatos e mais de dez mil peças de joalharia repousam aqui, neste museu privado de Yves Saint Laurent, cujos arquivos pouco diferem de uma qualquer outra lição de história social sobre a segunda metade do século XX.A 12 de Julho de 1998, na final do Campeonato do Mundo de Futebol, 300 manequins desfilavam no Estádio de França, em Saint-Denis, apresentando uma retrospectiva dos quarenta anos de criação do costureiro. O desfile custou para cima de quatro milhões de dólares mas foi, certamente, o maior "blockbuster" de todos os desfiles de moda: com 80 mil espectadores no estádio e 170 televisões do mundo inteiro a transmitir o evento, a sua audiência ascendeu aos mil milhões. Por mais estranha que a combinação possa ter parecido - 300 modelos a mostrar roupa de mulher perante uma assistência de adeptos do futebol - este desfile foi mais um exemplo daquilo que Yves Saint Laurent vinha a fazer nos últimos 40 anos: aproximar o masculino e o feminino, a "alta"-cultura e a cultura popular.