Goa e o general Vassalo e Silva

Li com toda a atenção o artigo do arquitecto Nuno Vassalo e Silva sobre seu avô, o general Manuel Vassalo e Silva, último governador do Estado Português da Índia - Goa, para abreviar. Passaram agora os 40 anos da invasão indiana e, talvez por isso, veio a terreiro o sr. arquitecto exaltar a figura de seu avô. Só lhe fica bem. O pior é que o artigo não se limita à recordação saudosa que o neto terá de seu avô e entra por terrenos ainda resvaladiços, principalmente porque pouco estudados, resultando numa tentativa de desculpabilização do militar, e é a acção militar do general, não a sua figura humana, que é preciso colocar, sob o ponto de vista da História, nos seus devidos termos. Haverá que fazer três perguntas, muitos simples mas de respostas extremamente complexas:1) O general podia ou não podia resistir? 2) O general disse a Lisboa que ia render-se por falta de condições de resistência? 3) O general devia ou não devia resistir? Vamos aos porquês.1) O general não tinha quaisquer condições para resistir. Por culpa, em primeiro lugar, do Governo central. As forças militares estacionadas em Goa, Damão e Diu passaram em 1960 de 12 mil para 3 mil homens. O mais importante não era isso - pois, como muito bem se sabe, a União Indiana podia sempre multiplicar por dez os seus efectivos relativamente aos portugueses. O importante era não existir um plano de defesa para esses 3 mil homens, plano que nunca foi feito, pois o próprio Salazar nunca o autorizou. Por quê? Talvez por motivos financeiros, talvez pela convicção de que nada adiantaria ter muita gente em tão exíguo território, talvez, principalmente, por estar convencido de que a invasão não se daria (o próprio embaixador dos Estados Unidos em Nova Deli, Galbraight, ainda na véspera mandava um telegrama para Washington manifestando-se convencido de que Nehru não ousaria avançar). Em Janeiro de 1960, o ministro da Presidência, Pedro Theotónio Pereira, em visita oficial a Goa, afirmou num posto de fronteira, perante várias dezenas de oficiais: "Meus senhores, o problema de Goa está resolvido. O que é preciso agora é desenvolver esta parcela de Portugal." O espírito era este (e permitiu a elaboração do plano de melhoramentos para o quadriénio 1959-1962, em que se insere o resgate, em Março de 1961, do Caminho de Ferro de Mormugão, "valiosíssima contribuição para a economia do Estado da Índia", nas palavra do diploma publicado no "Diário do Governo". Fosse como fosse, o general, como comandante-chefe, sabia que não tinha meios para fazer frente a uma invasão. Segundo José Freire Antunes - que não indica a fonte -, "solicitou várias vezes um aumento dos efectivos e dos meios materiais". Não os obteve, como se sabe. Então que fez?2) A resposta óbvia é: demitiu-se. Demitiu-se? Nada disso. A mim próprio afirmou, em Janeiro de 1960, numa entrevista que me concedeu no Palácio do Hidalcão: "Quando para aqui vim, o senhor presidente do Conselho disse-me: Vá, senhor brigadeiro, vá e se for necessário fique. E nós cá estamos." Não faltam outras afirmações bélicas já bem próximo da invasão. Por exemplo: em 10 de Dezembro de 1961, numa entrevista pelo telefone ao "Diário Popular", de Lisboa, o chefe de gabinete de Vassalo e Silva, capitão Carvalho Figueira, afirmava: "O moral é excelente em todo o território; civis e militares estão estreitamente unidos para o que der e vier. Nós mantemo-nos preparados para tudo. Para tudo!" No dia 13, o "Diário da Noite", de Pangim, publicava uma nota oficiosa do Governo-Geral, na qual se anunciava a decisão de se evacuar mulheres e crianças, "para que a actuação das forças armadas encarregadas da defesa do território se possa fazer com a maior liberdade possível de movimentos, como convém numa luta que deve revestir-se da maior dureza". Por outro lado, num artigo publicado no jornal goês "O Heraldo" em 18 de Janeiro de 1975, o advogado Bruto da Costa contou que o governador-geral, "entrevistado pelos jornalistas" goeses, afirmara: "Lutaremos com todas as forças ao nosso dispor e com a consciência clara de uma desproporção numérica, recordando a célebre frase de Francisco I - 'tudo podemos perder, excepto a honra '- e esta honra é Goa continuar portuguesa." Era a mesma ideia transmitida ao prof. Adriano Moreira no telefonema que este lhe fez do gabinete de Salazar em 17 de Dezembro de 1961 e que o embaixador Franco Nogueira relata: "Estamos aqui sobre um vulcão, senhor ministro. Tenham o Governo e V. Exa. a certeza, porém, de que tudo se pode perder menos a honra de Portugal."3) Perante tudo o que ficou para trás, pergunta-se: devia ou não devia o governador-geral resistir? A resposta só pode ser afirmativa e recorde-se que só em Goa não se combateu. Em Damão e em Diu, os militares portugueses deram batalha até onde puderam e renderam-se com honra. A Marinha bateu-se denodadamente. Oliveira e Carmo sacrificou a vida. Cunha Aragão, o comandante do "Afonso de Albuquerque", um velho aviso cujos canhões não tinham sequer alcance para incomodar os navios indianos, reuniu os seus oficiais para os informar de que ia levantar ferro e dar batalha, mas não sob a égide de Salazar, cujo retrato atirou pela borda fora. A História não pediria tanto a Vassalo e Silva, mas o general talvez também não precisasse de ir dizer ao "Século Ilustrado" que ao celebrérrimo telegrama de Salazar pedindo uma resistência de oito dias e o sacrifício de todos se fosse necessário - pedido que só fica mal a Salazar - respondera "que não pensasse nisso, só por milagre"; e acrescentou: "usei o termo milagre". Isto só fica mal a Vassalo e Silva, pois não há rasto de tal telegrama, que, aliás, contraria tudo o que ele disse até ao dia da invasão e nunca desmentiu. Considera o arquitecto Vassalo e Silva que a História já fez o julgamento de seu avô. Creio que se está muito longe disso. Até porque faltam ainda muitos elementos. Para não falar dos inexplorados arquivos indianos, recordo os depoimentos dos militares que a invasão encontrou em Goa - cuja leitura, em 1992, a 30 anos da invasão, me foi recusada pelas chefias militares (embora, ao que parece, já seja possível), bem como o caso de dois telegramas enviados de Carachi pela Embaixada de Portugal, em fins de Dezembro de 1961, com os depoimentos de um jornalista brasileiro, Leopoldo de Melo, do "Diário Carioca", e de um fotógrafo holandês, Van Cam, da agência UPI, que ainda não foram dados a conhecer pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal (MNE). Esses telegramas não se encontram publicados nos "Vinte Anos de Defesa do Estado da Índia" por terem sido então considerados inconvenientes para o prestígio do Exército que se batia em África. Em 1986 solicitei ao secretário-geral do MNE autorização para os publicar mas foi-me respondido que a transcrição só poderia ser parcial e mesmo assim só publicável depois de apreciado o texto pelo ministério. A censura em todo o seu esplendor. E por quê? Porque esses telegramas - se a memória não me falha - descrevem cruamente, e a quente, o que foi o comportamento do exército em Goa. O mesmo exército que se bateu em Damão e em Diu. Donde viria a diferença? Por fim, um esclarecimento ao arquitecto Vassalo e Silva: seu avô não foi detido com sua avó. A senhora D. Maria Fernanda Vassalo e Silva, que regressou a Portugal a 31 de Dezembro de 1961, esteve primeiro num convento em Caranzalem e depois refugiou-se em casa do secretário-geral de Goa, o dr. Abel Colaço, que não informou os indianos e por isso bastos aborrecimentos teve com eles. Como depois os teve em Portugal por causa da mania persecutória do Governo de Lisboa. Isto, porém, é outra história.*diplomata reformado