Ithaka pela estrada fora

Darin Pappas é de Los Angeles, viveu em Lisboa, passou uma temporada em África. Para todos os efeitos, podia ser português. Agora, está de regresso com o terceiro álbum dos Ithaka, "Somewhere South Of Somalia".

Começaram por ser os Ithaka, um projecto luso-americano que assinou um dos discos mais interessantes do hip-hop português, "Flowers And The Colour Of Paint". Depois, cada um seguiu o seu caminho. Pedro Passos dedicou-se à música de dança em inúmeros projectos materializados no acervo das editoras Lupeca e Nylon. Darin Pappas seguiu viagem. Em todos os sentidos. Manteve o hip-hop no horizonte e fez-se à estrada. Agora, de regresso a Los Angeles, base de operações estabelecida provisoriamente, lançou o terceiro capítulo da saga Ithaka. Chama-se "Somewhere South of Somalia". É um disco de hip-hop "on the road". É um álbum de viagens. Como quase tudo, também começou em África. Mas os seus limites geográficos estendem-se às fronteiras das memórias, à necessidade atávica que o hip-hop e os seus intérpretes têm de intervir e denunciar e contar histórias. Depois de Lisboa e Nairobi, fomos encontrar Darin Pappas a oito horas de distância, na capital da Califórnia. Não falámos de 'jet lag', nem invocámos Pessoa. Pensámos em Kerouac, depois na tridimensionalidade artística do nosso interlocutor. Misturámos tudo, de forma bastante eloquente emoldurada em tom filosófico, diga-se de passagem, e tentámos obter uma foto tipo-passe do conjunto. "As esculturas, as fotografias e a música estão intimamente ligadas, fazem parte do processo de contar uma história. No fundo, é tudo a mesma energia. A música é a coisa mais importante para mim, mas continuo a fazer todas as outras. Com isso mantenho-me equilibrado. Posso estar uma semana a fazer música, depois necessito de parar, não para beber um mai tai e apanhar um escaldão, mas para fazer uma escultura. É assim que tenho vivido. Mudar de um projecto para outro. O meu estilo de vida é esse, viajar. Todo o meu trabalho artístico e a música são uma espécie de derivados disso, da minha experiência de viagens. A minha inspiração vem toda daí, do facto de andar na estrada. Não tem que ser qualquer sítio distante, mas colocarmo-nos em novas situações, implica mudanças, adaptação e um conhecimento maior de nós próprios."Abrir o mapa. Fechar os olhos, lançar os dados, escolher. Algures, a sul da Somália. Não foi assim, mas podia ter sido. Tendo em conta o peso da herança afro (e até da palavra enquanto mero prefixo) na cultura americana, e em qualquer músico que se preze, esse parece ser um destino melhor do que outro qualquer. Curiosamente, há poucos dias, os Naughty By Nature acabaram de despir a pele de embaixadores e terminaram uma pequena digressão com concertos em Lagos, Ibadon e Benin. O ano passado estiveram na África do Sul e já garantiram o regresso à "motherland" em 2002, com actuações ao vivo no Gana, Costa do Marfim e Senegal. Objectivo: divulgar e implementar o hip-hop. Haverá aqui alguma relação ? "Não estive lá a tentar importar qualquer tipo de cultura pop. Fui para descansar, observar e assentar ideias. É um sítio onde eu queria ir já há muito tempo. Uma das razões, é o facto de África ser o genuíno local de nascimento do hip-hop. Tinha alguns contactos em Nairobi mas não foi fácil. É um sítio complicado para apenas aparecer por lá, mas penso que é assim em toda África." Mas há outras ironias do destino. "Agora que o fundamentalismo islâmico ocupa as atenções dos media generalistas, é estranho. Estive lá antes do ataque à embaixada ameriana em Nairobi, mas falava-se muito nas ruas de Osama Bin Laden, por causa das coisas que aconteceram na Somália em 1993. Escolhi o título do disco a partir daí. É uma reacção/alusão á falta de conhecimento geográfico que os americanos e as pessoas em geral têm do mundo, normalmente só conhecem um sítio depois de lá ter havido uma guerra. Se perguntarmos a alguém onde é que fica Zanzibar, Tanzania, Quénia, a melhor resposta que se consegue é 'somewhere south of Somalia', e conhecem a Somália porque apareceu nas notícias, porque as pessoas morrem publicamente lá." Poderia chamar-se "Somewhere over the rainbow"? Não. O disco fala por si. Da estranheza ocidental, ou do choque de civilizações; das reminiscências colonialistas e da prepotência do branco rico; dos abusos, da guerra, das doenças, das pobrezas e das riquezas. Reflecte um quotidiano feito de simplicidade, o deslumbramento com a natureza e as pessoas, e o ambiente musical envolvente. "Penso que quando se está longe de qualquer ambiente urbano, e quando muitos dos sítios não têm electricidade e coisas do género, a música vem mais da natureza. Não se está a pensar no tipo de música que se quer fazer ou ouvir, porque a música vem da terra, das conversas, dos barulhos." Darin Pappas acrescenta que as suas manobras musicais em terras africanas foram bastante esporádicas e pouco relevantes. Lembra-se que, na altura, a coisa mais interessante que estava a acontecer era uma espécie de movimento de reagge misturado com 'storytelling', aparentado com o rap, originário de Mombassa. Havia um grupo chamado Mushrooms, mas nem sequer guardou uma k7 pirata para mais tarde recordar. Recentemente, tem andado a ouvir "Supa Sista" de Ursula Rucker - "as letras são excelentes"-, algum dub/reagge e muito hip-hop, "porque tem saído muito hip-hop bom agora". No contexto actual, em que o hip-hop americano está em fase de mutação e, de facto, têm surgido várias lufadas de ar fresco dentro do género - e também em operações de fusão com a soul, o r'n'b e outras mestiçagens menos previsíveis -, Pappas está confiante. "Penso que as pessoas estão prontas para uma mudança. Já atravessámos uma longa era, cerca de 10 anos, de gangsters e 'bitches', as pessoas estão interessadas em descobrir e fazer coisas diferentes, e isso já está a acontecer no 'underground'. O meu disco saiu agora nos Estados Unidos, a resposta tem sido positiva e ao vivo as coisas têm funcionado bem. Toco com baixista, baterista, teclas, guitarra e uma rapariga a cantar e é 'cool'. Esperamos, brevemente, poder levar este espectáculo a Portugal. Não estou preso a L.A. e espero voltar em breve a Lisboa. É um sítio onde me senti em casa."Antes de aproveitar a deixa para abrir o álbum de memórias, quisémos saber como é que tinha acontecido a contribuição com uma canção para o filme "Assassinos Substitutos", um "blockbuster" com Mira Sorvino e Chow Yung Fat. "Mandei alguns CDs aqui para L.A. e alguns foram parar às mãos do realizador, o Antoine Fuqua, que era amigo de um amigo de um amigo... (como na canção "Snakes in the rafters"). Ele gostou do 'Escape from the city of angels" porque a canção se adequava bem ao tema do filme. Foi interessante porque de certa forma o cinema funciona como um meio fortíssimo de distribuição de música internacionalmente. E foi uma loucura, recebi milhares de e-mails no meu site de mp3, de pessoas de todas as partes do mundo, dos sítios mais estranhos, a tentarem arranjar a música."Como diria Jorge Palma, "Ai Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera...". "Estive em Portugal durante seis anos, e foi um dos locais onde me descobri como artista. Sempre fiz arte durante toda a minha vida, mas foi em Portugal que dei um passo gigantescto para me conhecer e descobrir. Antes de ir para aí não fazia música. Aconteceu tudo por acaso. Tive a possibilidade de participar num programa de rádio, uma coisa levou a outras, e a música tornou-se mais um meio de me exprimir. Naquela altura, houve um periodo muito especial. Foi muito agradável, por muitas razões, havia uma energia especial, existia uma espécie de movimento de freestyle, muito cool. Yen Sung, General D., Boss Ac... Já não vou a Portugal há muito tempo, não sei o que está a acontecer agora. Aqui é muito dificil encontrar certos discos. Sinto saudades de tantas coisas daí..."