Primeira longa-metragem da realizadora estreia hoje

O rasganço de Raquel Freire

O rasganço é a última cerimónia da praxe, quando o estudante já é doutor
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O rasganço é a última cerimónia da praxe, quando o estudante já é doutor DR

"Rasganço", a primeira longa-metragem de Raquel Freire, depois de "Rio Vermelho", a curta-metragem que a apresentou ao mundo do cinema, estreia hoje nas salas portuguesas. Depois deste rasganço, é caso para dizer que Raquel Freire, "já é doutora", que é como quem diz cineasta.

O filme decorre em Coimbra, cidade complexa, que gravita em torno dos estudantes universitários com os seus rituais académicos. Um mundo fechado, dominado pela Associação Académica, pelas praxes e pelos códigos de comportamento. É um universo que não é estranho a Raquel Freire, que aí cursou Direito e foi vice-presidente da Associação Académica. Dessa experiência ficou-lhe, como confessou ao PUBLICO.PT, o "lado filosófico". Cresceu e amadureceu entre "os grandes professores, os grandes mestres e os grandes humanistas". Mas o cinema é outra coisa, é a pulsão, "a irracionalidade perante a racionalidade do Direito".
Do "Rasganço" trespassa um olhar enamorado por Coimbra, uma paixão enorme nas imagens que compõem a cidade, mas também um desejo de libertar um conjunto de críticas face aos poderes instituídos, como é o caso da praxe.
Dias antes da estreia do filme, o Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra, órgão máximo da praxe académica, emitiu uma nota onde manifesta o "seu profundo desagrado" relativamente ao filme de Raquel Freire, considerando que a imagem da academia e dos seus estudantes que transparece no "Rasganço" não podia ser mais falsa. A imagem é a da exclusão, da não admissão de "outsiders" no meio académico, de códigos estritos e não partilhados. O Conselho de Veteranos sublinha a riqueza e a tradição da praxe que afirma não estarem fielmente retratadas no filme.
Perante esta atitude, a realizadora diz que "quando os homens evocam o passado para justificar o presente, é porque, de facto, o presente já não faz sentido". "Penso que são tão conservadores que não conseguem distinguir entre uma obra de ficção e a realidade. E, se enfiaram a carapuça, é mau sinal. O filme é o meu olhar. É um olhar artístico e, como arte, é destrutiva", diz Raquel Freire, acrescentando que a necessidade tão urgente de negar o filme como um retrato é porque os académicos se sentiram visados e espreitaram os seus próprios fantasmas.

Uma crítica escrita a sangue

É nesse tubo de ensaio à parte do resto do mundo que se imiscui um estranho. Edgar (Ricardo Aibéo) é um jovem de fora que chega pela primeira vez a Coimbra. Não pertence a esse mundo e por mais que tente compreendê-lo, Coimbra é um universo que lhe permanece vedado. Como tal, conquista não a cidade, mas as suas mulheres - podiam ser todas, mas são apenas três, de diferentes gerações: Ana Rita (Ana Teresa Carvalhosa), a finalista de Direito, Maria dos Anjos (Paula Marques), a funcionária do albergue, e a doutora Zita (Isabel Ruth), mulher de um reitor. E à noite, entre um estudo cuidado dos Códigos do Direito, transforma-se num estudante que não é, num homem que, com uma capa negra que não pode usar, captura jovens estudantes para as mutilar na mais dura crítica a todo o sistema académico: a Associação, a Universidade, o Saber e o Poder.Relativamente ao processo de rodagem, Raquel Freire caracterizou-o como "um estado de graça" só comparável e superado pela descoberta da sua gravidez durante as filmagens. A maternidade, o estado de gestação, é aliás uma constante até agora na obra da realizadora, desde a curta "Rio Vermelho", em que uma mulher dava à luz nas águas de um rio. Raquel Freire diz que filmar e ser mãe foram uma dupla euforia e que a filmagem de "Rasganço" foi uma festa, uma comunhão entre todos os actores e técnicos que fizeram nascer esta longa-metragem.
A comunhão passa para o espectador pela relação entre as personagens e também no sentir que a "Generala Vermelha" - era assim que chamavam a Raquel Freire na faculdade - está lá sempre à espreita. A cineasta explicou que, apesar de os seus filmes não serem autobiográficos, são muito dela e há bocadinhos de si espalhados por uma série de personagens. É o caso da presidente da Associação Académica, interpretada por Ana Brandão. É uma mulher de armas, determinada, que vive numa República e partilha afectos com outra mulher. Por outras palavras, está à frente da tradição, mas desafia-a em todos os seus códigos. "Há muitas coisas engraçadas que fiz questão de realçar na personagem de Ana Brandão. Quis marcar a traço grosso a luta contra os preconceitos instituídos".
Agora Raquel Freire diz que já é outra pessoa, que já perdeu aquela leveza. Já passou o "Rasganço", o ritual mais canibalesco da praxe, o clímax. Quando o estudante acaba o curso e se torna Doutor, os amigos rasgam-lhe o traje académico com os dentes e as unhas e roubam-lhe a capa, que o jovem doutor tem que recuperar. Raquel Freire já foi submetida ao rasganço, fê-lo ela própria. Agora já é cineasta. Não uma qualquer, mas alguém que tem um mundo para partilhar, pulsões para expurgar e ideias para exprimir.