Crítica

Os Vermelhos Anos

É a hipótese portuguesa daquele género de filmes com "serial killers" à solta na escola, raparigas oferecidas nuas ao altar do martírio, sangue e gritos?

Era apenas provocação... como "Rasganço"...

Há um "outsider" (Ricardo Aibeo) à solta no hierarquizado mundo universitário de Coimbra. É o que todos lhe fazem notar - "estás de fora!", não pertences ao altar académico. Por isso ele vinga-se, conquistando várias mulheres ao mesmo tempo (três, como se dominasse a cidade inteira) e respondendo com uma série de praxes "alternativas": violações, tatuagens desenhadas à faca com cenário de velas em fundo. Em suma, rituais e odor satânico.

Anda um diabo à solta a aterrorizar a escola, portanto. E há sexo no ar - sobretudo metafórico, nos rituais, nas praxes nas capas negras que se rasgam com a boca, que se violam com a boca.

Na verdade, ninguém morre em "Rasganço", e esta é uma das manifestações da deliciosa petulância que se arrisca no tom do filme - parecerá petulante esta vontade de prazer, sim, sobretudo numa cinematografia tão pudica como a portuguesa (mesmo nos filmes de cineastas de gerações mais novas...), que só a espaços tem sido "rasgada", como aconteceu com outras estreias na longa-metragem, caso dos filmes de Cláudia Tomaz ("Noites") ou de João Pedro Rodrigues ("O Fantasma").

Ninguém morre em "Rasganço"; como se os crimes, as mulheres e os seus mundos fossem sonhos sonhados pelos sítios e pelos locais (como tal, bolhas invioláveis; o filme aguenta-se numa espécie de imponderabilidade onírica). Como se o criminoso fosse um aventureiro de capa negra e de BD que alguém invocou ou imaginou em momento de irracionalidade - por exemplo, as próprias vítimas, que saem do trauma, dos rituais de violência, totalmente nuas e abrindo os olhos, como se acordassem de um pesadelo, e, dir-se-ia, como se tivessem ficado saciadas com ele.

"Rasganço" é um filme sobre o desejo de plenitude e de prazer, que se espraia com um deleite sôfrego, como aquele que está no rosto desequilibrado, oferecido e simultaneamente oculto de Ana Teresa Carvalhosa (Ana Rita). É marcado pelo ritmo das sanfonas, vai atrás de pulsões, deixa-se envolver por uma estranheza sedutora. Começa progressivamente a abrir brechas por vários lados, com mudanças de tom e de género (filme de faculdade, filme de terror, fantástico...), ou delineando movimentos de câmara que suspendem a acção e se elevam para abraçar Coimbra de forma totalitária (de forma bem mais "vivida", aliás, do que o abraço de Paulo Rocha a Lisboa em "A Raiz do Coração", filme em que Raquel colaborou no argumento).

Raquel Freire, que será também uma cineasta que abraça as suas intuições com o risco de se estatelar com elas no chão, terá o gosto pelos gestos e pelas cores da tragédia shakespeareana, pela vertigem do poder e pela vertigem da queda (é o que ela diz na entrevista que publicamos nestas páginas, isso está também no filme, e é natural que alguém se irrite com esse desejo de desmesura). Mas acaba, afinal, por filmar uma história de inocência. "Rasganço" é a memória agridoce dos (seus) "verdes anos". Que foram - mais drama shakespeareano - os seus anos, diz ela, como Generala Vermelha, os seus anos de revolução e de corrupção.

"Rasganço" é, como nos planos finais dos rostos de prazer das siliciadas, a saudade do sabor do primeiro sangue.