A Inglaterra do Império e as campanhas no Afeganistão

"No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a 'grande vitória do Afeganistão' - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homem fanáticos, batalhadores e hostis. A 'política' portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande império".As apreciações feitas por Eça de Queirós sobre a presença britânica no Afeganistão ao tempo em que era cônsul em terras da rainha Vitória foi publicado, na "Gazeta de Notícias" do Rio de Janeiro, em 1880. Mas há aspectos do seu conteúdo que permanecem tão actuais que, se em lugar de "Inglaterra", se escrevesse hoje o nome dos seus herdeiros, "Estados Unidos da América", o texto poderia bem pertencer a um cronista contemporâneo dos conflitos vividos naquela região.Aliás, na sua crónica, mais tarde publicada na compilação "Cartas de Inglaterra", Eça de Queirós já incluía uma espécie de pós-título que indicava que o texto tratava de "Duas campanhas no Afeganistão copiadas uma da outra".E, em vários passos do seu curto texto, o autor português repete a frase: "Foi assim em 1847, é assim em 1880 [a expedição inglesa terminara no ano anterior, mas Eça situa-a em 1880]".A própria crónica tem início com "esse humorístico lugar-comum do século XVIII: A História é uma velhota que se repete sem cessar".Eça faz uso de toda a sua ironia e interpretação algo sarcástica para abordar uma questão que acaba por ligar à da Irlanda: a necessidade dos impérios alargarem as suas fronteiras, de anexarem ou, pelo menos, debilitarem sempre mais e mais territórios com base em justificações que o autor não leva a sério, como se percebe na linguagem que usa."Em 1847, os ingleses, por uma razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia e outras cousas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão".E em 1847, como em 80, repetirá Eça, que fazem os ingleses quando tomam finalmente "a santa cidade de Cabul", aniquiladas que estão as tribos seculares e desmanteladas que estão as vilas mais poderosas? "Sacodem do serralho um velho emir apavorado, colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes e logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampando à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz".Sem nunca ter posto os pés naquele país, e tendo escrito esta crónica há mais de 120 anos, o autor de "Os Maias" revela um enorme poder de observação e reflexão e, quase, de premonição - ao ter encaixado a dinâmica bélica do Império num contexto sócio-cultural e religioso que a torna numa espécie de jogo que a História se encarrega de reeditar. O autor refere que, tomada a capital afegã, os chefes tribais, "messias indígenas, vão percorrendo o território e, com os grandes nomes de Pátria, de Religião, pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, [...] príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro". "E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês", previa ele que se repetisse o que sucedera em 1847, "aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o".Nestes ciclos de retorno que enuncia, Eça é implacável a descrever as reacções do exército inglês, que se refugia "em alguma das cidades de fronteira, que ora é Gasnat ora Candaar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o viso-rei da Índia, reclamando com furor reforços e chá e açúcar (isto é textual; [...] o inglês sem chá bate-se frouxamente)"."De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parque de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 47, assim é em 1880".Eça descreve por fim a desproporção da "marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens" contra "o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas de modelo das que outrora fizeram fogo em Diu".Todavia, lembra o escritor, "em desfiladeiro e monte, milhares de homens que ou defendiam a pátria ou morriam pela fronteira científica lá ficam, pasto de corvos". "E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota, nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica", escreve com certa frustração, para concluir que se trata das "fortes necessidades de um grande império". E por isso para o autor mais vale "possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de Verão".

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