Cancro assusta bairro em Trajouce

Há cerca de duas semanas, um habitante de Quenena - um bairro de origem clandestina, em Talaíde, próximo do aterro sanitário de Trajouce, Cascais - morreu, vítima de cancro na garganta. Tinha 42 anos e a sua morte alarmou os vizinhos: era o terceiro caso fatal de cancro espaço de três meses. Naquele pequeno conjunto de pouco mais de dez casas duas outras pessoas tinham morrido de cancro em 1998. E outros dois moradores estão, neste momento, doentes. Ou seja, em cerca de 50 habitantes, cinco morreram de cancro nos últimos três anos e dois estão em tratamento.A morte calhou a pessoas de diferentes idades: a mais nova tinha 29 anos e a mais velha 72. Por anteciparem o fim da vida a pessoas ainda jovens, os casos de cancro estão a preocupar os moradores de um bairro que, durante muitos anos, sofreu com a poluição dos lixos ali ao lado.O bairro de Quenena tem uma história algo irónica. Quando as primeiras pessoas foram para lá viver, há várias décadas, a zona era um vale aprazível, por onde corria, limpa, a ribeira da Laje. Em 1977, quando uma dezena de pessoas, algumas já residentes no local, compraram e repartiram um terreno, para aí construírem as suas casas, já os lixos de Cascais eram depositados num buraco a pouco mais de um quilómetro das futuras habitações. Nessa altura, isso não perturbava os moradores, mesmo que os resíduos fossem queimados à noite. Anos depois também o lixo dos concelhos de Oeiras e Sintra passou a ser encaminhado para Trajouce, e a lixeira cresceu em direcção ao bairro. A vida no vale verdejante transformou-se num inferno, com maus cheiros constantes e águas poluídas a escorrer sobre as hortas junto às casas.Há quatro anos, a lixeira foi selada e substituída por um aterro sanitário, em terrenos adjacentes. No dia da inauguração, o então secretário de Estado do Ambiente - o actual ministro José Sócrates - elogiou o novo aterro, dizendo que se tratava de uma obra "muito exigente, de engenharia complexa" e da qual Portugal se podia orgulhar. Mas logo no primeiro mês de funcionamento a Direcção Regional do Ambiente de Lisboa e Vale do Tejo constatou que não havia nenhuma solução para as águas que passavam pelo lixo depositado. Mais de três anos depois, a estação de tratamento para estes lixiviados ainda não estava a funcionar convenientemente, tendo chegado a parar.Algumas destas deficiências foram já ultrapassadas e a situação do aterro é incomparavelmente melhor do que a da lixeira, que era um simples vazadouro. Os moradores dizem que os maus odores já não se sentem tanto no bairro, embora ainda sejam um problema para as áreas vizinhas. "Em relação ao cheiro, estamos melhor que Talaíde", afirma José Guilhermino Campos, que vive há 29 anos em Quenena. "O pior é a água", acrescenta, referindo-se às escorrências, em dias de chuva, que deixam uma cor avermelhada no chão.Durante muito tempo, os moradores queixaram-se de problemas de garganta, dores de cabeça e inflamações nos olhos. Agora vários levantam a suspeita de que o surgimento de muitos casos de cancro possa ser o resultado cumulativo das condições de vida em Quenena - uma ideia que se cristalizou com a morte mais recente, no princípio do mês.Opinião diferente tem a Associação de Municípios de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra para o Tratamento de Resíduos Sólidos (Amtres), responsável pelo aterro. "Isto é oportunismo eleitoral", afirma o vereador José Eduardo Costa, da Câmara de Oeiras, e que actualmente preside ao conselho de administração da Amtres. O autarca lembra que têm havido negociações com os habitantes para que deixem o local. "Parece-me estranho que estejam tão preocupados com a sua saúde e exijam indemnizações loucas", acrescenta. "Querem quase construir casas na Quinta da Marinha [com o dinheiro]". Um dos moradores admitiu ao PÚBLICO que não sai do bairro se não lhe pagarem 90 mil contos. Outros estão a negociar valores bem mais baixos (ver texto nestas páginas).O problema de Quenena foi parar, como uma batata quente, às mãos da delegada de saúde da Parede, Leonor Murjal. Em Agosto passado, a Câmara de Cascais pediu-lhe um parecer que vinculasse a posição da saúde relativamente à ocupação urbana daquela zona. Leonor Murjal foi ao bairro, depois falou com a Amtres e está agora a elaborar um relatório. A delegada de saúde não tem dúvidas: "Viver ao lado de um aterro sanitário obviamente não faz bem a ninguém". E não esconde que em Quenena "há um problema de saúde pública que já devia ter sido resolvido". Um dos aspectos que a preocupa é o encerramento da velha lixeira: "Quero saber se foram tomadas todas as cautelas para isolar completamente aquele lixo".O que inquieta a delegada de saúde não é apenas o pequeno aglomerado de Quenena, mas toda a envolvente do aterro, onde se encontram urbanizações legais que, na sua opinião, também podem estar a ser afectadas. Leonor Murjal admite a necessidade de se efectuar uma análise mais alargada. "Posso e devo fazer um estudo epidemiológico", declara.Só um estudo detalhado é que poderá, no caso de Quenena, determinar se a mortalidade por cancro registada é anormal e pode ser relacionada com a antiga lixeira ou o actual aterro (ver texto nestas páginas). Enquanto isso, no bairro onde a doença ceifou a vida de três pessoas desde Julho, os moradores, atemorizados, interrogam-se a que porta a morte irá bater da próxima vez.

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