Peter Carey recebe Booker Prize pela segunda vez

O Booker Prize foi atribuído ao romance "True History of The Kelly Gang", do australiano Peter Carey, tornando-o no segundo escritor contemplado por duas vezes, em 33 anos do Booker, depois do sul-africano J.M. Coetzee. O romance épico "Oscar e Lucinda" (1988) - editado pela D. Quixote, que também publicou "Jack Maggs" (1997) - já tinha sido galardoado em 1988 com o Booker, um dos mais famosos prémios literários, atribuído a uma obra de ficção em inglês originária do Reino Unido, Irlanda ou países da Commonwealth, e que faz disparar as vendas de livros em todo o mundo. O anúncio foi feito anteontem à noite, em Londres, e Carey receberá cerca de 36 mil euros (7.200 contos). "Estou um pouco atónito, o meu corpo está carregado de adrenalina. É como se tivesse passado um camião por cima de mim e agora está tudo a acontecer novamente". "Estou muito excitado", afirmou o escritor nascido em 1943, na Austrália, e a residir em Nova Iorque desde 1990. Da obra, galardoada também com o Commonwealth Writer's Prize 2001, Carey disse à BBC: "É sobre o alimento das mentiras e dos silêncios e a história australiana é isso, continuamos a regressar ao passado para o corrigir".Autor de romances, novelas, histórias para crianças e contos - entre os quais "Bliss" (1981), "Illywhacker" (1985) ou "The Tax Inspector" (1991) -, Carey, por vezes comparado a Jorge Luis Borges ou a Gabriel García Márquez, é um escritor que se preocupa com a imagem e identidade dos australianos, desde as primeiras lutas ao desapontamento e vazio do homem contemporâneo. Trabalhou em várias agências de publicidade como "copywriter", viajou pela Europa no final dos anos 60, viveu em Londres, regressando novamente a Melbourne e a Sidney na década seguinte. Aqui escreveu alguns dos doze contos de "The Fat Man in History" (1974) - o livro, com influências de Borges, Beckett ou Kafka, é apenas um conjunto de "histórias sobre o que parecem ser", disse Carey - e dos de "War Crimes" (1979), narrativas acerca do lado negro do capitalismo.O romance galardoado agora com o Booker - cujos direitos foram comprados pela D. Quixote mas que não sairá antes do segundo semestre de 2002 - é uma história narrada cronologicamente na primeira pessoa baseada em Ned Kelly, o mítico "gangster" capturado em Melbourne, em 1880, que assaltava bancos para dar dinheiro aos pobres e nunca atacava mulheres nem crianças, um herói comparado por muitos leitores a Robin Hood ou Jesse James mas para quem o autor olha como um Thomas Jefferson. "Quase tudo o que escrevi está ligado a questões de 'identidade nacional', um projecto aparentemente fora de moda, mas que para mim é uma preocupação moderna alarmante", afirmou um dia Carey.Segundo uma crítica do "The Observer", o livro segue fielmente os factos e há apenas três invenções - a terceira é a voz que Carey dá a Ned e é exactamente aí que a magia começa. "A voz de Ned é o livro e é o que torna o livro maravilhoso. É convincente e continuamente surpreendente, criando novos prazeres a cada página. É simples, directo, coloquial, humorístico, respeitavelmente hipócrita e construído com poesia". Carey usa livremente a pontuação, o que "remete directamente para uma voz que fala". "É uma voz dedicada à honestidade e esta abertura, esta transparência da linguagem, leva-nos directamente a um personagem que é genuinamente um grande herói".O "The Guardian" defendia o escritor dos que o acusavam de ser ventríloquo. "É literatura". "O que Carey nos pede é o que nos anda a pedir há 20 anos: que confiemos no narrador da história tanto quanto na história contada e que não nos preocupemos, enquanto leitores, com o modo como é contada. Desde 'The Fat Man in History', 'Oscar e Lucinda', 'Jack Maggs' e - supremamente - 'Illywhacker', Carey tem falado à margem da sua voz e por detrás da sua mão. Ele balbuceia e sussurra e depois enfrenta o leitor com o olhar troceiro, dizendo: 'O que foi? Em que é que não acredita?'"."Oscar e Lucinda", adaptado para cinema pelo realizador Gillian Armstrong, com Ralph Fiennes e Cate Blanchet nos principais papéis, é uma alegoria ao colonialismo do ponto de vista aborígene que explora a infância das relações brancas entre os dois países, ficcionados, mas repletos de elementos históricos, mitológicos, lendários e linguísticos.Depois de analisar 121 romances, o júri afirmou: "Não há dúvida de que alguns destes livros serão lidos nos próximos anos". A obra de Carey foi escolhida entre as de Ian McEwan - galardoado há três anos com o Booker por "Amsterdão", razão pela qual alguns afirmaram não ter sido atribuído o prémio ao seu último romance, "Atonement" - Andrew Miller, David Mitchell, Rachel Seiffert ou Ali Smith. Quanto à preferência pelo romance de Carey, o júri justificou: "É uma grandiosa história sobre os primeiros colonizadores da Austrália expressa através da voz inesquecível de um homem considerado vilão que vem para representar mais do que ele próprio poderia pensar".