"Cieli di Toscana" é o novo disco de Andrea Bocelli

Numa cerimónia marcada pelo estilo e sumptuosidade, "Cieli di Toscana", o novo álbum do tenor Andrea Bocelli, foi apresentado mundialmente no dia 4 de Outubro, em Veneza. São 14 as canções de um disco caracterizado pela sonoridade pop que invoca e pela linearidade das melodias, susceptíveis de atrair o ouvinte mais céptico em relação ao estilo operático. Porque "Cieli di Toscana", o terceiro álbum pop do tenor, depois de "Romanza" (1997) e de "Sogno" (1999), não tem nada, mas mesmo nada, a ver com o repertório clássico presente em discos anteriores de Bocelli, entre os quais se encontra a interpretação do "Requiem", de Verdi (2001), ou de "La Bohème", de Puccini (2000). Mas Bocelli não tem dúvidas: "é, de longe, o melhor disco que gravei".A Scuola Grande Di San Rocco, um imponente edifício que data do século XVI, foi o local (bem) escolhido para acolher a voz e o álbum de um cantor que, em sete anos de carreira, já vendeu mais de 40 milhões de cópias em cerca de 61 países. O actor italiano Luca Barbareschi foi o anfitrião de uma gigantesca operação de marketing, onde tudo (desde os frescos de Tintoretto da sala grande superior até aos jogos de luz) foi programado ao milímetro para que a timidez de Bocelli passasse despercebida no meio de tanto aparato. O plano resultou em cheio: os convidados aplaudiram entusiasticamente e de pé, quando Bocelli entrou, cantou e saiu do palco. Sem esquecer o inevitável e italianíssimo "bravo".Após o visionamento de um vídeo promocional, onde Andrea Bocelli explicava o conteúdo de alguns temas do disco, bem como o seu processo de produção, o tenor apresentou ao vivo cinco novas canções, entre as quais "L'Incontro", que inclui um poema introductório escrito por Bocelli e declamado por Bono, vocalista dos U2, "Melodramma", o primeiro single a ser extraído do seu mais recente disco, e "E Mi Manchi Tu", canção que ganhou o prémio Bocelli 2001, recentemente criado para consagrar novos compositores. "Si Voltò" foi o único tema a dispensar a parte instrumental gravada (a qual, por vezes, parecia abafar a voz do tenor), para ter direito a acompanhamento de violino e guitarra eléctricos ao vivo. Por fim, Andrea Bocelli sentou-se ao piano para interpretar "Se la Gente Usasse il Cuore". Apesar de um confesso medo do palco, constrangimento que lhe surgiu "tardiamente" e que "tende a aumentar" com a progressão da carreira, a voz e a própria postura de Bocelli são de uma segurança visível ao ouvido mais leigo.O chamado "tenor da Toscânia" alcançou a visibilidade internacional com o tema "Con te Partiro" e sobretudo com o disco "Romanza", que foi cinco vezes platina em Portugal. Desde então, apesar de algumas incursões no mundo do repertório clássico propriamente dito, Bocelli apostou na conjugação entre as linguagens operática e pop. Na conferência de imprensa que se seguiu ao mini-concerto (ver caixa), Andrea Bocelli falou dessa relação entre a música dita clássica e a música pop, presente ao longo de toda a sua carreira. "Não há comparação possível entre ambas", explica. "A música clássica apresenta um padrão específico, ao passo que na música pop há uma necessidade de inventar algo de novo, há uma maior liberdade. Mas isso não significa que seja mais fácil de cantar." O tenor explicou que a acessibilidade da pop lhe dá uma "boa oportunidade para comunicar com públicos diversos sobre as emoções do quotidiano". Questionado pelo PÚBLICO acerca da sua visão pessoal sobre o novo disco de Andrea Bocelli, Jan Van Dijck, managing director da EMI Music Publishing em Portugal, também presente na cerimónia de lançamento, referiu que este álbum lhe parecia bastante melhor que o anterior, "Sogno". "O 'Cieli di Toscana' apresenta uma vertente pop mais assumida, enquanto o 'Sogno' acabava por não conseguir ser nem música clássica nem música pop", explicou.Mas Bocelli não é o primeiro nem o último cantor de formação clássica a enveredar pelos caminhos que conciliam a pop com a ópera, enfim, os êxitos de vendas com o estilo clássico. Luciano Pavarotti, que Bocelli definiu como "mito", foi um dos responsáveis pelo encontro entre o registo operático e a sonoridade pop, de que são provas os inúmeros duetos que fez com nomes conhecidos do universo rock. Também Filipa Giordano ou Alessandro Safina, sem esquecer o "mestre" de Bocelli, Franco Corelli ("um homem deveras tímido, que sacrificou toda a sua vida pela música e a quem eu devo toda a minha carreira"), souberam direccionar o seu talento para as grandes massas. No entanto, Bocelli frisou a sua paixão incondicional pela ópera e desvendou alguns projectos futuros, mais direccionados para o repertório clássico. "Continuo a estudar e a adorar ópera. Estou a trabalhar num álbum de árias antigas com Lorin Maazel e lançarei proximamente 'Il Trovatore' com Zubin Melita", afirmou.