Crítica

O insustentável peso do corpo

Filme de época, sim, mas uma forma convulsa de trabalhar o género, inscrevendo numa história do passado (Inglaterra, final do século XIX) a angústia dos corpos de hoje. Por exemplo, o de Summer Phoenix, que exibe luz negra - apesar das hipóteses de claridades luminosas, de verão, a que o nome se abre. A "sua" Esther é uma pedra, um "mineral", reservatório fechado ao mundo, que ainda não encontrou as suas emoções. O filme mostra-nos a sua educação sentimental através da aprendizagem como actriz - não que ela sinta qualquer vocação especial; mas quando entrou pela primeira vez num teatro, revelou-se nela algo mais do que a curiosidade enfastiada que sente em relação ao que os outros chamam de "realidade". Arnaud Desplechin defeniu esta sua terceira longa-metragem (depois de "La Sentinelle" e "Comment je me suis Disputé...") como uma obra de "suspense espiritual". Faz sentido, como "suspensão": o insustentável peso do corpo durante a angustiada espera da manifestação de qualquer coisa a que se pode chamar "espiritualidade".