O Fim da História, disse?

A notícia chegou em final de jornal televisivo. Incrédulos, víamos a torre norte do World Trade Center a arder: como era possível que um avião se tivesse despenhado aí? Estávamos a ver "em directo", mas dir-se-ia que também em "diferido", apenas as consequências e não o evento em si. Tudo mudou quando no ecrã vimos um segundo avião ir de um encontro à torre sul. Era sem dúvida um atentado coordenado e não um inimaginável acidente, implicando uma esfera política mas também um imaginário e um modo de recepção.

Quem perpretou uma operação desta envergadura deverá ter previsto também o "choque mediático" que iria suscitar. Horas mais tarde, quando também em directo surgiram imagens de confrontos em Cabul, para além das interrogações e perplexidades (como, seria já uma resposta?), a visão era como que de uma ordem já "institucionalizada", qual "remake" do Golfo, essa guerra que todos vimos e que afinal foi como poucas opaca.

Foi uma visão que ainda mais veio acentuar o absoluto ineditismo de tudo aquilo em que nas horas anteriores tínhamos comparticipado enquanto telespectadores. Todos somos por certo suficientemente americanizados para que o inaudito espectáculo de 11 de Setembro não se tivesse confrontado com as memórias de um imaginário americano sobretudo cinematográfico. O paradigma dos filmes-catástrofe dos anos 70 não se chamava "A Torre do Inferno"? Nova Iorque, Manhattan em particular, não foi, e tem continuado a ser, cenário previlegiado das ficções apocalípticas ou de invasão de alienígenas, da pacotilha patrioteira de "O Dia da Independência" ao recente futurismo digital de "Final Fantasy"? Seria o ataque um "remake" de "Pearl Harbour", o acontecimento histórico mas também o filme?

Era fácil pensar que os eventos se sucediam "como que num filme". Só que ineludivelmente a banalidade do imaginário desses e de tantos outros filmes ainda mais era posto em relevo pelo que víamos e também pelo que não víamos, sabendo ser propriamente inimaginável: a extensão da realidade superava qualquer ficção e, ao contrário dos filmes, estava vedado às câmaras o acesso aos interiores, os das Twin Towers ou do Pentágono. Este desfasamento do imaginário implica outros códigos de percepção, políticos e teóricos. "O Fim da História", a receita neo-hegeliana de Francis Fukuyama, ou a prometida "nova ordem mundial" de Bush pai finaram-se, perante a evidência de um tipo novo de conflito, para mais de dimensão certamente global.

"O Choque de Civilizações", profetizado por Samuel Huttington, torna-se perspectiva ainda mais inquietante: as pistas logo apontadas evocam o cenário do confronto entre as civilizações ocidental-judaico-cristã e islâmica. Para mais, Nova Iorque, e até mais concretamente Manhattan, não é o paradigma de um nosso modo de viver, urbano e ocidental?

Em Abril de 1995, tinha chegado há poucas horas em Nova Iorque quando se deu o atentado de Oklahoma. Também então a pista islâmica foi logo apontada (para mais, havendo o precedente do primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993) e as comunidades e indivíduos muçulmanos hostilizadas durante dias, antes dos indícios se encaminharam para Timothy McVeigh e a extrema-direira americana. A memória desses dias foi-me precaução suficiente para a vivência destes outros, agora.

E mesmo que, como tudo vai parecendo indicar, o fundamentalismo islâmico possa mesmo ter sido uma componente (mas resta saber se exclusiva) da acção de 11 de Setembro, não será o cenário do choque das civilizações por demais esquemático para compreender as sementes de um terror inominável? No meu pessoal imaginário, volto ainda a Nova Iorque, a mais fabulosa das cidades. A efervescência que lhe é apanágio, não se fundamenta ela num tecido multicultural, um mosaico de tantos povos, anglo-saxónicos ou judeus, chineses ou italianos, com as suas especifidades e também religiões? Não supõe isso uma ordem de valores?

Ninguém esperará que não haja uma resposta americana - houve uma agressão. A solidariedade não se pode negar. Mas a constatável falência de imaginários americanos, cinematográficos, vagamente literários e mesmo teóricos, define também a extensão da ferida simbólica e essa é também uma questão para as acções políticas.Pearl Harbour - II ? A clássica lógica de guerra, de ataque e de resposta, os próprios conceitos de segurança e defesa não são modelos a prosseguir perante a extensão do terror inimaginável. E muito menos os fundamentos da nossa cultura podem ser sacrificados numa lógica de retaliação cega e intolerância.

Não basta olhar para a América, podemos começar à nossa volta. Não há já quem à carteira das habituais falsificações históricas tenho ido buscar a ladaínha da corresponsabilidade nos actos de terror dos que são solidários com os palestinianos ou buscam alternativas à globalização vigente?