Pearl Harbor, O dia em que a guerra entrou em casa dos americanos

Sobre um fundo negro, a letras brancas, o escritor Ian McEwan escrevia ontem, na capa do segundo caderno do diário britânico "The Guardian": "11.09.2001 - o dia em que a terra parou". Entre o que se escreveu sobre Pearl Harbor, podemos encontrar quase exactamente as mesmas palavras. "07.12.1941 - o dia em que o mundo parou", resumiu o escritor Frank Deford num destaque especial da revista "Newsweek", a propósito do 50º aniversário de Pearl Harbor. E explicava porquê: "Foi o princípio da Era do Instante". A primeira vez que a América entrou em estado de choque, a nível nacional - nem foi precisa a Internet e quase não foi precisa a televisão: segundo as estatísticas, apenas 4500 famílias nos EUA tinham aparelhos de TV em 1941.Nesse texto da "Newsweek", Deford sintetiza as razões do sucesso do ataque japonês a Pearl Harbor:a) os americanos estavam mal-preparadosb) os americanos estavam demasiado confiantes.Se juntarmos a estas duas alíneas o incrível falhanço dos serviços secretos, tão discutido no pós-Pearl Harbor como agora, é fácil perceber porque é que a reacção imediata de tantos analistas e comentadores foi a de falar de um Pearl Harbor 2 a propósito dos atentados em Nova Iorque e Washington. Nunca os Estados Unidos tinham sido atacados no seu próprio território antes de Pearl Harbor. Passaram 60 anos. Segunda-feira de manhã foi a segunda vez - e a América voltou a invocar a infâmia referida por Roosevelt na célebre declaração de guerra ao império japonês, a 8 de Dezembro de 1941, o dia depois.Para o americano médio, em Dezembro de 1941 a guerra na Europa era uma coisa do outro lado do Atlântico. Não lhes entrava em casa, a doer. Vibrava-se com o baseball de Joe DiMaggio e o "swing" de Glenn Miller. A Coca-Cola era uma garrafa quase tão voluptuosa como Rita Hayworth. No Havai, na ilha de Oahu, está estacionada a base da marinha norte-americana no Pacífico. 7 de Dezembro é um domingo nublado. Pouco depois das seis da manhã, dois operadores de radar detectam numerosos aviões a caminho. Avisam o comando central, que se mantém despreocupado. Às 7h55 a esquadra japonesa começa a bombardear Pearl Harbor. Afundam couraçados em minutos. Só o Arizona tinha 1177 marinheiros e oficiais a bordo. O comandante da base americana no Pacífio reconhece a evidência e envia o famoso telegrama: "Ataque a Pearl Harbor! Não é um exercício!" Já o código de vitória ecoa entre os japoneses: "Tora!, Tora!, Tora!". Tora quer dizer tigre - o sinal de que o objectivo de surpreender os americanos fora alcançado. E às 8h40 dá-se o segundo ataque. Só muito tempo depois os americanos vieram a saber o número exacto de baixas: 2043. Mais 1178 feridos. E dezenas de couraçados ao fundo e centenas de aviões destruídos. Demorou pouco mais de duas horas a batalha naval. No dia seguinte, num discurso que começava com a célebre frase sobre "o dia que viverá na infâmia", Roosevelt declarou guerra ao Japão. E os rapazes da América começaram a trazê-la para casa, a doer.O trauma de Pearl Harbor foi tão forte e tão prolongado que ainda hoje se especula sobre como puderam os americanos ser assim apanhados de surpresa. As teorias da conspiração são variadas. Churchill e Roosevelt sabiam dos planos japoneses? Só sabia Churchill e não avisou Roosevelt? Roosevelt só estava à procura de um pretexto para entrar na guerra e por isso não procurou acautelar o ataque? O que se tem como certo é que tanto americanos como britânicos tinham informações sobre o ataque que os japoneses estariam a preparar, mas não havia certezas sobre o alvo.A ambição expansionista e militarista do império japonês vinha a crescer desde os anos 20. Por essa altura, criptólogos americanos decifraram códigos japoneses que revelavam a evolução de preparações militares. Na noite de 6 de Dezembro de 1941, Roosevelt terá tido acesso a uma ordem descodificada em que o Japão ordenava à sua embaixada nos EUA que destruísse livros de código. Conta-se que Roosevelt terá dito: "Isto significa guerra. Mas onde?".Em Tóquio crescia a propaganda anti-americana. O espírito do "bushido" - código militar dos samurais - imperava. Até a banda desenhada era bélica. Em 1937, o Norte da China é invadido, pela Manchúria, e começam oito anos de combates com os chineses. Nas vésperas da II Grande Guerra, os Estados Unidos são o único país que, no Pacífico, pode travar a ânsia expansionista do império de Hirohito. Quando a II Guerra rebenta, o Almirante Isoroku Yamamoto assume o comando da marinha japonesa. Viveu vários anos nos Estados Unidos, conhece bem os americanos. Algures entre Janeiro e Março de 1940, começa a conceber um plano que permita afastar os EUA do caminho, na rota triunfante que o império nipónico sonhava cumprir até à Austrália. A 26 de Novembro de 1941, uma imensa frota de submarinos e porta-aviões deixa o Japão, na direcção de sudeste. Param para abastecimento a 4 de Dezembro. No dia seguinte recebem a confirmação do ataque e avançam para velocidade máxima nos mares do Pacífico. 7 será um "bloody sunday" para os Estados Unidos e um retumbante sucesso para os japoneses, a partir daí reduzidos no imaginário americano a um exército de homenzinhos amarelos e traiçoeiros. Mas seis meses depois, em Guadalcanal, os americanos recuperam da humilhação. As bombas em Hiroxima e Nagasaqui foram o fim do Japão militarista, o fim da guerra e o fim de um tempo.