Começou julgamento dos oito estrangeiros detidos no Afeganistão

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O julgamento começou num ambiente de grande discrição Saed Khan/AFP

O chefe do Supremo Tribunal “taliban”, Mawlawi Noor Mohammad Saqib, prometeu a realização de um "processo justo" para os arguidos, depois de esta manhã ter estado reunido com os seus colegas e especialistas na Sharia (a lei islâmica) naquela que pode ser entendida como a primeira fase.O Supremo Tribunal recebeu ontem o "dossier" das mãos da polícia religiosa, que afirma ter descoberto em caso dos arguidos milhares de documentos referentes ao cristianismo, escritos em línguas faladas no Emirado Islâmico do Afeganistão.
"O processo começou hoje. Quanto tempo pode demorar? Não sabemos ainda", afirmou Saqib aos jornalistas presentes no tribunal, situado no centro de Cabul. "Eles estão inocentes até que tenham sido provada a sua culpabilidade. Para o tribunal, são apenas acusados uma vez que ainda não provámos a sua culpabilidade", afirmou.

Arguidos sem advogado

O magistrado explicou que devido ao facto de o processo estar em fase de elaboração, os oito arguidos ainda não foram chamados a comparecer. "Terão todas as oportunidades para se defender e dizer o que têm a dizer. Caso o julguemos necessário, não hesitaremos em chamar durante o processo qualquer um dos acusados", acrescentou Saqib, que se apresentou aos jornalistas ladeado por um grupo de 15 eruditos da lei Islâmica. "Em muitos países, os acusados dispõem de advogados. Não consideramos isso necessário. No entanto se eles não forem capazes de se defenderem não faremos qualquer objecção em que eles recorram a um conselheiro legal", acrescentou o principal juiz dos “taliban”.
Também esta manhã, o ministro dos Negócios Estrangeiros do regime “taliban”, Wakil Ahmed Mutawakel, anunciou que diplomatas e jornalistas poderão acompanhar o desenrolar do processo, o que só se confirmará depois da aprovação de Saqib.
Os oito funcionários estrangeiros (quatro alemães, dois norte-americanos e dois australianos) e os seus 16 colegas afegãos da Shelter Now International, uma ONG especializada na reconstrução de habitações destruídas durante a guerra, foram detidos entre 3 e 5 de Agosto em Cabul.
A Shelter Now International desmentiu já toda e qualquer acusação de práticas de proselitismo, mas o Ministério para a Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício, a autoridade policial religiosa, afirma ter confissões escritas pelas mãos dos detidos.
O ministro da Justiça “taliban”, o “mullah” Nooruddin Turabi, considerado próximo do “mullah” Omar, o líder do regime fundamentalista, declarou hoje que a principal acusação que pende contra os arguidos é a "prática de uma religião abolida".
O regime fundamentalista islâmico dos "estudantes de teologia", que controla 95 por cento do território afegão, não excluiu o uso da pena de morte.
O “mullah” Omar emitiu recentemente dois decretos sancionando o proselitismo religioso, mas até ao momento não está estabelecida em concreto a aplicar a esta prática, que poderá ir da simples expulsão (apenas dos cidadãos estrangeiros) até à pena de morte.