É preciso realçar o papel dos ocidentais na abolição da escravatura

Do século XV a meados do século XIX transportaram-se mais de 11 milhões de escravos negros para as Américas (e também para a Europa, se bem que em muito menor escala). As condições penosas, por vezes lancinantes, em que esse transporte se processou, converteram-no num paradigma de desumanidade. O seu volume total e a sua continuidade ao longo de 400 anos no tempo tornaram-no numa das mais importantes migrações da história humana, pesada de consequências para todas as partes envolvidas.Dito isto, há quem vá mais longe e veja no tráfico transatlântico um crime sem qualquer paralelo na história da humanidade. E um crime cujos efeitos persistiriam nos nossos dias. Para esses o tráfico, um negócio prejudicial aos africanos, teria "formatado" toda a evolução posterior da África. Aos seus olhos, o comércio negreiro assume o papel de principal responsável pelas dificuldades que o continente actualmente enfrenta e a culpa dessas dificuldades caberia em exclusivo aos europeus, vistos como introdutores e promotores de tão degradante sistema. E, com base numa perspectiva que demoniza o europeu e faz de África a mártir de uma história relacional, vários responsáveis políticos vão ao ponto de exigir dos países ocidentais não apenas um pedido público de perdão pela prática negreira mas também uma adequada compensação material que possa corrigir as injustiças passadas.Será essa perspectiva equilibrada de um ponto de vista histórico? Julgo que não. Desde logo porque ela é estranhamente selectiva visto haver, da parte dos seus promotores, um evidente cuidado em dissolver o peso de outros tráficos humanos, nomeadamente o que foi levado a cabo pelos muçulmanos entre os séculos VIII e XX e que terá envolvido, julga-se, um total de 18 milhões de africanos. Depois, porque ela assenta numa versão voluntariamente amputada do passado. O tráfico transatlântico de escravos foi um dos assuntos mais estudados pela historiografia nas décadas de 1970 e 1980. Nesse período de estudo intenso investigaram-se minuciosamente quase todas as facetas da operação escravista, desde o volume do comércio negreiro às taxas de mortalidade dos escravos e das tripulações negreiras. Ora, a visão global que resultou de um estudo tão aprofundado não se coaduna, de modo algum, com perspectivas maniqueístas. Ambos os lados do Atlântico ganharam com o tráfico, ainda que de formas diferentes e no âmbito de economias que obedeciam a lógicas diferentes. Nesse sentido, é possível afirmar que, para África, o tráfico não implicou subdesenvolvimento mas sim um desenvolvimento específico, numa economia política orientada para a produção de pessoas. Mas, aparentemente, os resultados a que essa historiografia rigorosa e fidedigna foi chegando não terão sido considerados politicamente correctos. Daí que alguns historiadores (em particular os que consideram que a história de África deve ser feita pelos próprios africanos ou por historiadores "liberais") e certas organizações (como a UNESCO, por exemplo), tenham ultimamente aparecido a fazer tábua rasa da torrente bibliográfica que está para trás æ e falo de muitas centenas de livros e artigos æ, entrando num afã para reescrever uma história que já está investigada e escrita. A motivação é manifestamente política e ideológica e visa, entre outras coisas, converter o passado numa arma de arremesso.É nesse contexto que deve entender-se a ideia de culpa do europeu. Até ao século XVIII a participação no tráfico de escravos não era concebida, em nenhuma parte do mundo, como crime. No seio da cultura ocidental, por exemplo, era geralmente vista como uma prática triste mas inevitável nas condições do mundo. Foram os abolicionistas ocidentais que, por razões de propaganda e de convicção religiosa, perspectivaram o tráfico como uma culpa exclusiva do homem branco, algo que devia provocar arrependimento e uma rápida reparação do mal. Como é sabido, o abolicionismo foi uma ideologia de combate com tonalidades milenaristas, que criou os seus mitos, os seus heróis e as suas vítimas, difundindo a imagem do pacífico negro trucidado pela ganância sem limite do europeu. Foi uma ideologia que teve a sua justificação histórica na existência do próprio tráfico e da escravidão mas cujo papel histórico se esgotou aí. Adoptá-la nos tempos que correm, mais de 130 anos depois do tráfico transatlântico ter inteiramente cessado, é algo que parece claramente desviado e fantasmático.E o mesmo pode ser dito a respeito da pretendida exclusividade dramática (e do correspondente pedido de reparação material e moral). Na contabilização do horror o tráfico transatlântico não é, infelizmente, um caso único nem na dimensão, nem nas consequências nem mesmo na durabilidade. Pense-se, por exemplo, na longa história de depredações levadas a cabo pelos nómadas da estepe sobre as civilizações agrárias da periferia. Para se fazer uma ideia do que está em causa refira-se que o norte da China tinha, no final do século XII, uma população de cerca de 50 milhões de pessoas; 40 anos depois, no rescaldo das incursões mongóis, teria menos de 9 milhões. E este é apenas um balanço limitado no tempo e no espaço. Tenha-se em conta que a relação sangrenta entre nómadas e sedentários durou cerca de 2 mil anos e se processou ao longo da faixa de estepe praticamente contínua que vai da Manchúria à Húngria. O cômputo total dos custos humanos e materiais dessa relação sangrenta ainda não está concluído, mas é garantidamente muito superior ao impacte do tráfico sobre a África. Servirá ele para que a Rússia, o Irão, a China, exijam da Mongólia uma penitência pública e a reparação pelas perdas causadas pelos nómadas de outros tempos? Parece absurdo. Já seria óptimo que os Estados pudessem ser levados a assumir e corrigir as injustiças presentes, aquelas que estão ao alcance da sua acção. Ir para além disso, culpabilizar um qualquer povo por acontecimentos ocorridos há centenas de anos é um princípio de responsabilização retroactiva que não tem sentido.Resultando de uma visão propositadamente distorcida, a demonização do europeu é algo que presta um mau serviço à memória que os povos devem ter do seu passado. Até porque omite um elemento essencial: se o tráfico e a escravidão desapareceram da face da terra isso ficou a dever-se exclusivamente à iniciativa do mundo ocidental (com destaque para a Inglaterra). Aqueles que gostam de imputar ao homem branco os diversos males de que a África padece perguntam-se muitas vezes como terá sido possível que uma abominação como o tráfico negreiro tivesse existido e durado tanto tempo. Mas trata-se de uma pergunta retórica que confunde história com moral. Numa perspectiva estritamente histórica a pergunta deve ser colocada ao invés: como terá sido possível que uma forma de comércio extremamente antiga, disseminada à escala planetária, firmemente sancionada pela lei, pela religião, pelo costume, e por fortes interesses políticos e económicos, tenha sido suprimida no curto espaço de algumas décadas?A resposta é, como se sabe, o abolicionismo (entendido aqui como o conjunto de medidas anti-escravistas que o mundo ocidental adoptou para si próprio e impôs ao exterior). É verdade que o mesmo sector que promove a demonização do europeu tem pretendido afirmar que as abolições se ficaram a dever, sobretudo, ao esforço dos africanos e não às iniciativas dos ocidentais. É uma descaradíssima falsificação da história, uma forma desajeitada de procurar colocar o africano como agente dessa parte da sua história. Excepção feita ao caso do Haiti, o fim do tráfico e da escravidão não foi obra de Espártacos negros mas sim o resultado daquilo que Tocqueville designou por "ilustrada vontade dos senhores". Seja qual for a nossa perspectiva sobre a natureza dessa "vontade", quer a vejamos como decorrente do humanitarismo ou de interesses materiais (ou de ambas as coisas), é ela e não a escravatura que constitui um acontecimento único, excepcional, na história do mundo, como o recente reaparecimento de várias formas de tráfico e de escravidão nos veio dolorosamente recordar. Ora não se pode perspectivar a participação dos ocidentais no tráfico de escravos sem realçar o seu papel na abolição. A menos que se queira mistificar tudo.*Historiador no Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), em Lisboa