Um dinossauro está entalado nas arribas de Torres Vedras

Lá em cima, fica o muro do Hotel Golf Mar e em baixo, a praia de Porto Novo, perto de Torres Vedras, e a foz do rio Alcabrichel. A meio caminho da arriba, íngreme, a pique, a uns 20 metros de altura, estão entalados os ossos de um dinossauro. Estão ali há 140 milhões de anos, e agora um grupo de jovens andou, até ontem, a escavar parte dos ossos, aqueles que foram caindo lá de cima para uma plataforma um pouco mais plana da arriba."Olha, apareceu mais um osso", diz alguém. A geóloga Filipa Marques, de 22 anos, doutoranda da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, está dentro de um rectângulo escavado. Sentada em cima das pernas e debruçada sobre o ossinho, ela tira a terra, cuidadosamente, com um colherim, para em seguida limpar o fóssil com uma vassoura. Ao lado dela, empoleiradas na arriba e dentro de dois pequenos rectângulos escavados, andam mais nove pessoas a apanhar os fragmentos que foram ali parar por causa do abatimento da arriba - geólogos, arqueólogos da Associação Leonel Trindade, uma instituição de carácter científico de Torres Vedras, e estudantes de geologia e arqueologia.O paleontólogo Pedro Dantas, do Museu de História Natural de Lisboa, foi lá ver os trabalhos, até porque os fósseis vão ser estudados sob a sua direcção científica e a de Stefan Rosendhal, um paleontólogo alemão que preside à Associação Leonel Trindade. Para chegar à base mais ou menos plana, a uns dez metros de altura, é preciso fazer de alpinista. O grupo assentou lá arraiais desde 8 de Agosto. Pelo chão espalham-se baldes pretos cheios de terra, peneiras, um alguidar vermelho, picaretas, martelos de geólogo, colherins, vassouras e um par de ténis. E têm um rádio? "Temos. É essencial", responde Raquel Raposo, arqueóloga da Associação Leonel Trindade. "É para ouvir os Irmãos Catita, e outros", completa Filipa Marques.Os ossos - e já lá vão mais de 200 fragmentos recolhidos desde que o bicho foi descoberto, em finais de 1998, por dois sócios da associação - têm com destino esta instituição. A ideia dos seus membros, e já são 118 sócios, é a criação de um museu paleontológico. Bruno Silva, de 26 anos, membro da associação, espera que o dinossauro esteja metido dentro da terra, mas quem sabe? "Em princípio, o bicho está lá, esperamos." Mas a equipa optou por não escavar o próprio dinossauro. "A associação entendeu não intervir mesmo no local onde está o dinossauro, por causa do risco do muro ficar em perigo e depois serem-lhe imputadas responsabilidades", diz Pedro Dantas. "A base do hotel está assente nas margas e as margas estão a ser desgastadas pela erosão. Será inevitável que um dia tenham de consolidar as bases para evitar que parte do muro caia. Mas só nessa altura poderemos escavar."O mar, sempre incansável, não se cala nem pára. A espuma das ondas, na altura da maré cheia, quase chega à arriba. Mas o bicho que andou por ali há 140 milhões de anos, no período do Jurássico superior, não via nada daquela paisagem. Não existia uma arriba, pois aquela era uma zona de pântanos, quente e húmida, e muito menos estava ali o rio. Filipa Marques conta lhe disseram que o Alcabrichel só está ali desde as invasões francesas: "Fizeram um forte e desviaram o rio para dificultar a passagem das tropas francesas. Foi um rapaz que é daqui e está na escavação que me contou", diz Filipa Marques.Nem o mar se perdia de vista no horizonte. Tudo porque não existia o grande fosso entre a Europa e a América, o oceano Atlântico. O que existia era a Bacia Lusitaniana, que era a génese do Atlântico, pois à medida que os dois continentes se iam separando, o mar invadia esse fosso. Mas o mar estava ainda um pouco longe do local onde o dinossauro ficou a repousar para sempre e ali ainda era continente, como mostra a sucessão de camadas da arriba. "No Jurássico superior já estava aqui a ocorrer a abertura do Atlântico. O mar estava próximo, a Oeste, mas não era nada do que existe hoje", explica Filipa Marques. "Neste local, estaríamos numa zona continental, mas próximo desse fosso, porque os sedimentos são continentais e não marinhos."De facto, os arenitos (pelo tipo de grãos e estrutura) intercalados com estratos argilosos e margosos (mistura de argila com sedimentos carbonatados) revelam que o ambiente era pantanoso. "Havia um meio essencialmente lagunar e pantanoso, com canais fluviais." O bicho morreu numa zona pantanosa e lodosa - propícia à fossilização, porque as águas têm pouco oxigénio e são pouco movimentadas - e onde a vegetação seria luxuriante. Os inúmeros fósseis de árvores que a equipa tem encontrado, que é como quem diz carvões, provam-no. "Vamos imaginar uma floresta luxuriante, porque isto está cheio de troncos, de muitos troncos." Como morreu o dinossauro é que não se sabe. Mas essa é outra história para os cientistas desvendarem, tanto mais que os ossos apresentam marcas dos dentes de outros animais. O grande herbívoro foi devorado, ou já morto, ou ainda vivo.