Morabeza

Que faço eu com este contrabaixo, com a minha sombra estendida no feno, a olhar para o vento que surge da serra. Agora que o Verão desperta todos os desejos e a minha música se esvai pela encosta fora, no meio das cadeiras, até ao cimo, onde dançam jovens mulheres. Como será o corpo delas, o seu cheiro batido pelo restolhar das oliveiras. E eu, com este contrabaixo encostado ao chão a contemplar duas actrizes que mudam de roupa entre os carros. Será isto o teatro?

Vai para uns três ou quatro anos, o então ministro da Cultura de Portugal, Manuel Maria Carrilho, esteve em Cabo Verde, na Praia, para a inauguração de mais uma feira do livro, e num dos discursos que foi fazendo ao longos dos dias disse que estava a sentir-se entre nós tão bem tratado, tão em família, na verdade tão à vontade como se estivesse na sua própria casa, que ia propor que a palavra "morabeza" passasse a integrar os dicionários de língua portuguesa, perpetuando por mais essa via a secular ligação entre os nossos povos.Eu e todos os outros cabo-verdianos que estavam presentes gostámos muito de ouvir as simpáticas palavras do senhor ministro, ainda que mais ou menos conscientes de que o seu poder para mandar introduzir mais um vocábulo num dicionário deveria certamente ser escasso. Mas de todo o modo ficava a intenção desse justo reconhecimento, entre nós a ancestral desconfiança dos ilhéus perante o estrangeiro não dura mais que o tempo de chegar um gesto sorridente ou uma palavra amável.Bem, pelo menos era assim no antigamente. Porque há poucos dias viajei do Sal para São Vicente na companhia de uma jovem professora portuguesa de nome Paula, aqui prestando serviço e que vinha de estar uns dias na Boa Vista. "Não encontrei nas pessoas a amabilidade de que tanto se fala das gentes da Boa Vista", acabou por me dizer. "É natural que estejam a ficar fartos de turistas", tentei desculpar o meu povo, "parece que a Boa Vista é agora quase uma ilha italiana, até já se diz que é mais fácil encontrar um italiano que uma tartaruga." E é verdade que o povo já sofre bastante. O Governo MpD escancarou as ilhas ao turismo, esquecendo-se que de muito antes elas já tinham mais gente que meios de satisfação das necessidades básicas. E agora, quando há escassez de energia eléctrica ou de água ou de qualquer outro bem essencial, ela afecta em primeiro lugar e particularmente os residentes, porque os poderes públicos continuam apostados em vender para os de fora uma imagem de Cabo Verde como paraíso no atlântico, ilhas afortunadas onde tudo é abundante, quando o que valeria a pena mostrar de nós é a cultura ímpar que foi nascendo e se forjou na alegre pobreza das nossas ilhas.Mas, por outro lado, estamos com uns turistas um tanto miseráveis. Ocupei há anos um quarto numa residencial da Boa Vista e, quando protestei pelo descuido de não haver nem copo, nem toalhas, nem sabonete, nem papel higiénico na casa de banho, a responsável desculpou-se dizendo que só levam esses objectos a pedido do cliente - não poucos turistas se locupletam com essas tralhas quando deixam o hotel.E também é verdade que nem todos os empreendedores do turismo se deixam encantar, ou sequer se preocupam, com a nossa morabeza. Contava-me uma ofendidíssima senhora portuguesa, leitora durante muitos anos em Itália e que conhece Cabo Verde e a sua gente, que de passagem pelo Sal entrou num dos hotéis italianos, só para ver como era por dentro. E eis que depara com uma antiga colega de Roma ali em gozo de merecidas férias. E de conversa em conversa fica a saber que a italiana está na ilha há cinco dias, porém, sem nunca ter posto os pés fora do perímetro do hotel. "Dizem que é muito perigoso sair daqui", explica ela, "podemos ser atacados a qualquer momento."Claro que é falso, como aliás a portuguesa demonstrou à amiga levando-a a passear pela vila de Santa Maria e expondo-a tanto à indiferença dos adultos, como à desfaçatez dos miúdos a pedir uma moeda, afinal das contas as únicas que estamos a ganhar com a entrega das ilhas ao turismo. Mas de qualquer modo, muito poucos dias depois da intenção do ministro Carrilho, estou procurando não sei que palavra no dicionário e eis que deparo deliciado com "morabeza (Cabo Verde) amabilidade, afabilidade - do crioulo morabeza". Maravilha, afinal a nossa morabeza já estava honrosamente reconhecida, já fazia parte do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, edição de 98.No entanto, nem tudo está tranquilo; o que neste momento deve ser de recear é que a "morabeza" seja um sentimento em vias de extinção numa boa parte dos cabo-verdianos. Com efeito, é perfeitamente natural que uma comunidade de quatro mil pessoas regrida à ancestral animosidade perante o estrangeiro, ao ver-se repentinamente invadida por verdadeiras hordas de modernos bárbaros apenas guiados pela fé em altas torres de cimento armado. De modo que é bem possível que a Paula tenha razão, tanto mais que o próprio recente, grande e caríssimo Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências, tendo introduzido e fixado inúmeras palavras novas, tais como, por exemplo, "maningue", "bué" e "machimbombo" e muitas outras, numa verdadeira revolução dentro da língua portuguesa, como que premonitoriamente se tenha pura e simplesmente esquecido da "morabeza" cabo-verdiana.