O segredo da Cartuxa

No grande portão que dá acesso ao mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, um letreiro diz: "Clausura". É a Cartuxa de Évora, o único convento em Portugal onde os monges vivem verdadeiramente para o silêncio e a contemplação. A um fotógrafo e um repórter da PÚBLICA foi concedido o privilégio raro de entrar no templo da solidão. E desvendar o seu segredo.

Deslizam como bichos rente aos muros. Vêm em fila, das suas celas para a capela. Surgem seis de um lado, seis de outro do grande claustro, um após outro, em silêncio, cabeça baixa, capuz a cobrir a cabeça, todos na segunda metade da vida. São cinco e um quarto da tarde, hora de Vésperas. Entram na capela, seis monges para cada lado nos bancos altos de madeira escura. Da prateleira à sua frente retiram os enormes e arcaicos livros de música, que colocam abertos na estante, antes de começar a cantar.Um deles entoa uma frase, em latim, o grupo de um dos lados responde em coro, agora em português, seguido pelo grupo do outro lado, e assim continuam, alternadamente, em soturno canto gregoriano, contando histórias dos evangelhos para ninguém. Ajoelham-se, levantam-se, sentam-se, tiram o capuz, voltam a colocá-lo. Um dos monges tem uma voz fanhosa, outro um sotaque anglo-saxónico, outro soa como uma gralha rouca, outro emite um som para dentro, outro marca apenas o final de cada frase, outro arrasta uma ladainha sonolenta, outro um sopro de coruja moribunda, mas o efeito final é de uma beleza inexplicável e hipnótica. "Oramos com a voz, com a mente e com o corpo", explica-nos o padre prior. Exactamente meia hora depois, voltam às celas, de novo em fila e em silêncio, como condenados. Os seus corpos rastejam junto ao muro como bichos mas as suas almas voam. Sobre o imenso claustro, o jardim, com um poço de onde tiram água fresca com um balde e bebem por uma vasilha antiquíssima de madeira, a biblioteca, para onde o padre-procurador compra "todos os livros que os monges pedem", a igreja recém-restaurada com o faustoso altar barroco em talha dourada que ninguém vê nunca, as capelas onde cada padre diz missa sozinho, o terraço de onde se vê Évora, as celas espaçosas, com jardins privados, o cemitério, onde jazem, enterrados sem caixão, como nos primórdios do cristianismo, os seis monges que morreram desde a reabertura do convento, há 40 anos, os corredores de silêncio e luz, o quadro de madeira, chamado "a tábua", autêntica pérola de artesanato onde, através de um sistema manual de pinos e "bandeiras" laterais móveis, são fixadas diariamente as tarefas de cada monge e do colectivo. As ordens "Passeio irmãos", "Recreio comum", "Corte cabelo", "Lavagem lã", "Lavagem algodão", "Ofício defuntos", "Sermão" surgem escritas nas tabuletas salientes, para que os monges saibam o que têm a fazer, sem precisar de falar.Porque fizeram voto de pobreza e silêncio. Não abrem a boca, a não ser para cantar as orações, excepto domingo à tarde e durante o passeio pelo campo, de segunda-feira. Não falam entre si, e muito menos com estranhos, como um repórter e um fotógrafo "infiltrados" no convento. "Os monges não gostam e não querem falar. A sua vida é só eles e Deus, e eu tenho de proteger a sua solidão", explica o padre prior. "Conta-se que quando dois cartuxos se cruzam no claustro dizem sempre a mesma coisa: 'Um dia, morreremos'. E o outro responde: 'Já o sabemos'. Mas é mentira. Quando dois cartuxos se cruzam no claustro não dizem nada". Também se conta que os cartuxos cavam todos os dias um pouco da sua própria sepultura. Mas é um mito que o padre prior, lógico implacável, desmonta num ápice: "Imagine que cavamos um centímetro por dia. Ao fim de um ano, já são três metros e meio. Em 50 anos até pode encontrar petróleo".Fala pelos cotovelos, o padre prior, Isidoro Alonso, 72 anos, natural de Burgos. Com os outros, que passam por nós como sombras brancas, não podemos conversar. Monges idosos, com histórias fabulosas, condenadas para sempre a um sigilo sepulcral. O padre Bruno, americano de Baltimore, estudioso de ícones russos e da liturgia ortodoxa, o padre Américo, italiano com mais de 90 anos, que foi responsável por um grandioso périplo da imagem da Virgem de Fátima por Itália, e chegou a ser enviado, por Roma, como embaixador informal para os países da Europa de Leste, antes da queda do muro de Berlim, numa espécie de missão de espionagem ao serviço da Santa Sé. O irmão António Maria, que veio de Moçambique há 35 anos para ingressar na Cartuxa. "Chegou, veio para aqui e nunca saiu", conta o padre prior. "Não conhece nada. E não tem necessidade de conhecer nada".António Maria sorri com humildade. Mas aproxima-se disfarçadamente e consegue sussurrar, entre dentes, sem tirar o sorriso: "Tenho de falar consigo, a sós. Sem que o padre prior ouça. Se voltarem amanhã..."A ordem da Cartuxa foi fundada há 900 anos por São Bruno, que, desiludido com a riqueza e vacuidade do mundo, se retirou com um grupo de eremitas para o maciço de Chartreuse, nos Alpes franceses, para uma vida de silêncio e contemplação.Foi introduzida em Portugal em 1587. Seis anos depois, começou a construção do mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, em Évora, em cujas 20 celas viveriam os monges cartuxos até que os liberais extinguissem as ordens religiosas em Portugal, em 1834. Já no século XX, no entanto, ou não fosse a divisa da ordem da Cartuxa "Stat Crux dum volvitur orbis" (o mundo gira mas a Cruz permanece), religiosos portugueses partiram para Espanha em busca do ideal de vida solitária e contemplativa. Sete deles regressaram em 1960 para fundar a nova Cartuxa, em Évora, sob os auspícios do então proprietário das ruínas de Santa Maria Scala Coeli, Vasco Maria Eugénio de Almeida, conde de Vil'alva. O conde e depois a fundação Eugénio de Almeida restauraram o mosteiro, e a Cartuxa de Évora ressuscitou, depois do Vaticano II ter confirmado o rigor e fidelidade às origens da regra cartusiana. Segundo as "Consuetudines", redigidas por D. Guigo, o quarto sucessor de São Bruno, os cartuxos são mais monges do que os monges, embora os membros da Ordem tenham hoje relutância em definir-se por essa fórmula - pudor que, no entanto, a confirma.A verdade é que nenhum outro monge católico obedece, como o cartuxo, a uma tão rigorosa disciplina de pobreza, de silêncio, de clausura absoluta.O seu dia divide-se em dois períodos: o do silêncio, das seis da manhã às sete e um quarto da tarde, e o do Grande Silêncio. Mas as rotinas são tão fixas e tão iguais que não constituem propriamente ocorrências, antes eliminam o tempo. Os monges saem da cela às seis da manhã para cantar a missa matinal, às cinco e um quarto para as Vésperas, e à meia-noite para a missa conventual, Matinas e Laudes, até às 3h30 da madrugada. Comem uma vez por dia, sozinhos na cela, excepto ao domingo, em que almoçam juntos, calados, enquanto um lê um livro em voz alta. À sexta-feira ficam a pão e água. Não podem receber visitas, excepto, duas vezes por ano, a de familiares, a quem é reservada uma área especial do convento. Não entram na zona de clausura propriamente dita. A visita de estranhos é sempre proibida, salvo raríssimas excepções, como os repórteres da PÚBLICA. Para as mulheres não há excepções: nunca entram.Uma vez, surgiu na Cartuxa uma turma de alunos do ensino básico. Queriam visitar o convento e não houve regras sagradas nem eloquente argumentação do padre prior que os fizesse desistir. "Pronto, podem entrar", cedeu o chefe da comunidade cartuxa, "mas só os rapazes". Ao que, de entre o grupo, uma menina objectou: "E porquê essa discriminação?"Uma tentação irresistível disfarçada de pequeno repto para o padre prior, há muitos anos estudioso obstinado dos mestres da Oratória. "O que é que mais agrada a um homem?", perguntou. Após um silêncio, uma garota respondeu: "A mulher. E para a mulher, o que mais agrada é o homem"."Muito bem", assentiu o prior. "Pois nós os cartuxos, o que mais nos agrada oferecemo-lo a Deus. É o que acontece com as mulheres. Por as acharmos superiores, abdicamos delas, em oferenda ao Senhor. É uma discriminação, mas positiva. Compreenderam?""Siiiiim", responderam em coro as raparigas. "Mas queremos entrar!" Não entraram. Porque Isidoro Alonso não conhece a indulgência quando se trata de manter os seus monges afastados do mundo."A meia noite é a hora mais maravilhosa", conta-nos ele. "Os monges deitam-se às 20h00 e minutos antes da meia-noite levantam-se para a missa. Ficam na cela, junto da porta, à espera, e quando batem as 24 horas saem todos, em fila, em direcção à igreja. Não se fala, é só ir cantar e regressar ao Grande Silêncio. Nada mais há a fazer do que a contemplação".No mosteiro da Cartuxa o tempo não é linear, é um círculo, uma espiral que se remata ali, no cemitério do jardim. E o espaço, por força da sua própria imobilidade, dissipa-se, evola-se num limbo sem contornos. "Está a ouvir? É uma rola. Tinha desaparecido, mas agora voltou". O padre prior conhece todos os pássaros que cantam no jardim. Embora "a rola não cante, fale". E quando a ave se cala por uns segundos, todo o claustro é um navio de silêncio absoluto, um colossal navio de silêncio, naufragado há séculos. As sombras dos arcos, das colunas, das paredes e dos arbustos, que o indómito sol alentejano projecta no chão, parecem ganhar vida. Desfocam-se, agigantam-se, gravitam, têm voz, têm peso. As coisas quietas são gestos bruscos que nos fogem, nos perseguem, nos agitam, nos chamam.E é nesse momento prodigioso em que a rola descansa, nesse ápice a estoirar de silêncio, que cada monge, no seu hábito branco ondulante, subtraído às contingências do mundo, deixa entrever no olhar o ser estranho, a viagem louca que traz dentro de si.O padre Bruno vai apressado para ir tratar da enorme e vistosa buganvília que tem no jardim, onde ninguém entra. "Bruno Laurent, como Laurence da Arábia", apresenta o padre prior. "Declaro que a minha família não tem nenhuma relação com Laurence da Arábia, que aliás não se chamava assim", riposta Bruno.O prior, de boa escola retórica, não deixa nenhuma frase sem resposta: "Lendo a Bíblia, constatamos que todos pertencemos à mesma família, porque somos filhos de Adão"."Sim, mas nesse caso o senhor também é filho de Estaline", remata Bruno.O padre italiano, ex-agente secreto da Santa Sé, passa na sua cadeira de rodas. "Fala todas as línguas", diz o prior. "Mas não se lhe percebe nenhuma". O moçambicano António Maria, que é o irmão-porteiro e surge sempre à despedida, não perde nenhuma oportunidade: "Preciso de falar consigo a sós. Tenho um segredo que preciso de contar. É muito importante..." Mas o prior, como que desconfiado das intenções de António Maria, afasta-nos dele."De que falam vocês quando saem daqui?", pergunta. "Conversam sobre o que viram no mosteiro, combinam que perguntas fazer no dia seguinte?"Teria o padre prior dons divinatórios? Ele bem dizia: "Eu não sou Deus, mas sou quase Deus". Ainda que não deixasse de acrescentar: "...como todos os homens". Com efeito, sentados num café de Évora, após um dia inteiro no convento da Cartuxa, repórter e fotógrafo martirizavam-se em especulações. Qual seria o segredo do irmão António Maria? O que queria ele revelar com tanta urgência? Pensámos em todas as hipóteses. Num local absolutamente inexpugnável, financiado por uma fundação de que pouco sabíamos, não era difícil imaginar tráficos de droga, de armas ou de carne branca, celas cheias de prostitutas do Leste, a ser vendidas em infames leilões de escravos. Chegámos a fantasiar sobre a hipótese de o próprio António Maria ser escravo no convento, ou serem os monges todos escravos da mafia russa, ou sobre aberrantes práticas sexuais, ou cultos satânicos... Já sonhávamos com o furo jornalístico do século, com títulos garrafais, "Tráfico no convento", "Escândalo na Cartuxa"... Qual seria o segredo do irmão António Maria? E planeámos mil estratagemas para o descobrir.No dia seguinte, o padre prior falou-nos da dureza da vida monástica. "A imaginação é a louca da casa", explicou ele, citando Santa Teresa. "É vulcânica. Mete-se por todo o lado, não tem portas". É um dos piores inimigos do monge, porque quanto mais se tenta domar, mais se faz indomável. "A mulher, por exemplo. É mais tentadora para um monge do que para um homem normal, porque o monge não a vê nunca. Mas a imaginação substitui a vista e ultrapassa tudo. Eu podia escrever um livro só com o que imagino num dia", confessa Isidoro depois de nos ter mostrado a sua cela, a cama simples, o crucifixo, a estante com alguns livros... e o silício, dispositivo de crina de cavalo que se usa ao peito, por baixo da roupa, para mortificar a carne, e o chicote, com que todos os dias se auto-flagela... "aqui, onde as costas perdem o seu honesto nome". Mas a grande provação da Cartuxa é a solidão extrema. Muito poucos a aguentam. Só gente com uma robustez psicológica acima do normal. "Há dias recusei um candidato. Ele veio cá com o reitor do Seminário, e eu perguntava-lhe coisas e ele não respondia. Era muito introvertido. O reitor dizia: 'é uma grande vocação', mas eu não o aceitei. Aqui, a introversão é muito perigosa. A Cartuxa é para gente extrovertida".Quem entra no convento porque teve desilusões na vida, ou porque tem alguma desadaptação ou problema consigo mesmo, rapidamente enlouquece. "O Homem é naturalmente sociável. Renunciar a isso exige uma força interior muito grande". Isidoro está há 35 anos na Cartuxa. Outros monges estão há mais ainda. Como se consegue manter a sanidade em tanto tempo de clausura? "Quando entrei, sabendo que era para sempre, tive muito medo. Mas afinal não me custou. Por isso não tenho mérito nenhum".Mas houve períodos difíceis. "O pior é o chamado demónio meridiano. O que surge no meio da vida. É como no casamento, ou em qualquer profissão: há um período, entre os 35 e os 40 anos, em que tudo o que fazemos parece perder o sentido". E Isidoro, que, entre outras actividades, foi professor de Física, tenta uma explicação que possamos entender: "Nós vimos para aqui por Deus. E fazemo-lo por fervor. Ora o fervor não pode manter-se muito tempo. A água a ferver, em ebulição, vai naturalmente arrefecendo. A certa altura a temperatura começa a baixar de zero. Mas o que é isto? Então eu deixei o mundo em busca de Deus, e agora nem Deus nem mundo? Sim, há uma altura em que sente um vazio. E o pior é que não há sucedâneos a que nos possamos agarrar. Os jesuítas, ou outros, se perdem o fervor, têm outras coisas - o trabalho, o ensino - mas nós não temos mais nada. E há épocas de grande aridez espiritual, de aborrecimento. Deus ausenta-se. É por isso que quanto menos sentimentalismo houver, melhor. A fé deve provir da vontade, não do sentimento".Em suma: é uma questão de vocação. E a vocação, admite o prior, é uma coisa misteriosa. "Cada pessoa tem uma história diferente...""Pois, é por isso que gostaríamos muito de conhecer a história de cada monge, principalmente a do irmão António Maria, por ser moçambicano...", atacámos nós, aproveitando a deixa. mas Isidoro não se deixava apanhar. "É impossível. Ele não quer falar. Não gosta. Temos de respeitar". E continuava: "As motivações de cada um são diferentes e muito complexas. Por vezes nem os próprios as conhecem". E conta a história do monge que pediu autorização para passar uma semana num hotel de luxo, a fazer ninguém sabe o quê, após o que voltou ao convento, e de várias vocações descobertas de um momento para o outro. Como a do milionário que mandou o chofer parar à porta da Cartuxa, conversou durante uma hora com o padre prior e saiu apenas para dizer ao motorista que podia ir embora e ficar com o carro, porque decidira entrar no mosteiro para sempre.Há casos assim, em que a vocação surge espontaneamente. "Não é o vosso", nota o prior, fixando nos olhos repórter e fotógrafo. "Com vocês só com muito trabalho e perseverança...""A cela de um monge é um local sagrado. Não podem entrar lá", tinha dito o prior. "Nem mesmo outros monges têm permissão, excepto para se confessarem, e têm de deixar a porta aberta". Mas acabámos por entrar na cela do padre Bruno, que nos falou também do seu "demónio meridiano".A cela é tudo menos um cubículo. Um quarto e uma sala espaçosos, casa de banho, e o jardim, com a magnífica buganvília azul a cobrir toda a parede e a crescer até ao telhado."Alguns anos após a minha ordenação", recorda Bruno, emitindo um ruído de balão a esvaziar, "Pshshshshsh! Desapareceu tudo. Até não acreditar mesmo em Deus. Estava na Cartuxa na Suíça e fui dar um passeio pela floresta. Sentei-me numa pedra e vi sair da terra um verme. Comecei a pensar: que sabe este verme de mim? Nada. Que pode ele compreender? Se eu avanço com a mão, ele, com a sua sensibilidade, devido ao ácido da minha pele, encolhe-se. Para se proteger. Mas não me vê, não me entende. Mais: que pode ele compreender da minha cabeça? Nada. Porquê? Porque está limitado na sua vida de verme. Pois é precisamente o mesmo com o Homem em relação a Deus. Pode reflectir, mas só até um certo ponto. Para cada um de nós há um tempo de purificação do coração e da alma".O padre prior, que obviamente reivindica o monopólio conventual das artes oratórias, ouviu a fábula do verme com um indisfarçável ar de gozo. Atirou: "Ah, então você já está purificado!""Mais ou menos", defendeu-se Bruno, mas continuou: "Os buracos negros. Chupam tudo, chchchchlup! Mas que está do outro lado?""Mais buracos!", atalha Isidoro, numa espécie de jogo zombeteiro de frades folgazões, ainda que não isento de algum acinte. Mas Bruno não o ouve, no entusiasmo do raciocínio."Os cientistas dizem que o Universo está em expansão. Muito bem, mas para onde?"Isidoro não aguenta mais. "Como vêem, é aqui na cela que os monges podem concentrar-se no seu estudo e na sua meditação. Mas por vezes concentram-se demais e correm o risco de explodir, como uma bomba atómica".Mas Bruno, em radical contradição com o que o prior Isidoro tinha dito sobre o desejo de silêncio dos monges, não se cala. Como todos os frades de quem nos aproximámos, aliás. Após 30 ou 40 anos de mudez, entram em verdadeira erupção verbal quando lhes dão oportunidade."Esta é a minha família portuguesa", diz Bruno apontando para um quadro que está a pintar, copiando de uma fotografia, representando um homem e uma mulher a beijarem-se. "É privado, não podem fotografar".O prior, que tem de controlar as duas visitas anuais dos familiares dos monges, zanga-se: "Mas você não tem nenhuma família portuguesa!""Por que não posso ter uma família portuguesa, para me visitar?""São amigos. Família, é uma maneira de dizer""Está a contradizer-se, sr. padre prior!""Contradigo-me muitas vezes","Por acaso, já tínhamos reparado!", remata Bruno, que fala connosco em português e com Isidoro em francês."Ele gosta de pintura. A sua especialidade são os ícones russos. Ele é um pouco russo".Em cima da secretária de Bruno está um grande dicionário de russo, livros em cirílico, outros sobre espiritualidade e liturgia ortodoxa. Isidoro provoca-o: "Se lhe perguntarem pela Virgem de Fátima, encolhe os ombros. De Lourdes pouco sabe. Mas destas coisitas é um especialista".A resposta de Bruno é mostrar fotografias de uma viagem que fez à Crimeia e a um mosteiro ortodoxo. "A Crimeia. O Mar Negro. É um panorama que faz chorar".O prior, que já começara a puxar-nos para fora da cela, objecta: "Sempre ouvi dizer que a baía mais bonita do mundo é a de São Francisco".Bruno olha-o a faiscar. "Isto não é uma baía, sr. padre. Isto é um mar!" E começa a descrever Serguei Possad, o grande centro de peregrinação russo."Serguei quê?" interrompe Isidoro. "Como se diz isso em cristão?""Em Castelhano?""É a mesma coisa"."Possad quer dizer aldeia. É a aldeia de Sérgio...""Ah, é o São Sérgio. Por que não disse logo?""Alexis, o patriarca, lá disse outra vez aquelas coisas, parece que tem o disco riscado", disse Bruno, para pôr água na fervura. Referia-se da visita do papa à Ucrânia."Qual é que é pior, o Alexis ou o Putin?" interrogou o prior."Creio que são iguais. Putin foi chefe do KGB. Mas Alexis também foi agente do KGB".No jardim de Bruno, vimos a famosa buganvília. "É a árvore de Adão, a Árvore da Sabedoria", acirra Bruno, olhando de soslaio para nós, depois para o prior. Não é a primeira vez que temos a impressão de que as nossas visitas já foram longamente debatidas pelos monges. Talvez para discutir a nossa eventual vocação eremítica, ou talvez por outra razão...O prior, dissipando qualquer clima de intencionalidade que se tenha criado: "Não pensem que ele trabalha. Isto é tudo colado com fita-cola".Bruno, no delírio da peleja verbal: "O meu jardim é um jardim zen".Mais tarde, perguntámos a Isidoro como, em isolamento quase absoluto, estavam os monges tão informados de tudo o que se passa no mundo. "Ao domingo, na hora da conversa, conto-lhes as notícias que li nos jornais. E eles têm um desejo imenso de informação. A curiosidade é uma tentação fortíssima".Depois das Vésperas, ganhámos coragem para voltar à carga com o nosso plano secreto. "Gostávamos de falar um pouco com o padre moçambicano, naquela perspectiva de conhecer a história de cada um...""Já não vai ser possível", recusa logo o prior, peremptório. "Porque vai começar a hora do Grande Silêncio. Aliás vocês são uns privilegiados. Poucas pessoas tiveram acesso a tanta coisa, na Cartuxa"."Exactamente, agora que começamos a compreender o espírito da clausura e da contemplação...Mas o prior, mestre da oratória, replica, em tom de brincadeira: "Estou a contar-vos tudo, para que não tenham de voltar mais".Isidoro Alonso nasceu em Santa Maria del Cid, uma aldeia de 500 habitantes perto de Burgos, no seio de uma família muito católica. "Naquele tempo, não havia ninguém que não fosse à missa. À missa, ao catequismo, às vésperas, ao rosário... Eu cresci nesse ambiente". Em criança, foi acólito da Igreja - "o tempo mais feliz da minha vida. Cantava, fascinado, embora não percebesse uma palavra de latim" - e quando aos 12 anos visitou a Cartuxa de Burgos decidiu que, quando fosse homem, seria monge cartusiano.Aos 18 anos foi como missionário para a América do Sul, de onde só regressou 18 anos depois, para ingressar na Cartuxa. "Nunca tinha visto o mar, até entrar para o barco e passar 20 dias no mar". Na Bolívia e no Peru foi professor "de tudo". Foram 18 anos de aventuras inimagináveis, de lutas religiosas contras os convertidos protestantes, de evangelização, de discursos, de discussões públicas para trazer os jovens para a fé... E de repente... o silêncio.De religioso tão activo, de disciplinador tão eficaz, de professor tão brilhante que era, Roma tentou por todos os meios impedi-lo de ir para o convento. Em vão. "Toda a minha vida tive este pensamento, de entrar para a Cartuxa. Tinha de o realizar".Mas compreende por que razão já não há vocações. Uma vez, já depois de muitos anos de Cartuxa, Isidoro foi a um encontro internacional de cartuxos, em Espanha. Na viagem, pararam no Corte Inglês, para almoçar. Foi um assombro. O menu era uma confusão de nomes incompreensíveis. "Eu não sabia o que escolher. 'Escolham por mim', disse. 'Deve ser tudo bom'". Comeram lavagante. "Uma maravilha! Depois as mesas, a decoração, tudo bonito. As casas de banho limpíssimas... Uma maravilha! O carro, um Mercedes, uma maravilha!"Após uns dias de maravilhamento ininterrupto, o padre compreendeu por que ninguém quer ir para um convento. "Vive melhor hoje um pobre do que vivia um rei há 100 anos. Por isso as pessoas vivem distraídas do que é importante, de Deus. Mas depois, toda essa abundância material leva a um imenso vazio. E solidão. Sinto que as pessoas em Lisboa vivem mais sós do que os monges aqui, na Cartuxa".Era a hora da despedida. O padre prior, como de costume, vinha connosco até à saída, de onde só sai quando vê o carro sair os portões de Santa Maria Scala Coeli. Era preciso encontrar o padre António Maria. Mas era também uma luta contra o tempo, porque faltavam poucos minutos para as 7h15, a hora do Grande Silêncio, após o que todos os monges teriam de recolher-se. Tentámos prolongar o momento, multiplicando os agradecimentos ao padre Isidoro, mas, em desespero, acabámos por suplicar: "Gostaríamos ainda de falar um minuto com o padre porteiro..." "Impossível! É o Grande Silêncio".Quando já tudo parecia perdido, eis que vislumbramos o sorriso beatífico de António Maria, junto dos muros do convento. "Olá, como está", acenamos, Isidoro literalmente a empurrar-nos para o carro. A última oportunidade. Para danação do prior, avançamos para o porteiro. "Pois então conte lá a sua história... veio há 35 anos, não foi?""Sim... não...", vai articulando o porteiro, e contorce-se em mil gestos embiocados que querem dizer: "Preciso de falar, mas não com o prior por perto!" O fotógrafo a tentar em vão empurrar Isidoro para um último retrato no outro extremo do pátio...Até que o milagre acontece. Soam as 7h15, e o padre prior, com uma cara de mortificação indizível, corre, acenando adeusinhos fugazes, para o convento, para o seu Grande Silêncio.Ficamos sós com António Maria, num paroxismo de excitação. "Diga lá então qual é o segredo".Depois de se certificar de que o prior tinha mesmo entrado no convento, e mesmo assim a tremer de medo, o irmão porteiro faz a sua revelação. "É verdade, eu tenho um segredo que preciso de contar a alguém...""Sim... Diga lá depressa, qual é o segredo?""Eu... Eu sinto Cristo no coração!"A primeira sensação foi de desnorteio. Não queríamos acreditar. Então era aquilo?"É uma presença muito forte... Há muito que eu queria dizer isto a alguém... já uma vez tinha tentado, a umas pessoas que vieram cá, mas não consegui. O padre prior não sabe, mas talvez um dia lhe conte... Sinto Cristo no coração. É maravilhoso. Digam isto a toda a gente".Completamente esquecido do Grande Silêncio, António Maria ficou ainda muito tempo a explicar-nos o prodígio que sentia. No fim, a cabeça enfiada na janela do carro, já com o motor a trabalhar, ainda nos fez repetir com ele uma oração da sua autoria. Depois ficou a ver-nos desaparecer rumo ao pôr-do-sol alentejano, quais arautos da Boa Nova, feliz, cheio de fé de que levaríamos ao mundo o segredo da Cartuxa.Fotografias: Nacho Doce