António Garcês, a história de um rocker

Ao fim de 16 anos nos Estados Unidos, o rocker António Garcês (ex-Pentágono, ex-Psico, ex-Arte & Ofício, ex- Roxigénio) veio a Portugal para lançar "Rio Abaixo", um disco a solo de puro rock. Encontrou um país cujas rádios e discotecas da moda estão dominadas pela pop, dance music e techno. E contou-nos a sua história, a história de um rocker com 52 anos.

"Musicais", Jardim do Tabaco, Lisboa, dia 7 de Junho. Lenço vermelho na cabeça à Little Steven, t-shirt cinzenta, calças cor de laranja, António Garcês contorce a boca e roda furiosamente o tripé do microfone como nos bons velhos tempos. Acaba de lançar "Rio Abaixo", que não é apenas o seu primeiro álbum a solo, é também o primeiro há 17 anos a contar com a sua voz. Veio directamente de Hoboken, New Jersey, Estados Unidos para o lançar em Portugal. A banda, Sérgio Castro (Ex-Trabalhadores do Comércio) na guitarra, destila puro rock'nroll, um regresso ao rock numa noite lisboeta dominada pela pop, dance music e techno. Amigos da banda e alguns incautos jovens "betos" -eles muito penteados e pullover ao pescoço, elas o cigarro arqueado entre os dedos, todos potenciais clientes de discotecas da moda - povoam mal a sala. Garcês, habituado aos pavilhões e festivais de rock dos anos 80 dá o seu melhor mas não esconderá alguma desilusão nos bastidores. "Este lugar tem muitos queques, não tem?", ainda perguntará ao proprietário do lugar.O "Musicais" é um local a milhões de anos luz da Matosinhos dos anos 50, quando António, então um garoto de 8 anos, passava as manhãs de Verão na quinta de um amigo a tocar numas latas e a cantar para evitar que os pássaros comessem o cereal. "Foi o meu primeiro trabalho de cantor. Eu e um vizinho batíamos numas latas com paus e cantávamos à vez. Em troca, o pai dele dava presunto, broas e azeitonas."Em casa, Garcês escutava na rádio Nat King Cole, Amália, Frank Sinatra e Alfredo Farinha. Pegava numa tábua, pregava caricas em cima e rodava-as como se fossem botões, a fazer de DJ: "Senhoras e senhoras, vamos ouvir o Fernando Farinha..."O cunhado, empregado nos bacalhoeiros, trazia-lhe singles de Elvis Presley, mas foi com os Beatles e os Stones que Garcês passou a chocar a família e a vizinhança ao deixar crescer o cabelo. Filho de um "casamento esfrangalhado" - os pais separaram-se quando tinha sete anos- , aborrecido com os comentários dos colegas na escola, Garcês era um miúdo naturalmente rebelde. O pai encheu-se de dinheiro na lotaria mas gastou tudo em cinco anos e terminou arruinado. Dormia debaixo dos barcos na doca de Matosinhos. Morreu quase sem nada. "A única coisa que lhe saquei foi um fato cinzento, um colar de ouro com a cruz de Cristo, uns sapatos de camurça e um relógio da marca Renova."Uns dias antes de morrer, muito magro, o pai vê Garcês todo vestido de preto e diz: "Já estás pronto para o meu funeral?"Aos 14 anos, a mãe comprou-lhe uma guitarra acústica azul com a imagem de uma garota na praia. "Custou 500 paus, lembro-me que tínhamos de pagar 50 por mês." Garcês pegou na guitarra e foi ter com o senhor Neca, o "homem dos sete instrumentos": "Vivia numa barraca de madeira, passava o resto do tempo numa taberna de Matosinhos e aparecia nuns espectáculos a tocar gaita, bombo, guitarra, tudo ao mesmo tempo..." Na Escola Industrial Infante Dom Henrique, no Porto, onde passava o tempo a cantar pelos corredores "She loves you, ié ié ié...", conheceu o baixista de uma banda chamada Os Corvos. Achavam que cantava bem e queriam que ele ficasse. "Mas eram uns queques, queques do Porto, não tinham rock..."Regressou a Matosinhos e criou os Abutres com um filho de padeiro e o filho de um mestre de obras. Ensaiavam na cave de um empregado do Café Lua, em Matosinhos, que em breve rentabilizaria a cave com bailes abrilhantados por versões de temas dos Bee Gees, Rolling Stones e Beatles, tocadas pelos Abutres. "Chegávamos a juntar 50 pessoas na cave, a dançar agarrados."A sua primeira oportunidade de brilhar foi aos 16 anos, num show no repleto Salão Paroquial de Matosinhos. Terminou aos chutos à bateria no final do "House of The Rising Sun", dos Animals. "Pedi o crescendo à banda, o crescendo não vinha, fiz eu o crescendo..."A partir daí, passou a actuar mais vezes. "Dizia para comigo: 'Uau, sou um cantor iéié!". Circulava por Matosinhos juntamente com os outros "abutres", de cabelo comprido, roupas pretas, calças de boca de sino, "turtle neck" e botas. "Entrávamos no café e toda a gente olhava para nós. Tínhamos um grupo de amigos a seguir-nos para todo o lado. À noite, íamos partir as lâmpadas dos candeeiros e no dia seguinte comprávamos o jornal para ler 'vândalos atacaram de novo'".Durante os dois anos em que duraram os Abutres, Garcês bebeu na música dos Yardbirds, Animals, Kinks. Aos 17, entrou na banda portuense Os Duques, com Tó Zé Brito a baixo. "Nessa altura cantava 'I gotta a big fat mama...', dos Kinks, e aquela... 'I started a joke...' dos Bee Gees e a 'Keep on running' da Spencer Davis Band."Sempre em trânsito musical, voltou a Matosinhos para formar os Núcleos. Ensaiavam numa cave. "Uma vez estava a cantar 'They call me melow yelow' e em vez de cantar em inglês, cantei 'Chamam-me paneleiro...'" O baixista levou a mal. "Era um gajo que nos obrigava a fazer intervalo nos ensaios para ir a casa comer um pão com marmelada." Lá se foram os Núcleos...Alistou-se nos páraquedistas. "Andava a sentir-me despistado. Tinha uns amigos em Tancos, alistei-me". Um dia foi saltar de um sítio muito alto, aí com uns 4 a 5 metros. "Saltávamos dois a dois. Eles gritavam '1, 2, 3, já!' e nós atirávamo-nos". Atiraram-se mas as coisas não correram muito bem. "O outro gajo era surdo, quando chegou ao 'já' eu atirei-me primeiro e o gajo depois". Resultado: "Levei com ele nas costas." Aleijado, Garcês corria o risco de ser eliminado dos páraquedistas. Teve a ideia peregrina de contar ao capelão que era cantor e convencê-lo a formar uma banda, os Boinas Verdes. Ensaiavam na biblioteca e tocavam nas missas, nas festas dos oficiais e sargentos. "Tocávamos Roberto Carlos, o favorito em Tancos e coisas do Pepino Di Capri, muita 'azeiteirada'." Ao fim de três anos de páraquedista, Garcês estava indeciso entre ir para Angola, onde entretanto a mãe se fixara, ou ficar por Matosinhos. "O meu avô tinha uma fábrica de vassouras - por causa disso chamavam-me o 'Toninho Vassoureiro' - e queria que eu trabalhasse com ele." Por essa altura, encontrou um amigo saxofonista que tocava na banda Módulo Um, que liderada pelos filhos dos donos do Casino da Póvoa do Varzim abrilhantava as noites do salão nobre e precisava desesperadamente de um vocalista. "Resolvi impressioná-los cantando um tema da Cher - 'Sunny... yesterday my life was filled with rain', em jeito Aretha Franklin...". Quando se começou a atirar para o chão, no fim da performance, os elementos da banda, rendidos, ofereceram-lhe 500 escudos por noite.Durante seis meses cantou no Casino da Póvoa. Uma noite, o maestro Shegundo Galarza tocava na segunda parte e insistiu que lhe emprestassem a aparelhagem. "Os gajos foram-me chamar, que eu tratava do assunto." O Salão Nobre repleto, à espera de Galarza, Garcês não gostou da abordagem de Galarza. "Ele insistia, insistia. Às tantas, passei-me e mandei-o para aquele lugar..." Esqueceu-se que os microfones estavam ligados. "Tinha uma namorada, estudante médica, na assistência. Nessa noite perdi a namorada, cortou relações comigo."Em breve estava para surgir a "primeira grande cena" de António Garcês. A banda Pentágono perdera o vocalista, o conhecido "Very Nice" (Fernando Girão) e precisava de outro. Os Pentágono já tinham o seu prestígio. Acompanhavam Paulo de Carvalho e, por vezes, Fernando Tordo. Durante dois anos, Garcês passou a ser o "frontman" carismático e excêntrico dos Pentágono, um cabelo enorme "à Jimmy Capaldi", casaco de pele de lince sem mangas, botas brancas, contorcendo-se em palco, de um lado para o outro. Em 1971, tocaram no Festival de Vilar de Mouros, juntamente com Elton John e os Manfred Mann. A crítica falou em "melhor banda portuguesa" no festival e em "excelente cantor". Era a época das "vacas gordas" do antigo regime. "Lembro-me de tocar numa festa em Sintra em que alugaram camelos e os convidados tinham de ir todos vestidos numa onda árabe." Em 1971 tocaram na famosa Festa do magnata chileno Patiño, numa quinta de Colares, para um jet set onde se encontravam Sofia Loren e Omar Sharif.A seguir ao 25 de Abril, "os ricos bazaram para o Brasil" e os Pentágono procuraram, sem êxito, sobreviver com as festas de finalistas. Alguns músicos da banda decidiram ir para a ilha da Madeira, tocar num hotel.António ofereceu os seus préstimos aos Psico, uma banda conhecida pelas versões dos Yes, Deep Purple, Grand funk Railroad, Uriah Heep, Led Zeppelin. "Tocávamos em festas de finalistas em todo o país. Comprei duas carrinhas Austin e íamos para todo o lado. Tínhamos fãs que iam do Porto a Bragança só para nos ver."Tal como em outras ocasiões e outras bandas, aos Psico estava destinado um fim em grande. Tudo começou no dia em que Garcês, Toni Moura, o guitarrista e Sérgio Castro, o baixista (futuro Arte& Ofício e Trabalhadores do Comércio) decidiram ir a Londres ao Festival de Reading. "O Sérgio foi de comboio e eu fui de carro, com o Toni Moura e a mulher. Eu disse ao Toni: 'Toni, vocês vão mas têm de dividir as despesas comigo'. Chegámos ao ferry boat para Inglaterra, já não queriam pagar. Eu fiquei irritado mas paguei."Chegaram a Londres e ficaram a dormir dentro do carro, no bairro onde vivia a Princesa Margarida. "Apareceram dois velhos, muito simpáticos, a explicar que não podíamos ficar ali e a perguntar se queríamos tomar banho. Mal eles terminam de perguntar se queríamos banho, a fulana passa-nos à frente para tomar banho primeiro." Essa seria apenas a segunda desfeita."No festival, tínhamos combinado que eu pagava uma refeição e eles outra. Quando era a vez deles, nunca apareciam." A paciência de Garcês esgotou-se quando os viu aparecer a oferecer chouriço e pão a outras pessoas à sua frente. "Estavam a usar o meu carro, a minha tenda e ainda provocavam." No fim do festival, regressaram a casa dos velhos britânicos simpáticos para tomar banho. "A fulana vai outra vez a correr para a casa de banho para ser a primeira. Fui logo de pé na porta, ela a gritar 'mas o que é isto?'. Uma escandaleira..." Garcês pegou no carro e deixou-os em Inglaterra. "Bazei com tudo, man, fui ao hotel buscar o Sérgio Castro e disse-lhe: 'Já não vais de comboio'. O Sérgio todo contente, 'uau, vou de carro...'"Estava escrito que os Psico não durariam muito mais tempo. Sérgio Castro e Garcês formaram em 76 os Arte & Ofício, que incluía entre outras coisas um violinista clássico. "Ele fazia as melodias e eu as letras, cozinhávamos uma música muito estranha, tudo em inglês, super-influenciado pela onda inglesa da altura."Iniciar-se-ia um dos períodos mais intensos da vida roqueira de Garcês. Cabeludo, roupas compradas em Londres, botas grandes, vestia-se à imagem dos roqueiros britânicos da época e dirigia-se para os concertos num Porsche 911.No final dos anos 70, os Arte & Ofício desembarcavam nas terras com luzes, máquinas de fumos e uma máquina de fazer bolas de sabão, a cantar "Marijuana is the taste of love". António especializou-se nos mergulhos para a assistência. "Voava para o meio do público, o pessoal agarrava-me, tiravam-me as botas, a camisola e no fim do concerto, vinham-me trazer as coisas religiosamente..."Naquele tempo, conta, "havia uma devoção total à cena, vivia-se o momento. Muitas vezes pensei - agora é incrível pensar nisso - que seria fantástico morrer em palco." Ainda não existiam os copos de plástico para a cerveja. "Atiravam-nos com garrafas. Tínhamos um músico, o Fernando Nascimento, com um aspecto muito convencional, parecia um empregado de escritório. Estavam sempre a atirar-lhe coisas."Uma vez no Clube de Ténis de Portalegre, um grupo de fãs dos rivais Tantra começou a atirar objectos e a "mandar bocas". Garcês não esteve com meias medidas: "Tínhamos um bloco de fãs nossos à frente do palco. Eu disse: 'ouçam lá, aqueles gajos ali estão a precisar de levar nos cornos...'"Eram frequentes os distúrbios em restaurantes. Num restaurante de Portalegre, em 78, começou tudo por causa do peixe. Garcês, filho de Matosinhos, odiava peixe congelado. Serviram-lhe peixe em mau estado, não quiseram substituir-lhe o prato e convidaram-no a sair. Não esteve com meias medidas. "Convidei a malta a partir o restaurante. Só me lembro das mesas, cadeiras e pratos a voarem por todo o lado."Os elementos dos Arte & Ofício bebiam muito. "A nossa onda era mais vinho e fumar uns pirolitos... mas tínhamos uns roadies que 'chutavam', era uma miséria, deixavam-nos ficar mal..."Nas povoações onde tocavam, eram insultados pelos mais conservadores e defendidos pelos "hard-die fans", alguns dos quais morreriam de overdose. "Outros passaram-se e nunca ficaram bons da cabeça. Tínhamos um muito carismático, o 'Che Guevara', na Covilhã. Lembro-me que o encontrei anos depois, no Barreiro, trabalhava na construção e tinha perdido o gás todo..."O final dos Arte & Ofícios teria a ver com mais um incidente da vida "on the road". Uma noite de 79, a banda dirigiu-se a alta velocidade para um concerto em Portimão. Fernando Nascimento guiava demasiado depressa o Ford Granada que os transportava, o que irritou Garcês. "Fui numa tensão horrível, pedi-lhe diversas vezes para andar mais devagar." Chegado a Portimão, António Garcês tinha vontade de tudo menos de cantar. "À hora de começar o show, a sala cheia a chamar-nos e nós sem poder entrar em palco porque o baterista tinha ido comprar 'passa'". Os outros músicos, incluindo o pianista António Pinho Vargas, aceitaram que Sérgio Castro tocasse a bateria. "Eu disse: OK, mas quando acabar a tournée, saio da banda."Nos meados de 1980, Garcês apresentava os Roxigénio, uma banda de rock "pesado" em que pontificava o guitarrista Filipe Mendes, também conhecido como "Mendrix", por distorcer a guitarra como Jimi Hendrix. O álbum da banda saiu no fim desse ano, muito bem aceite por nomes da rádio como Luís Filipe Barros, Rui Morrison e Rui Neves.Poucos adivinhariam a conturbada gravação do lp. Tudo por causa de um baterista brasileiro. "Eh pá, a música terminava e o gajo continuava a tocar. Gostava de chamar a atenção sobre ele. Fomos gravar o disco, levou dois dias para gravar a parte dele e mesmo assim insatisfeito." O resto da banda teve de se contentar com 14 horas de estúdio. "Tivemos de gravar o lp sem letras estruturadas, tudo a seco. O que saísse ficava. Cantei uma vez, ficou. Disse para comigo: Ok, é rock, é emoção..." As coisas azedaram quando o engenheiro de som decidiu ligar os altifalantes para que Garcês pudesse ouvir os comentários pouco abonatórios que o baterista fazia à sua pessoa. "O gajo, enquanto desmontava a bateria, ia dizendo mal de mim à namorada esquizofrénica. Eu ouvi tudo e fui lá: 'Ouve lá, qual é o teu problema?' O gajo começou a insultar-me, a dizer que percebia de karate. Dei-lhe uma tareia, a namorada a bater-me com a mala nas costas..."Uma noite, em pleno Festival Só Rock, em Coimbra, Garcês lembra-se de ter "aviado umas canecas" em companhia de Luís Filipe Barros e de entrar em palco a "100 por cento". Num momento "high" do show resolveu atirar-se de cima das colunas de som e caiu mal. O pior ainda estava para vir. O público, em pleno boom do rock português, não gostou de o ouvir cantar em inglês e gritou: "Vai cantar para a América!" António resolveu responder à letra: "Ai é? uuuuuuuhhh" Despiu as calças, tirou tudo para fora e gritou: "A América está aqui!"No estádio encontrava-se o presidente da câmara. Vários fotógrafos eternizaram a cena. "Até me fotografaram o rabo." Foi investigado pela Polícia Judiciária: "Tudo a rir e a dizer, 'ouve lá, a gente diz que só viram as cuecas...'" A exibição custar-lhe-ia o casamento. Os Roxigénio terminaram em 83, depois de passagens agitadas por Aveiro e por Vilar de Mouros, em 82, no ano em que lá foram os U2. Em Aveiro, numa festa de finalistas, Garcês foi presenteado com vários copos de cerveja. "Avisei que podia ser electrocutado mas havia um gajo à frente do palco rodeado de miúdas e sempre a provocar. Como estávamos todos a tripar em ácido, de repente saí em voo e aterrei em cima dele e das miúdas. Só me lembro dele a chorar debaixo de mim e a dizer que só estava a brincar comigo. Levantei-me, o pessoal pegou em mim, colocou-me de novo no palco e o show continuou." Mais tarde, um dos seguranças resolveu bater em alguém que tinha subido para o palco. "Foi o fim do mundo. O palco foi invadido, o segurança levou uma tareia e por fim apedrejaram-nos o camião da aparelhagem. Tivemos de ser escoltados pela policía."Em Vilar de Mouros, os Roxigénio pouco conseguiram tocar. "O pessoal que estava no festival tinha dificuldade em conseguir tabaco, comprei uns maços e resolvi distribuir, atirar para a plateia." Ao fim de música e meia, a assistência invadiu o palco. Garcês "bazou".A crise económica dos anos 80 atingiu o mundo do rock português. António e Sérgio Castro ainda fundaram os Stick, em 84, gravando um lp em português. "Sempre vivera para cantar, daquela vez cantei para viver", recorda. Desiludido, em Fevereiro de 86 meteu-se num avião para Nova Iorque. Acabou a fazer molduras, telas e mesas de madeira durante o dia e a "curtir" à noite em Nova Iorque. "Um dia, às 8h da manhã, parei o Datsun 380 ZX para fazer uma linha de cocaína e disse para comigo: 'Há aqui qualquer coisa de errado, ou ganho juízo ou volto para Portugal'."Até que uma noite, providencialmente, entrou no Clube Maxwell's, em Hoboken, New Jersey, e conheceu aquela que daí a dois meses seria a sua esposa. Assentou, tirou um curso de engenharia, passou a trabalhar numa central eléctrica.O bichinho do rock foi mordendo ocasionalmente. Em 90, gravou um album em inglês em Espanha com Sérgio Castro e músicos espanhóis. Um flop. Três anos mais tarde, incentivado por um roadie de Bon Jovi, gravou outro disco e veio a Portugal bater à porta da BMG e do velho conhecido Tó Zé Brito.O agora executivo deixou-o uma hora à espera ("sem ar condicionado", como lhe fez notar a mulher, a comparar as instalações da BMG com as das editoras discográficas em Nova Iorque.) "As coisas mudaram, Garcês, estamos velhos, o pessoal já não quer ouvir o nosso som...", disse-lhe Tó Zé Brito. "O Tó Zé Brito que eu safara de levar na corneta na Trofa em 78, uma noite em que os Gemini, aquela banda de 'azeiteiros' tocou antes de mim... o público a querer assapar nos gajos porque nos queria ouvir a nós e o gajo a chorar: 'Eu sou amigo do Garcês...'" António levantou-se, aos berros em plena BMG: "Morreste na minha lista de amigos!" Regressou aos Estados Unidos zangado com Portugal. Passou a fazer umas jam sessions com músicos afro-americanos e a recusar-se a falar em português nos restaurantes lusitanos da costa este. Até que, há dois anos, um amigo português enviou-lhe uma cópia de uma PÚBLICA com um artigo a recordar o boom do rock português dos anos 80. Perguntava-se: "O que é feito de António Garcês?" O texto, confessa agora o cantor, tocou-o emocionalmente. "Eu li aquilo e disse: 'Uau, não fui esquecido, afinal Portugal não é só o Tó Zé Brito e os azeiteiros das editoras'".O mesmo amigo arranjou-lhe uma editora, a Numérica. Garcês veio gravar a Portugal temas da sua autoria, alguns na gaveta há muito, caso de "Como um herói", a balada do cd "Rio Abaixo". Tocou no Porto, em Cascais e em Lisboa. Na Fnac, no Norte Shopping, ainda bateu com o micro no tecto, como nos velhos tempos. "Que se lixe o estúdio, man, eu quero é tocar novamente ao vivo!" Fotografia: Miguel Silva