O Galopim dos dinossaur(i)os

Disse agora adeus às aulas e aos alunos, ao fim de 40 anos a ensinar, mas não ao Museu Nacional de História Natural, onde permanece como director. Antes da derradeira lição, Galopim de Carvalho falou-nos dele próprio, de como o seu nome é indissociável dos dinossauros por causa da luta pela preservação do património geológico e de uma exposição de robôs destes animais, e soube de pormenores prosaicos como a sua colecção de 43 gravatas. Ainda houve tempo para tomar nota de uma receita de peixe.

António Galopim de Carvalho, o geólogo, o pai e avô dos dinossauros, o defensor de pegadas e demais património geológico e paleontológico, o apologista da palavra dinossáurio, despediu-se das aulas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Deu a última lição, na quarta-feira, num anfiteatro a rebentar. Nascido em Évora a 11 de Agosto de 1931, licenciou-se em ciências geológicas em 1959, pela Universidade de Lisboa, onde também obteve o doutoramento em 1969. No momento da jubilação, à beira dos 70 anos, não se pode dizer que tão tenha o reconhecimento público, como prova a atribuição, em 1993, do grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada. PÚBLICA - As pessoas conhecem-no como cientista dos dinossauros. Mas a sua área científica nem é a essa, é a sedimentologia e a geomorfologia. Como foi o encontro com os dinossauros?GALOPIM DE CARVALHO - Os dinossáurios nasceram de uma estratégia para salvar a jazida de pegadas de Carenque, que em 1990 estava transformada numa lixeira. Convencemos a Câmara de Sintra a classificá-las como património local, quando surgiu a notícia de que a CREL (Circular Regional Exterior de Lisboa) ia passar por ali e destruir as pegadas. Aí começou a grande batalha para convencer a Brisa a fazer os túneis por baixo, o que só aconteceu em 1993 e onerou a obra em mais de um milhão e meio de contos. O dinossáurio é uma entidade mítica que está no imaginário dos jovens e dos adultos. É um fenómeno social, que envolve milhões de pessoas. Foi assim que consegui mobilizar a opinião pública. A exposição "Dinossáurios regressam a Lisboa" foi o que me deu a fama de pai ou avô dos dinossáurios. Quando me apresentam nas muitas conferências e palestras que dou, dizem que sou o grande especialista português de dinossáurios, alguns até como o especialista mundial. Não sou nada disso. Mas agarrei esta associação como uma estratégia para continuar a lutar pelo património. Em 1994, apareceu a pedreira do Galinha e houve esta feliz coincidência: o Guterres foi a Torres Novas, eu subi à tribuna e perguntei-lhe publicamente o que é que faria da jazida se fosse primeiro-ministro. Ele declarou que iria fazer tudo para a preservar. Fiz em Vendas Novas o curso de cadetes e oficial miliciano e tive a classificação de 10,002. Fiquei em oitavo - a contar do fim - num curso de 120. Quando fui colocado em Évora, havia um sargento que era amigo da minha mãe. Chamou-me: anda cá, Carvalhinho. O meu nome na cidade de Évora era Carvalhinho, que eu era pequenino. Mostrou-me a carta confidencial do comando de Vendas Novas para o comando em Évora, com uma espécie de currículo. Terminava com esta frase: "Não devendo nunca ser-lhe confiadas missões que exijam discernimento mental." Fui nomeado oficial da higiene e limpeza. Tinha de vigiar as cavalariças, as latrinas.