Caprichos de um vento errante

Esta podia ser a crónica de uma conquista, uma história com vencedores e vencidos, com heróis, mártires, príncipes e fadas. Mas afinal é a crónica de uma jornada infeliz, a notícia de um vento caprichoso que adiou a glória de uns e reforçou a esperança dos outros. O empate (1-1) da selecção portuguesa em Dublin é por isso o relato triste de um jogo que correu mal depois de ter corrido bem.António Oliveira tinha prometido raiva, encanto e surpresas. E a primeira parte teve tudo isso: a raiva de vingar Fernando Couto, o encanto de calar mais de 30 mil irlandeses (e todos sabem como isso é difícil) e as surpresas de Beto a médio-defensivo (posição, aliás, em que actuou pelo Sporting nas duas últimas jornadas do campeonato) e de Litos no eixo, ao lado de Jorge Costa. E foi assim, levada pelo vento que varria o Lansdowne Road a seu favor, que Portugal começou o jogo: Figo a desnortear Harte (bem dizia ele sobre o irlandês, que o ameaçara nos jornais pará-lo à força, ser mais fácil falar de futebol do que jogá-lo), Petit a apagar, destemido e prático, o grande Roy Keane, Frechaut, atento e atrevido, a abrir alas pela direita. E foi uma exibição soberba. Logo aos 5', Figo envolve dois ou três adversários na sua teia e remata à entrada da área, com espaço, mas a bola saiu um tudo-nada ao lado. A Irlanda penava contra o vento, que dificultava o seu jogo de bolas longas para Niall Quinn. À falta de melhor, os adeptos do "tigre celta" aplaudiam o jogo destrutivo da sua equipa.E assim iam as coisas: Portugal forte na defesa, com Petit (o melhor em campo) e Beto a roubarem trabalho a Jorge Costa e Litos; inexpressivo no meio-campo, com Rui Costa pouco exuberante e nada eficaz; e infeliz no ataque, pois Pauleta não desperta na selecção o instinto que o faz marcar golos em Bordéus. Era, contudo, mais do que suficiente para dominar um adversário cujo jogo não honrava o estatuto de líder do Grupo 2 de apuramento para o Mundial do Japão/Coreia.Poderia ter ficado tudo resolvido na primeira parte - e assim nem o vento faria mossa na segunda - se Figo não tivesse voltado a errar por uma unha negra um remate espectacular aos 15'; se Pedro Barbosa, aos 21', não se tivesse atrapalhado com a bola dentro da área de Given; se, no último e vibrante quarto de hora, o grande remate à trave de Rui Costa entrasse, Given não tivesse defendido um espectacular tiro de Pauleta e, pouco depois, o açoriano soubesse dar melhor destino a um passe de Rui Costa que o isolou na área da Irlanda, se...E depois, no recomeço, escreveu-se outra história. Roy Keane lançava a bola e ela sobrevoava os portugueses e ia parar à cabeça de Quinn, aos pés de Robbie Keane, via-se que aquilo poderia dar mau resultado. Ainda assim, começou bem para Portugal, com mais um fantástico remate de Figo, logo aos 47', a travar o entusiamo crescente nas bancadas. Mas foi quase só isso. Depois, a Irlanda deixou-se levar pelo vento errante, e o seu jogo começou a sair certinho, com Kinsella e Robbie Keane muito activos e perigosos. Aos 51', Ricardo defende um perigoso tiro de Kinsella. Logo a seguir, Petit rouba a bola a Robbie Keane, que se isolara. A Irlanda queria marcar, e foi por isso que Mick McCarthy substituiu Robbie Keane por Duff, refrescando o ataque. Tempos de aflição na defesa portuguesa, que, de tanto ter descansado na primeira parte, parecia não saber como reagir aos acontecimentos. Numa destas distracções, aos 65', Roy Keane recebe dentro da área um lançamento da linha lateral e faz o imerecido 1-0. Oliveira substitui Pedro Barbosa por Capucho, depois Rui Jorge por João Pinto, a 20 minutos do fim, e passa a jogar com dois avançados. McCarthy, nas encolhas, tira o segundo dos pontas-de-lança que começaram a partida (Naill Quinn) e faz entrar Holland para o meio-campo. E a Irlanda põe-se à espera dos portugueses. E fez mal, porque Figo gosta do terrenos minados, sabe contornar os obstáculos. E foi assim, com uma finta monumental, que ele começou a jogada que Frechaut havia de devolver, num centro por alto, para a sua cabeça. Estava feito o empate e havia dez minutos para jogar. Mas Mick McCarthy não quer perder e volta a estender o jogo com a entrada de Doherty para a frente do ataque. Portugal está mais afoito, mas também prudente. O empate não dava para liderar o grupo, mas não comprometia a prometida viagem ao Oriente.