O horror aos melhores ou a inutilidade da escola

O primeiro-ministro e o ministro da Educação falam do sistema educativo como se este fosse bom e estivesse no caminho certo. Não é bom nem está no caminho certo. O sistema educativo continua a ser uma máquina de idiotização do país.É o pior sistema educativo da Europa, como mostram todos os indicadores e os portugueses verificam à vista desarmada. Por isso, o Ministério foge às avaliações nacionais e internacionais. Mas, por vezes, não consegue evitá-las e foi assim que recentemente se soube que também no domínio das línguas estrangeiras somos os últimos na Europa (ver PÚBLICO de 20 de Fevereiro). Quanto ao ensino da Matemática e da Física já se sabe que as "pontes" caíram e, ai de nós, continuam a cair.O sistema não pode estar no caminho certo porque as ideias que o dominam estão erradas. São restos de ideologia que enxertam, aliás, num velhíssimo traço estruturante da sociedade portuguesa que é imperativo enfrentar em todos os domínios: o horror aos melhores. É este o fundo da questão.Os militantes do "eduquês" não querem avaliar e, portanto, distinguir os melhores porque, para eles, o mérito pessoal não existe: para eles, só existem as circunstâncias, que traçariam fatídica e inexoravelmente o destino de cada um. Confundindo muitos professores e pais, procuram mesmo, de forma insidiosa, diminuir os melhores, remetendo para a situação social das famílias a única razão do sucesso. Isto é evidentemente falso e agride o valor do trabalho, da responsabilidade, do mérito pessoal, essência da verdadeira e fecunda pedagogia.É por isso que este Ministério da Educação tem horror às notas, às classificações e aos "rankings". Para ser coerente, porque não manda o titular do Ministério ocultar também, nas pautas de cada escola, as notas dos melhores alunos?As concepções pedagógicas reinantes são restos das que, no decurso dos anos setenta e no início da década de oitenta, se verificou serem incapazes de promover a mudança social e económica, de tornar a sociedade mais igualitária, originando, pelo contrário, crescimento económico lento, persistência das desigualdades, exclusão social.O resultado dessa verificação - a que o sistema português, sob o domínio dos "especialistas" dessa geração, continua a fechar os olhos - foi a formulação em vários países de novas prioridades, nomeadamente procurar formas de melhorar a eficácia das escolas enquanto se controlavam os custos. Acima de tudo procurou-se promover a excelência e elevar o padrão de exigência, um processo de que beneficia a sociedade inteira. Assegurar a qualidade e a competitividade foi o mote das políticas educativas nas sociedades mais desenvolvidas, lançando-se programas internacionais de estudo e avaliação dos sistemas. Os tais programas a que o nosso Ministério da Educação, sempre que pode, quer fugir.A tentativa de igualização nas escolas e das escolas é um enorme logro. A ideologia subjacente diz que não quer a discriminação, mas acaba, na prática, por a promover. Ao baixar os padrões de exigência e qualidade, condena os mais desfavorecidos à sua "sorte". Apregoa que não quer a exclusão, mas acaba de facto por a fomentar, uma vez que o laxismo na educação afecta muito mais os pobres do que os ricos. Os pobres teriam na escola a oportunidade privilegiada de adquirir os conhecimentos, os valores e as atitudes que permitem a integração social e o sucesso honesto. Torna-se necessário, como os professores há muito reclamam, proporcionar condições suplementares de aprendizagem aos que delas carecem para vencer desvantagens iniciais. Quer dizer, é preciso nivelar por cima em vez de nivelar por baixo.A ocultação dos resultados das avaliações (que devem ser devidamente analisados, interpretados e levados em conta) traduz-se na protecção da mediocridade, da incompetência e da preguiça. Traduz-se na injustiça para com os que se esforçam e dedicam. E a revelação desses resultados é, de resto, um direito indiscutível da sociedade que paga o sistema. É um direito de todos nós.Tudo isto é hoje muito óbvio, excepto para a cegueira, negada pela história e pela realidade, a que o actual titular do Ministério da Educação parece ter-se convertido ou rendido. Não tem uma única palavra ou gesto de reacção contra a máquina. Defende o que é indefensável.O bom exemplo eleva, o mau exemplo degrada. Não será este, embora expresso com singeleza, o sentido da palavra educar? Não são decerto as escolas que não querem reconhecer, apreciar e honrar o mérito, a qualidade e o esforço pessoal. Bem pelo contrário, como mostra a experiência (quase receosa, repare-se) de introdução de prémios escolares pela Escola Secundária Camilo Castelo Branco (ver PÚBLICO de 11 de Março). Divulgou o Ministério da Educação esse bom exemplo? Que prémios escolares para alunos, professores ou escolas o Ministério instituiu ou simplesmente aplaudiu?O que revolta as crianças e os jovens e, felizmente, cada vez mais professores e famílias é a injustiça, a ausência de sentido, a inutilidade da nossa escola, de muito do que diariamente aí é oferecido e pedido. De que serve o esforço que não é reconhecido nem recompensado? Quem não quer ser cúmplice da asfixia, da inteligência e da vontade das crianças e jovens portugueses?É urgente que o sistema educativo responda aos sinais da mudança que, induzida pela abertura europeia (não só na ciência e na tecnologia como também nalguns sectores das artes, da economia, etc.), começa a manifestar-se na sociedade portuguesa. Quem tem a coragem de desligar a máquina?Guilherme Valente é editor da Gradiva e Carlos Fiolhais é professor de Física na Universidade de Coimbra