A dança de Keersmaeker em três etapas

Assumindo uma ideia de programação em que a dimensão artística e comunicativa das obras se associa a uma importante dimensão pedagógica, a Culturporto, com o apoio da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, promoveu um significativo evento dedicado ao trabalho da coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker. Podemos designar este evento por ciclo dado que as obras apresentadas ao vivo - "Rain" (dias 18 e 19), "Drumming" (dia 20) e "I Said I" (dia 23) -, a que se acrescentam as seis apresentadas em vídeo (nos dias 21 e 22), deram uma visão bastante alargada do percurso da coreógrafa, mostrando como as obras dialogam entre si e como o trabalho de De Keersmaeker se desenvolve a partir de um retomar, sob novas formas e a partir de novas complexidades, de temas, ideias ou pequenas frases coreográficas trabalhadas anteriormente. Neste sentido, para além de favorecer a reflexão sobre o trabalho da coreógrafa, o ciclo revelou uma preocupação formativa extremamente importante que se estendeu ao cuidado extremo colocado na feitura dos programas escritos que acompanharam o evento (que incluíam excelentes textos traduzidos), e à realização de um workshop (a decorrer até ao dia 28) dirigido por uma professora e ex-bailarina da Companhia Rosas, Samantha Van Wiffen, aberto a bailarinos profissionais e pré-profissionais.Falemos agora sobretudo de "I Said I" e "Rain", obras apresentadas no Porto em estreia nacional, sendo que a primeira pode ainda ser vista na sexta-feira e no sábado, em Lisboa, na Culturgest, às 21h30. Mas falemos delas, dialogando com outras obras que lhe estão próximas, pois, sublinhe-se, a própria Anne Teresa fá-las interceptarem-se.O ponto de partida de "I Said I", obra estreada em 1999, é o belo texto de Peter Handke, intitulado "Auto-acusação", que elenca exaustivamente as etapas do processo de socialização do indivíduo desde que nasce, começando pela aprendizagem das coisas e pela capacidade de nomeação de si próprio, até aos processos de questionamento dessas aprendizagens, passando pelas transgressões das regras e interdições e decorrentes processos de culpabilização. O texto é dito pelos bailarinos, mas raramente a coreografia e a encenação se interceptam. Cada um destes elementos preserva alguma autonomia, muito embora o dizer do texto seja coreografado e o movimento incorpore o sentido daquele (ver caixa nesta página).Não é a primeira vez que Anne Teresa De Keersmaeker convoca o texto para cena. Para dar um exemplo mais próximo, já em "In Real Time", obra de 2000, vista no mesmo ano no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o texto era um elemento central, conservando uma relativa autonomia relativamente à dança. E também como aqui, a abundância de elementos é preponderante em "I Said I". A saber, a música, interpretada ao vivo, de vários compositores, entre os quais, Luciano Berio, Anton Webern, Johannes Brahms, ou a do dj Grazzhoppa, e a cenografia, de Jan Joris Lamers, constituída por uma profusão de objectos que inundam a cena - uma bancada em madeira desmontável, cadeiras, baldes e alguidares de plástico, mantas.O comedimento e a privilegiada relação entre dança e música que Anne Teresa atesta desde a sua obra de revelação - "Rosas danst Rosas", criada em 1983 e apresentada em versão para filme em 1997 (exibida na sessão de vídeos, no Rivoli) - regressa em "Rain", a última criação (Janeiro de 2001) da coreógrafa. Contudo, um sedimento textual de "In Real Time" perpassa em "Rain" - uma história da escritora neozelandesa Kirsty Gunn, que fala da reanimação dos corpos através da respiração. É o movimento vital da respiração que parece, de facto, agir sobre a dança circular e espiralada de "Rain", no sentido em que todos e quaisquer movimentos dos bailarinos são consequência uns dos outros. Esta organicidade diz respeito não só aos movimentos do corpo individual como aos que estabelecem relações entre os corpos - os movimentos soltos dos braços conduzem os saltos; as paragens são suspensões ou desacelerações; um toque de um bailarino no outro é suficiente para desencadear o movimento deste último. Num trabalho depuradíssimo, sobre a partitura "Music for 18 Musicians, de Steve Reich, Anne Teresa retoma, no que diz respeito à composição, o trabalho complexo de exploração em profundidade e de desmultiplicação de pequenas unidades do movimento, também anteriormente realizado em "Drumming" (1998), sobre música do mesmo compositor.