Longa-metragem de Pedro Costa arrecadou três galardões

«No Quarto da Vanda» melhor filme do Festival Luso-Brasileiro

Durante dois anos, Pedro Costa filmou Vanda, no seu quarto
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Durante dois anos, Pedro Costa filmou Vanda, no seu quarto DR

O 3º Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, que terminou ontem, elegeu como melhor filme "No Quarto da Vanda", do realizador português Pedro Costa, que conquistaria ainda o Prémio da Crítica e o Prémio dos Cineclubes.

"No Quarto da Vanda" é um filme-documentário, que partiu de uma das intérpretes de "Ossos", o anterior filme de Pedro Costa. Uma noite, quando as filmagens termiraram, Vanda disse ao realizador português que o cinema não podia ser só isso, podia ser mais natural e menos cansativo, se Pedro Costa a filmasse simplesmente. A premissa estava dada para o que viria a ser um retrato incómodo e devastador da vida no limiar da condição humana.Durante dois anos, Pedro Costa filmou em vídeo o quarto da Vanda, no Bairro das Fontainhas, em Lisboa, antes da sua destruição. Filmou a Vanda, a irmã, os amigos, as casas e ruas vizinhas, como um fantasma de câmara na mão, que só parava de filmar quando as imagens transcendiam o limite do filmável. Não existiu qualquer guião, nem ideias pré-concebidas; Pedro Costa limitou-se a filmar a vida de Vanda, no seu quarto, sem política, nem moralidades.
"Comecei a ver como o bairro entrava e saía do quarto da Vanda. Comecei a ver que era possível filmar algumas coisas: a mentira que lançaram sobre aquele lugar, a repressão, a exploração, a pura tentativa de genocídio, o castigo imposto pela droga, que não é uma doença como alguns querem fazer crer... E ver como as pessoas resistem à violência e se armam emocionalmente. É preciso ser muito forte e muito frágil ao mesmo tempo, para aguentar tanto: ser fraterno e frio como o gelo. Fazemos filmes para ver se nos orientamos, literalmente. Para ver se, no fim, como diz a Vanda, conseguimos começar a amar alguma coisa", explicou o realizador português ao semanário "Expresso".
O filme foi muito bem recebido pela crítica, tanto em Portugal como no estrangeiro, e foi agora distinguido com mais três galardões, depois da menção especial no Festival de Locarno.
O júri do Festival Luso-Brasileiro distinguiu ainda a estreante Diana Costa e Silva, pelo seu desempenho em "Duplo Exílio", de Artur Ribeiro (recentemente estreado nas salas) e o brasileiro Claudio Jaborandy, pela sua interpretação em "Latitude Zero", de Toni Venturi.
O prémio revelação foi atribuído a "Tolerância", do brasileiro Carlos Gerbase, e o Prémio do Público a "Cronicamente inviável", do também brasileiro Sérgio Bianchi.
Nas curtas-metragens, o vencedor foi "O Sandwiche", de Jorge Furtado. Duas curtas portuguesas foram também distinguidas - "Boris e Jeremias", de Pedro Caldas, arrecadou o Prémio da Crítica, e "Sem Movimento", de Sandro Aguilar, recebeu uma menção honrosa.