A feitoria portuguesa na Flandres e Manuel Cirne

A feitoria régia portuguesa na Flandres foi criada na cidade de Bruges (Martim Gonçalves foi o primeiro a usar o título de feitor do rei de Portugal entre 1456 e 1465) e tinha funções comerciais e políticas. O cargo de feitor foi um posto de confiança do rei, em particular no primeiro quartel do século XVI, e, por isso, os feitores eram frequentemente escolhidos entre a nobreza, em resultado de funções desempenhadas anteriormente ao serviço real, sendo grande o seu prestígio. Sobretudo em Antuérpia, cidade para onde a feitoria se iria deslocar (cerca de 1500, mas oficialmente apenas confirmada em 1511), seriam também diplomatas, pois representaram Portugal junto do imperador da Alemanha. A cosmopolita cidade brabantina era, para além de local privilegiado para as trocas comerciais, um ponto a partir do qual os feitores, bem integrados na cidade e na região circundante, podiam enviar informações importantes para a Coroa, sobretudo, e, dada a especificidade do cargo que desempenhavam, no que se refere ao mercado das especiarias.Alguns dos feitores em Antuérpia, como Tomé Lopes (1498-1505), tiveram uma carreira notável: foi embaixador junto do imperador Maximiliano de Áustria (1509-1511) e, posteriormente, no Brabante (1515-1516). Outros, caso de Francisco Pessoa (1517-1529), foram personagens medíocres e Dürer chamava-o de "pequeno feitor". Rui Fernandes de Almeida teve uma carreira que revela a burocracia emergente do Estado absoluto, tendo ocupado sucessivamente as funções de tesoureiro (1512) e escrivão (1517), sendo finalmente feitor em 1527. É no período de Antuérpia que surgem três feitores do Porto, todos aparentados entre si, facto esse demonstrativo da importância crescente do burgo no trato comercial com a Flandres e das estratégias de união entre os diversos núcleos familiares que o controlavam. O primeiro deles, João Brandão Sanches, exerceu o cargo por duas vezes (1509-1514 e 1521-1526). Membro de uma das mais importantes famílias portuenses da época, que viu a sua fortuna ligada ao importante cargo de Contador Real no Porto, desempenhou a sua missão de forma faustosa e o rei enviava-lhe produtos da Madeira, a fim de abrilhantar as festas e recepções dadas na feitoria. Era um homem culto, com numerosas relações artísticas, nomeadamente o pintor alemão Dürer; a sua filha Maria Brandoa foi a heroína de uma das mais notáveis obras da literatura portuguesa, a écloga Crisfal de Cristóvão Falcão. Também uma figura de primeiro plano da nossa cultura, o humanista Damião de Góis, trabalhou na feitoria durante o período do seu serviço.Posteriormente, porém, a feitoria portuguesa viveu uma época de declínio. É neste ambiente menos próspero que surgem, primeiro Francisco da Rua (feitor provavelmente entre 1529 e 1532), membro de uma família de ricos mercadores, filho de Maria Anes da Rua, "a Fermosa" e do seu segundo marido João Domingos Moniz, que morou na actual Rua da Fonte Taurina, e, finalmente, o célebre Manuel Cirne, filho do primeiro casamento da "Fermosa" com João Cirne, portanto meio-irmão de Francisco da Rua. De sua mãe herdou uma grande fortuna, que foi aumentada pelo seu serviço na Flandres, onde se calcula que terá ganho cerca de 200.000 cruzados, quantia enorme para a época.Manuel Cirne nasceu no Porto a 3 de Novembro de 1489, e aí morreu a 17 de Abril de 1567. Casou por duas vezes, ambas com sobrinhas, Isabel e Filipa, do seu antecessor na Flandres João Brandão Sanches. Foi feitor de Portugal em Málaga, na Andaluzia e provedor-mor da Fazenda em Mazagão, onde se distinguiu pelo recrutamento de soldados para as praças de Marrocos e, por carta de 5 de Fevereiro de 1537, foi nomeado feitor da Flandres por três anos. Embora o seu mandato tenha sido curto, o mesmo não se pode dizer da sua reputação, que se ficou a dever à sua opulência, aos gastos fabulosos, cujos ecos chegaram até hoje. Gostava de ofuscar, com a sua magnificência, os outros feitores em Antuérpia, e o genealogista Alão de Morais conta-nos o episódio das fogueiras de canela ardendo na rua para iluminar o imperador Carlos V e o seu séquito, por ocasião do banquete oferecido por este em Bruxelas ao embaixador D. Pedro de Mascarenhas e que ficou famoso na Europa da época: "...fez q pelas Ruas da Cidade ardessem fogueiras de canella e deu muita co que se guizarão as iguarias daquelle famoso convite...". Daí o terem apelidado de magnífico: "... muito magnifico e muito conhecido pela sua nobreza e condição..." e, segundo uma tradição pouco verosímil, as armas dos Cirnes, que ostentam um cisne (em português antigo cirne), foram-lhe concedidas por Carlos V no seguimento desse acto de soberba liberalidade. Sabe-se também que, ainda na Flandres, pagou a quantia de 300 ducados de ouro ao famoso médico cristão-novo Amato Lusitano, que o curou de uma febre causada, ao que parece, pelo excesso de trabalho.No entanto, Manuel Cirne, embora esbanjasse fortunas numa época em que os negócios da feitoria já não eram muito rentáveis, não se esquecia das carências do seu país e particularmente da sua cidade natal, o Porto, onde tinha uma casa localizada no início da Rua Nova, junto da capela-mor da Igreja de S. Francisco, que teve a particularidade de ser a primeira habitação privada da cidade a ter água encanada, originária do vizinho convento franciscano. No ano de 1539, tendo conhecimento da fome que grassava entre a população portuense, ordenou que seguissem para o Porto oito navios carregados de trigo, oriundos de Inglaterra e da Flandres, a fim de socorrer o povo faminto. Juntamente com os navios, chegou uma missiva dirigida à vereação da cidade, que dava instruções para que os cereais fossem vendidos pelo preço que se considerasse justo ou, se as necessidades assim o exigissem, por um valor inferior ao real. Este gesto nobre, porém, não teve seguimento, tendo os agentes de Manuel Cirne deturpado as suas ordens. Obcecados pelo lucro, especularam nos preços do trigo, venderam-no a quem acharam por bem, sobretudo a uma clientela de parentes, amigos e dependentes do feitor e, com o restante, atulharam os armazéns ribeirinhos. A carta então enviada ao Concelho do Porto ainda hoje se conserva nos Livros de Vereações existentes no Arquivo Histórico Municipal do Porto e revela-nos um aspecto menos conhecido da personalidade de Manuel Cirne, altruísta e previdente. Outra sua carta é conhecida e mostra-nos o diplomata, quando, já depois de ser feitor, escreveu de Antuérpia a D. João III, versando as negociações entre católicos e protestantes em Worms. Nela se refere também um episódio muito falado na Europa da época, a prisão de Thomas Cromwell, à ordem de Henrique VIII de Inglaterra, e o abandono por este último de Ana de Cléves, para se casar com Catarina Howard, então já grávida: "e que anda ja prenhe". Regressado da Flandres, Manuel Cirne comprou em 1539 o concelho de Refoios de Riba d'Ave (Agrela) ao conde da Feira, e daí prosseguiu com os seus interesses comerciais, sobretudo no que se refere ao trato de especiarias, tendo negócios com alguns dos maiores nomes do grande comércio europeu. Morreu no Porto com 74 anos e foi primeiramente sepultado na capela-mor do Convento de S. Domingos, que tinha arrendado por 50.000 reais anuais para sepultura sua e de seus descendentes, mas, em 1594, o seu filho João Cirne trasladou-o para a Capela de Nossa Senhora da Guia na paróquia de S. Pedro da Agrela.Diferente na vida como na morte, era tradição que Manuel Cirne se tinha feito enterrar, sentado em cadeira de espaldar, com o seu estoque e a comenda da Ordem de Cristo. Em 1925, por motivo de obras na igreja, a campa foi aberta e descobriram-se, entre os restos mortais, fragmentos de espada e de madeira exótica. Na sepultura rasa estão esculpidas as armas dos Cirnes, das mais belas de toda a heráldica portuguesa, com o cisne e sete estrelas de ouro que, ainda segundo Alão de Morais "... dão a entender q sempre o eco e as estrellas favoreceram as suas emprezas ao primeiro que as ganhou...".Aluno do curso de Arte da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa do Porto