Luís Miguel Cintra tece duras críticas a Sasportes

"Desastrada". Foi assim que, após receber na quarta-feira à noite o Prémio Almada - um dos mais altos galardões para as artes de palco em Portugal -, Luís Miguel Cintra, o director do Teatro do Bairro Alto, fez questão de recordar a intervenção do actual ministro da Cultura, José Sasportes, no processo de atribuição dos subsídios para 2001 destinados a actividades de iniciativa não-governamental. Mais: depois de recusar pela segunda vez assumir a direcção do Teatro Nacional D. Maria II (numa conversa privada com o ministro, como explicou ao PÚBLICO), o encenador deixou bem claro em frente à plateia da Cornucópia estar a aceitar o prémio apenas por saber que a sua atribuição se deve à equipa dirigida por Ana Marín que, na sequência desse processo, acabou por se demitir do Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE). "Obrigado, Ana Marín. É por sua causa e dos que consigo trabalharam que me é grato receber este prémio. Oxalá o novo IPAE consiga estar à altura", despediu-se Luís Miguel Cintra, após um discurso longo em que não poupou palavras duras e foi focando, ponto por ponto, as questões que têm estado no centro das preocupações manifestadas sobretudo pela comunidade da dança e do teatro nos últimos três meses - desde a polémica revogação da homologação dos já mencionados subsídios. A sala estava cheia. Pouco antes das 21h30, como planeado, Sasportes chegara com vários membros da sua equipa para assistir à peça "A Morte de Empédocles", que o Teatro do Bairro Alto tem em cena e após a qual o ministro decidira proceder pessoalmente à entrega dos prémios Almada e Ribeiro da Fonte. No momento do discurso de Luís Miguel Cintra, Sasportes já entregara o Prémio Revelação Ribeiro da Fonte ao bailarino e coreógrafo Miguel Pereira, bem como ao representante do actor João Pedro Vaz. Estava no palco, de costas para a plateia, que acabou por explodir em aplausos. "Acho que teríamos ficado meia-hora a aplaudir não fosse a recordação de que faltava dar o prémio a Armando Nascimento Rosas [ex-aequo com João Pedro Vaz]", esquecido por uma equipa certamente tensa, explicou ao PÚBLICO a bailarina e coreógrafa Vera Mantero, que classifica como "extraordinário" o momento do discurso de Luís Miguel Cintra. "Não falo com o Cintra. Não o conheço pessoalmente mas pedi [a um dos actores da companhia] para lhe dizer obrigado, que agradeci. Ele tocou em todos os pontos fundamentais. Neste momento continuo sem saber qual é a política do ministro. As poucas luzes que temos não indicam nada de bom. Mas não sabemos."Mantero fala de um silêncio, e ele perpetuou-se nessa noite. Sasportes não chegou a tomar a palavra, mesmo tendo Cintra sublinhado a necessidade de "uma declaração clara de intenções para a sua política teatral" face à existência, até agora, apenas de "afirmações dispersas cuja coerência é difícil de apanhar". Sasportes não falou, mesmo ante a acusação de não se sentir da sua parte "nenhum entusiasmo pelo trabalho dos criadores portugueses". Quanto a esse entusiasmo, ele é a origem da comparação que Cintra acabou por fazer entre o actual e o anterior ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, autor, na sua opinião, de uma actuação "essa sim coerente no seu entusiasmo pela responsabilização do Estado no desenvolvimento das actividades culturais". "Concordo absolutamente", explica Mantero. "O ministro Sasportes parece estar a fazer tudo para que admiremos cada vez mais o ministro Carrilho. Era muito mais sério, consistente, aberto", isto comparado com um ministro, na sua opinião, "retrógrado e dinamitador". Miguel Pereira, que nem há uma semana regressou da Alemanha, onde esteve em trabalho durante cerca de quatro meses, reitera as explicações de Mantero relativas a Carrilho. "Enquanto foi ministro foi bastante criticado mas, agora, passou a ser visto como um herói, uma pessoa que fez um trabalho fantástico". Quanto a momentos concretos da actuação do actual ministro, não faz comentários. "Não posso estar a falar de uma coisa que não vivi, que só li e sobre a qual ouvi", explica. No entanto, destaca a importância das palavras de Cintra. "Foi muito importante ele ter feito aquela intervenção. Acho fundamental que as pessoas estejam alerta". Qual teria sido a sua reacção se fosse a actual equipa do IPAE a atribuir-lhe o prémio que nesse dia recebeu? "Não posso fazer previsões, porque não sei sequer se me teriam atribuído o prémio".