Michael Ondaatje

Em entrevista exclusiva, Michael Ondaatge, escritor culturalmente "mestiço", celebrizado pela adaptação ao cinema do seu livro "O Paciente Inglês", apresenta o seu último romance, "O Fantasma de Anil", com publicação em Portugal prevista para Outubro. Onde fala de guerras esquecidas, como a do seu país, o Sri Lanka. Uma semana depois de os Tigres de Libertação do Eelam Tamil terem posto fim a um frágil período de paz.

Tem a envergadura de um marinheiro solitário, traços avivados por uma barba branca e pelo cabelo desalinhado, que herdou da sua origem holandesa. Possui um peculiar sentido de humor e um irremediável ar de bonança. Aos 58 anos, o escritor canadiano Michael Ondaatje, nascido no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka, e educado em Inglaterra, deve a popularidade da sua escrita sobretudo ao êxito de um filme: a adaptação por Anthony Minghella de "O Paciente Inglês", galardoada com nove Óscares. "O Fantasma de Anil" ("Anil's Ghost", no original, adquirível em <www.randomhouse.com>, ao preço de $25.00), o seu mais recente romance, lançado em Abril de 2000, já recebeu os prémios Medici, Giller e Governador Central. A Portugal, chegará em Outubro próximo, com a chancela da Dom Quixote."Conheço o Brasil, mas desconheço o seu país", desculpa-se ao MIL FOLHAS, numa entrevista exclusiva para Portugal. Mas Ondaatje é um homem que tem memória: mais, que a quer conservar. Esta é a sua única militância: a de lembrar o conflito do Sri Lanka (ver caixa), onde Anil, uma antropóloga forense ao serviço das Nações Unidas se une a um catedrático de arqueologia e, entre restos históricos, com ele encontra caveiras recentes. É esta a trama do livro de um escritor que insiste em recordar as guerras esquecidas: as mais duras, mais bárbaras, onde o luto é impossível por não haver corpos para chorar. "Como em Timor Leste", assinala Michael Ondaatje, os olhos de sono do "jet lag" e a pedir ajuda para compreender como num hotel de luxo madrileno se encomenda um café que o seja: "Ah! Expresso", congratula-se.Nasceu no Sri Lanka de uma família de origem holandesa, foi educado em Inglaterra e vive no Canadá. Sente-se um apátrida?Sinto-me em casa no Canadá, como também me sinto em casa no Sri Lanka, tendo afinal duas casas, dois lares. Este é um hábito dos escritores da minha geração e acontece cada vez mais. Vivemos no tempo da emigração, dos asilos, e eu integro-me nele, embora não tenha sido obrigado a ir-me embora do Sri Lanka. Mas, de facto, posso considerar-me um mestiço.A sua experiência foi feita de várias influências, das culturas mais diversas e dos hábitos mais contraditórios. Este choque aparece em "O Fantasma de Anil"?No livro há uma revolta. Anil regressa ao mundo da sua juventude, ao Sri Lanka, após viver muito tempo no Ocidente. Há um choque de valores que, aliás, é um dos problemas do tempo actual, a contradição entre progresso e tradição. Anil regressa com uma tarefa específica - a de como antropóloga forense investigar assassinatos políticos - e tem como colaborador um arqueólogo indicado pelo governo. Ambos se dão conta do perigo que representa uma investigação deste tipo num país como o Sri Lanka.Quando regressou ao Sri Lanka, após anos de ausência, sentiu o mesmo choque?O meu regresso às origens nada tem a ver com o de Anil. Não quis escrever um livro de memórias, mas é bem verdade que quando regressei, em 1978, me senti prisioneiro da minha memória. No livro "O Fantasma de Anil", tentei afastar-me dessa vivência pessoal, embora permaneça algo, é inevitável, da experiência que tive há vinte anos. Foi propositado o facto de o protagonista ser uma mulher. Foi uma forma de tentar escapar a essa tentação, no fundo um meio de defesa perante os assaltos da minha memória.Depois de "O Paciente Inglês" volta a escolher uma guerra como cenário da narrativa. Mas este é um conflito diferente do da Segunda Guerra Mundial. É uma guerra não oficial, como diz, mas tão bárbara como os mais bárbaros conflitos.A guerra fornece sempre um bom material literário desde que se descreva como sofrem os civis, o que muda nas suas vidas, como as pessoas se adaptam a um quotidiano difícil. O livro começou como uma obra específica, mas, tendo a situação do Sri Lanka como pano de fundo, transformou-se num livro sobre as guerras esquecidas pelo Ocidente, que desses conflitos apenas refere as bombas e o exotismo oriental. Apesar de continuarem os conflitos gostei de regressar ao Sri Lanka. O mais estranho naquele país é que o podemos amar por ser muito humano. Por exemplo: apesar de todas as desgraças, de muitos problemas, dos conflitos continuarem, as pessoas, como na Irlanda do Norte, não perdem o sentido de humor.Que também pratica...Gosto muito de uma boa piada. O tipo de humor do livro "Running in Family" ainda é válido no Sri Lanka, apesar da guerra. No entanto, a verdade sobre a realidade das guerras só a partir de agora vai ser conhecida. A propaganda e os artistas simplificaram muito as coisas e, no caso de "O Paciente Inglês", tratava-se da Segunda Guerra Mundial, um conflito onde está perfeitamente definido quem é o bom e o mau. Agora, este tipo de guerras que descrevo em "O Fantasma de Ani" é muito mais complexo, e é imoral ver as coisas apenas de um único ponto de vista. O que narro aconteceu no Sri Lanka, mas é aplicável a outras realidades, à Bósnia ou à América Latina. São guerras em que por vezes é muito difícil distinguir quem tem razão - provavelmente todas as partes estão erradas. E é praticada uma violência sem rosto, a pior de todas, que nem permite o luto.Se "O Fantasma de Anil" serve para manter na memória as guerras esquecidas, como autor assume uma denúncia?Não me incomoda que o que escrevo seja interpretado de forma muito mais simplista, se for considerado apenas do ponto de vista político. Quando se escreve sobre uma situação complexa de uma forma complexa, corremos o risco de não atingir o público. É claro que neste livro existe uma denúncia, claro que há protesto, mas também existe uma recordação que não devemos esquecer: aqueles anos [final da década de 80] foram muito maus, a realidade actual ainda o é. Isto é memória, o protesto simples é outra coisa. Isto é recordar essas guerras esquecidas, que acontecem sempre longe, que são desconhecidas pelo Ocidente, como aconteceu com Timor Leste. Mas o mais grave no Sri Lanka é que este é um país gerado por uma verdadeira máquina de guerra.A crítica assinala que "O Fantasma de Anil" é menos denso do que "O Paciente Inglês". Qual é a sua opinião?Os críticos dizem que a linguagem é mais simples, mas a mim este livro deu-me muito trabalho. Talvez seja da idade ou talvez esteja a crescer como escritor, mas na verdade não pretendi escrever uma história simples. Se assim o é, aconteceu por acaso. A mim pareceu-me mais difícil, pelas personagens que não são do mundo ocidental, pelo sítio, pela localização e pelas situações.Diz que quando começa a escrever um livro não parte de uma ideia definida, mas que vai associando imagens.Assim é. Tenho as ideias, os estados emocionais, os prazeres, um esboço das personagens, mas não sei que história vai finalmente aparecer. Começo sempre com um local e um tempo e, então, muito lentamente aparecem as pessoas, os personagens, as suas ligações, até se tornarem em protagonistas. É um trabalho como o do arqueólogo: ir retirando areia e limpando até desenterrar o personagem.Como se sente um mestiço quando o apelidam de escritor canadiano?Não existe qualquer problema, sinto-me em casa. Há pelo menos uma boa dezena de escritores canadianos que não nasceram no Canadá. O que interessa sublinhar é que podemos "estar" no Canadá mesmo se nascemos fora, se viemos de longe."O Paciente Inglês" foi um filme de sucesso que levou muita gente a ler o livro e a conhecer a sua obra. Como foi a sua relação com o filme?Esperava o pior, mas tive muita sorte. Em primeiro lugar, o livro era difícil, mas o produtor e o realizador, Anthony Minghella, gostam de livros, são ambos grandes leitores. Claro que mudaram coisas: a história do filme era a mesma do livro, mas a estrutura era claramente diferente. Fizeram melhor - se não o tivessem conseguido, o filme não teria sobrevivido. Trabalhei muito com o Minghella, embora não tenha escrito qualquer guião, apenas fiz uns quantos esboços e acompanhei de perto a rodagem.Dizem que é tímido com a imprensa, distante...... Eu, tímido?! Não se trata de timidez, mas de gostar de ter vida privada. As festas sociais e o protagonismo são as coisas que menos me interessam. Gosto das pessoas como seres humanos, só isso. Quando era jovem vi muitos escritores serem interpretados pela sua imagem e não gostei.