Caderno dos nómadas que (en)cantaram o mundo

Dois homens estão sentados na Austrália, a beber capuccinos. É a primeira vez que se encontram. Em cima da mesa há um pequeno caderno de apontamentos de capa preta, com um elástico para prender as páginas. O primeiro homem é filho de um cossaco que conseguiu escapar às tropas de Estaline saltando de um comboio para um campo de girassóis - de salto em salto, alcançou os subúrbios do deserto australiano, onde montou uma destilaria de vodka e teve três filhos.O segundo homem é um forasteiro que está a tentar perceber "essa fundamental incapacidade de ficar no mesmo lugar".O primeiro homem é um estudioso dos lugares sagrados aborígenes. Chama-se Arkady Volchok. O segundo homem toma notas para um livro. Chama-se Bruce Chatwin. Estamos em 1985, numa cafetaria de Alice Springs - "grelha de ruas escaldantes onde homens de meias brancas compridas estavam constantemente a entrar e a sair de Land Cruisers". Na mesa junto à janela, o filho do cossaco fala da filosofia terrena dos aborígenes.Até ao entardecer, quando bandos de rapazes com chapéus à cowboy caminham desengonçadamente na direcção do café, um Génesis alternativo floresce no caderninho de capa preta: "Os Aborígenes acreditavam que o antepassado totémico de cada espécie se cria a si mesmo na lama do seu próprio buraco de água original. Depois dá um passo e canta o seu nome, que constitui o verso pelo qual começa um canto. (...) Parte então para uma longa viagem, passo a passo e cantando o mundo para fazê-lo existir: as rochas, as escarpas, as dunas de areia, as árvores..."Cada canto é um mapa, rasto de palavras e notas musicais, pistas-sonho que cobrem a terra como vias de comunicação entre as tribos mais distantes. Os aborígenes - que cortavam uma veia no braço e derramavam uma gota do seu próprio sangue no solo quando queriam agradecer à terra pelas suas dádivas - tomavam estas rotas invisíveis como "pegadas dos antepassados" ou "caminho da lei". Os europeus conhecem-nas pelo nome de "pistas dos sonhos" ou "itinerários cantados". "The Songlines" chamou Bruce Chatwin ao livro nascido desses apontamentos, um dos últimos que escreveu, já doente - viria a morrer em 1989, três anos depois da sua publicação (em português, está editado na Quetzal, com o título "O Canto Nómada").Na espartana bagagem dos nómadas há quase sempre um pequeno luxo extra, vital, como um talismã. No caso de Chatwin, era o caderninho de capa preta, com um elástico para prender as páginas e um bolso interior, que Matisse, Hemingway ou Céline tornaram um fétiche: o Moleskine.Conta a lenda - hoje disponível na literatura delicadamente inclusa em cada caderno - que Chatwin comprava os seus numa loja da parisiense Rue de l'Ancienne Comédie. Em cada exemplar, assinava o nome, indicava duas moradas e o valor da recompensa, em caso de extravio, e numerava as páginas. Pouco antes da sua partida para a Austrália, ao encomendar cem Moleskine, descobre que até o último fabricante deixara de os produzir. Essa pequena morte é laconicamente descrita no princípio do encontro com o filho do cossaco, na cafetaria de Alice Springs:- Importa-se que tome uns apontamentos?- Faça favor.Tirei do bolso um bloco-notas de capa de oleado preta com as páginas seguras por um elástico.- Bonito bloco-notas.- Costumava arranjá-los em Paris - disse. - Mas agora já não há.As derradeiras páginas dos Moleskine de Chatwin foram preenchidas com os nómadas que do deserto inventaram um mundo (en)cantado. Anos depois, os pequenos livros renasceram, nos seus vários formatos: páginas em branco, pautadas, quadriculadas; caderno de apontamentos, agenda diária, agenda telefónica; capa negra (quase sempre) ou azul Yves Klein. Sempre com um elástico para segurar as páginas - sobretudo o que for crescendo entre elas - e, na contracapa, um bolso para as folhas soltas. Dão-se em branco ou acabados, têm princípio e fim, não se apagam. Uma existência de papel desenhada à mão. Ainda nos lembramos de como se faz?